Imagine se Bolsonaro lesse

Exatamente como seu antecessor populista como ele, que, como ele, gosta de posar de gente do povo, Jair Bolsonaro não é chegado à leitura. Nem gibi do Pato Donald ou do Bolinha e Luluzinha deve ter lido, na infância – têm letra demais esses gibis.

É um defeito que acaba sendo bastante positivo para ele.

O que sentiria Jair Bolsonaro se lesse o que os jornais do dia trazem sobre ele?

Aqui vão alguns trechos de textos sobre ele publicados apenas neste domingo.

“Traços de arrogância, estupidez e prepotência do presidente pressagiam a iminência de um desastre político”, escreve no Globo o psicanalista Paulo Sternick em artigo cujo título é “Há limite para a maldade de Bolsonaro?”

E ele prossegue: “Eles causam na sociedade tensão, susto e medo crescentes. E não sem razão, diante de suas reações desafiadoras que desacatam o bom senso e a ordem constitucional. Torna-se nebuloso distinguir entre o que é ameaça e intimidação daquilo que realmente é capaz de cometer. Opera como se pudesse manter a democracia na condição de refém, tendo supostamente consigo as Forças Armadas. Ou, acuado, blefa para acuar seus oponentes, já que não consegue, simplesmente, dialogar e fazer acordos com demais Poderes.”

E mais adiante:

“Além de colocar em perigo o pacto democrático, que ataca sem trégua, Bolsonaro está rompendo o pacto da racionalidade e o da sanidade. Cada vez mais o país vive um pesadelo e teme que a ameaça se torne um ato. Porém, nem todos percebem que já estamos sofrendo um estado de exceção: o decreto é imaginário e os efeitos, subjetivos. Como todo populista de extrema direita, ele já está em nossa casa — como diria Antonio Scurati: nem precisamos esperar que suprima as instituições democráticas. Ele já as deteriora por dentro. O golpe já aconteceu: na política, cultura e nas artes, na ciência e nas comunicações. Bolsonaro vem pautando uma agenda anacrônica de discussões, impondo um debate e dispersando o foco. A Terra é plana? Democracia ou ditadura?

Opera em nome de uma bandeira que já se esvaziou e se perdeu. Seus seguidores são como zumbis de uma causa fantasmática.”

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Bolsonaro encolheu, escreveu Dorrit Harazim em seu artigo no Globo.

“Bolsonaro, seja na cena do abraço (de Abraham Weintrau na quinta-feira, 18/6) ou longe dela, não tem para onde ir. Encolhido, olhar vazado e desprovido de seu talento para farejar fraquezas alheias e improvisar, o presidente pareceu de cera no ‘abracinho’ obtido a fórceps por Weintraub. Pouco a ver com o desconforto em demitir o décimo membro do seu Ministério. Tudo a ver com a implosão do esconderijo de Fabrício Queiroz. Amigo há décadas do atual presidente, Queiroz atuou como faz-tudo ao hoje senador Flávio, enquanto o filho 01 foi deputado estadual do Rio. Por isso, caso decida falar, Queiroz será a testemunha mais apta a elucidar a teia de ligações perigosas do clã Bolsonaro. Como escreveu a jornalista Míriam Leitão, o nome ‘rachadinha’, no diminutivo como é da cultura carioca, reduz o peso do crime que lhes é imputado. Trata-se, no mínimo, de desvio de dinheiro público, com fortes indícios de ser muito mais. A parceria tóxica com a criminalidade miliciana, se comprovada, apertará o cerco a um presidente já sitiado por outros inquéritos, com potencial de levar à sua cassação ou impeachment.”

Ao lado do artigo de Dorrit Harazim, Bernardo Mello Franco escreve:

“Desde que Fabrício Queiroz foi em cana, Jair Bolsonaro suspendeu as paradas no curralzinho do Alvorada. O presidente fugiu dos microfones e se mostrou abatido em dois vídeos divulgados nas redes. Na única menção ao caso, tentou se descolar da prisão do escudeiro. Em 75 segundos, contou três mentiras e confundiu desejo com realidade.”

Em seguida, o jornalista enumera as mentiras: Bolsonaro mentiu ao dizer que Queiroz estava em Atibaia para ficar “perto do hospital”. Mentira: Atibaia fica a 96 quilômetros do Albert Einstein, no Morumbi, em São Paulo. “Chegaria mais rápido se continuasse no Rio e pegasse um vôo da ponte aérea.”

Bolsonaro mentiu ao dizer quwe Queiroz estava à disposição para dar depoimento. Mentira: Queiroz não compareceu “a diversos depoimentos marcados e remarcados” desde 2018.

Bolsonaro também mentiu – “torturou os fatos”, como bem diz o jornalista na página 3 do Globo – ao afirmar que “não está envolvido” nas traficâncias do faz-tudo. É mentira. “Além de pagar a escola de suas netas, Queiroz depositou R$ 24 mil na conta da primeira-dama Michelle Bolsonaro. O ex-PM é homem de confiança do patriarca do clã. Estava pendurado no gabinete de Flávio, mas seu verdadeiro chefe era Jair.”

Em 75 segundos, três mentiras e um auto-engano: “Bolsonaro encerrou o monólogo com nove palavras de auto-engano: ‘Da minha parte, tá encerrado aí o caso Queroz’. Na verdade, está só começando.”

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Em artigo no  Blog do Noblat, na Veja (e também aqui), a jornalista Mary Zaidan escreve:

“Mais de um milhão de brasileiros infectados e 50 mil mortos pela Covid-19, economia nocauteada, ilicitudes eleitorais e outras na mira policial-judicial, assombrações ressuscitadas com a prisão de Fabrício de Queiroz. Apavorantes para o presidente Jair Bolsonaro – que passou a ouvir com maior estridência os ecos de cassação e impeachment –, os últimos dias fazem saltar aos olhos as aberrações de um governo chefiado por um gerador de crises incansável, que só se preocupa com o seu clã e se nega a assumir suas responsabilidades. ‘Não vão botar no meu colo essa conta.’”

E conclui:

“Alegar ignorância ou jogar a culpa dos pecados nos outros são truques comuns. Tão manjados que não enganam mais ninguém. A conta é pesada e não há clima para terceirizá-la. Muito menos para a pendura.”

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Eliane Cantanhêde, no Estadão, fulmina:

“A fuga do inacreditável Abraham Weintraub para Miami e a chegada do também inacreditável Mário Frias à Secretaria de Cultura trazem ao governo um sensação de fim de festa, ou de fim do mundo, com o presidente Jair Bolsonaro catatônico, os generais aturdidos, o trio jurídico tentando um “respiro” do Supremo e o pau comendo na Justiça e na pandemia. Com um milhão de contaminados e 50 mil mortos, o foco do presidente está em outros números: 01, 02 e 03.

Situação dramática. Os militares finalmente se dão conta, o mundo jurídico age e o político se preserva. Todos conversam com todos procurando uma luz no fim do túnel: ex-presidentes (menos Lula), atuais e ex-ministros do Supremo, da Defesa e da Justiça, políticos de diferentes cores, juristas independentes, militares da ativa e da reserva. Os bolsonaristas veem “abuso” e “perseguição” contra Bolsonaro, o STF e os demais lembram que os ataques e ameaças partiram dele. Mas há uma saudável operação de guerra para defender o País – apesar do presidente.”

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No Globo, Merval Pereira escreveu sobre os gestos do presidente Bolsonaro em direção ao Supremo Tribunal Federal (STF), uma tentativa de baixar a bola, de tentar baixar as tensões. Segundo ele, tais gestos “têm pouca chance de reverter o relacionamento institucional entre os dois Poderes por uma razão simples: eles não têm o poder de paralisar as investigações que envolvem Bolsonaro ou seu círculo íntimo, e nem isso pode ser objeto de proposta de negociação. Seria ofensivo.”

E Merval Pereira conclui:

“Além de tudo, há um componente nessa equação de paz que não está sob controle: as milícias digitais, que o governo diz não controlar. Como as investigações estão caminhando na direção de exibir os coordenadores e os financiadores desses grupos, e o próprio presidente estimula as manifestações com motes antidemocráticos de fechamento do Congresso e do STF, ficará muito difícil desvincular o presidente e seu círculo íntimo dos agressores.

O recado que o presidente tem recebido dos contatos com ministros do Supremo pode ser resumido à resposta do ministro Luis Roberto Barroso a um interlocutor que o procurou para saber se o presidente tinha o que temer em relação ao inquérito do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que preside. Disse Barroso: ‘Só se tiver feito alguma coisa errada’.”

A questão – digo eu – é que Jair Bolsonaro tem feito coisa errada sem parar, desde que assumiu a Presidência.

Na verdade, fez muita coisa errada durante a campanha eleitoral de 2018, como o Tribunal Superior Eleitoral está verificando.

Na verdade, desconhece-se algo que Jair Bolsonaro tenha feito certo na vida.

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Na Folha de S. Paulo, Bruno Boghossian escreveu:

“Mais do que nunca, Jair Bolsonaro tenta convencer seus apoiadores de que é vítima de uma conspiração de gente poderosa. O avanço do Supremo sobre seus aliados e a prisão de Fabrício Queiroz reduziram as linhas de defesa do presidente. O cerco se ampliou tanto que restou apenas a ideia de perseguição.

Bolsonaro quer vender a impressão de que suas derrotas no Congresso não têm relação com a incompetência do Planalto e de que a interferência na PF foi só uma maneira de conter injustiças contra sua família. As mortes na pandemia seriam uma fraude grosseira e o foguetório lançado por seus aliados sobre o STF deve ter sido uma ilusão de ótica.

O presidente, que nunca aceitou a limitação de seus poderes, explora o próprio fracasso. Sem apoio consistente na Câmara, o governo faz propaganda de uma suposta conspiração engendrada por atores políticos.”

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O título do artigo deste domingo de Miriam Leitão no Globo é uma pergunta: “Bolsonarismo é uma ideologia?” E, na primeira frase, ela responde: não, não é.

O bolsonarismo, diz a jornalista, é um amontoado de preconceitos com o ódio à democracia:

“O primeiro ponto desse conjunto disforme de ideias está na frase de Abraham Weintraub, de que todos os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) deveriam ir para a cadeia. Isso é a defesa do totalitarismo. Nem a ditadura militar fez isso. Quando se diz que alguém é defendido pela ‘ala ideológica’, é uma interpretação caridosa para um grupo de malucos que sonha com a ditadura de Bolsonaro. ‘Intervenção militar com Bolsonaro’ é a faixa sempre presente nas manifestações governistas.

Não há um conjunto orgânico de ideias que se possa chamar de ideologia bolsonarista. O conservadorismo que defendem não é o pensamento conservador clássico. É o reacionário, no sentido técnico de saudosismo de um passado idealizado. Em cima da lareira do sítio bolsonarista de Atibaia havia uma bandeira escrito ‘AI-5’. O mesmo decreto que é defendido nas passeatas. A maioria das pessoas que grita por esse Ato Institucional não saberia dizer o que ele representaria na prática.

O ódio ao outro, ao diferente de si, é resumido na palavra ‘comunista’, conceito largo no bolsonarismo, no qual cabem todas as pessoas que não cultuam o mesmo chefe. Bolsonaro é o último prisioneiro da Guerra Fria. Ela já acabou há três décadas, mas ele continua caçando comunistas. E o faz por diversas razões. Primeiro, porque a sua mente se sente mais confortável em um mundo bipolar. As muitas complexidades contemporâneas o deixam confuso. Segundo, porque ele gostaria de ter experimentado o que seus heróis viveram, quando tiveram poder de mando nos porões dos quartéis. O maior dos heróis de Bolsonaro, como ele mesmo diz, é Carlos Alberto Brilhante Ustra. Terceiro, porque ele precisa fabricar um inimigo para vender aos seus seguidores.”

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Ódio. A base de tudo para Bolsonaro, os fedelhos Bolsonaro, os tais zeros, os bolsonaristas, é o ódio.

Eles odeiam o progresso, a ciência, a inteligência, o conhecimento, a cultura, as artes.

Eles só têm prazer com a destruição, o derrubar, a morte – das florestas, dos índios, das manifestações culturais, artísticas, do respeito às leis, da liberdade de imprensa, da democracia.

O bolsonarismo é algo terrivelmente doentio.

Será que o bolsonarismo faz pouco caso da Covid-19 porque vê nela uma ameaça? Por que não suporta que exista algo mais doentio, destruidor, matador, do que ele mesmo?

21/6/2020

Um lembrete: esta série de textos e compilações “Fora, Bolsonaro” não tem periodicidade fixa.

O que vai parar o louco perigoso, o terrorista?

Bolsonaro asfixia o sistema de saúde (20)

Os fanáticos aplaudem, é claro. Mas a exibição do circo de horrores enfraquece Bolsonaro. (19)

Para presidente criminoso, impeachment. (18)

 

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