Há estadistas – e estradistas

Algumas questões são misteriosas. Não é fácil achar resposta para elas. Por exemplo: por que o Queiroz depositou R$ 89 mil na conta da primeira-dama, dona Michelle?

Outro exemplo: por que o senador Flávio Bolsonaro, o filhote número Zero Um, precisou entrar com quase 20 pedidos na Justiça para que sejam interrompidas as investigações sobre as verbas do seu gabinete de deputado estadual do Rio de Janeiro, se ele garante de pé junto que nunca houve nada de ilegal em qualquer uma das transações em dinheiro vivo feitas por ele e por seu fiel faz-tudo, o mesmo Queiroz da outra pergunta?

São questões complexas, complicadas, difíceis – que nem sânscrito, física quântica, sexo dos anjos.

Mas há pontos que, bem ao contrário, são simples. Por exemplo: não parece haver grandes dúvidas a respeito do que deve fazer um presidente da República. Ao presidente da República cabe governar, ora bolas. Coordenar a equipe. Estabelecer as diretrizes, deixar claras quais são as prioridades. Reger a orquestra. Dar o tom. Concertar – promover o concerto.

Concertar! Que belo verbo! Diz o Aurélio: “Pôr em boa ordem. Dar melhor disposição. Compor. Ajustar. Harmonizar, conciliar. Pactuar. Ajustar, combinar.” Outros dicionários usam “compatibilizar, arranjar, estabelecer, deliberar, arrumar”.

Os serviços de Sherlock Holmes talvez fossem necessários para que o país descobrisse por que o Queiroz depositou R$ 89 mil na conta da primeira-dama, dona Michelle, ou por que o Zero Um insiste e não desiste de impedir as investigações, já que não cometeu crime algum e cada um dos depósitos em dinheiro na sua conta  podem ser perfeitamente explicados.

Mas seguramente os préstimos do maravilhoso detetive seriam dispensáveis diante da pergunta “o que deve fazer um presidente da República”. Se por acaso a questão lhe fosse posta, ele com toda certeza responderia: – “Elementar, meu caro Watson! Ao presidente da República cabe governar.”

O Conselheiro Acácio seguramente acharia essa resposta – ao presidente da República cabe governar – por demais acaciana.

A verdade é que, neste país afundado até a medula na maior crise sanitária desde a gripe espanhola de 1918, em uma crise econômica maior ainda do que aquela em que mergulhou por obra e graça de Dilma Rousseff, até então a pior presidente que esta República jamais teve, o que não falta é coisa para o presidente, o maestro, o regente, concertar – pôr em boa ordem, dar melhor disposição, compor, ajustar, harmonizar, conciliar, -pactuar, ajustar, combinar, compatibilizar, arranjar, estabelecer, deliberar, arrumar.

E o que fez o presidente Jair Bolsonaro, durante uma hora e dez minutos, na sexta-feira, 4 de setembro de 2020?

Ficou parado à beira da estrada acenando para os motoristas de caminhão que passavam!

Durante uma hora inteira e mais dez minutos, o presidente da República Federativa do Brasil ficou parado de pé à beira da Régis Bittencourt acenando para os motoristas de caminhão! (A foto é de O Globo.)

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Bolsonaro tem feito todo tipo de idiotice ao longo destes terríveis, desastrosos, infelizes 20 meses, desde que assumiu o cargo de presidente. Em palavras, ações, omissões.

Tem, a cada discurso, a cada gesto, a cada silêncio, jogado no lixo a principal bandeira que apresentou durante a campanha eleitoral – o combate à corrupção. Com os rebentos Zero Um e Zero Dois enrolados com as rachadinhas – a apropriação de dinheiro público para encher o bolso do parlamentar –, e sob suspeita de ligações mais que perigosas com as milícias do Rio de Janeiro, Bolsonaro fez todo o possível para afastar seu ministro da Justiça, Sérgio Moro, símbolo da Lava-Jato, a força-tarefa anti-corrupção. Objetivo conseguido, permitiu que seu borra-botas, perdão, seu advogado-geral, perdão, seu Procurador-Geral Augusto Aras fizesse todos os esforços possíveis para acabar de vez com essa bobagem de caçar corruptos.

Nesta mesma semana que passou, cometeu a loucura, a absoluta insanidade de sair defendendo a idéia irracional, idiota, anti-científica, de que vacinação não é obrigatória. Cem anos depois da luta de Oswaldo Cruz pela vacinação, Bolsonaro dá razão aos energúmenos que, pelos motivos mais estapafúrdios, se recusam a ser imunizados, tornando-se ameaça para o resto da população.

Nesta mesma semana, seu governo encaminhou finalmente – depois de 20 loooongos meses de absoluta inação nesse quesito fundamental para o ordenamento das contas públicas – um projeto de reforma administrativa que não passa, como muito bem definiu O Estado de S. Paulo em editorial, de uma proposta de mudanças no R.H. dos funcionários públicos. Mantém absolutamente intocados todas as regalias dos atuais servidores, fazendo alterações apenas para os que vierem a se tornar funças no futuro. E garantindo que, no futuro, várias castas continuarão com seus mesmos – e muitas vezes absurdos – privilégios atuais.

Por menor, menos abrangente, menos ambiciosa que seja, é, afinal de contas, uma reorganização do departamento de R.H. dos funças públicos, e portanto é bem-vindo, é positivo. Encontrará resistências, evidentemente: o funcionalismo público tem um dos lobbies mais fortes, mais vigorosos deste país. Então seria o momento de o presidente da República defender o projeto do seu governo. Exercer a presidência. Governar. Concertar.

Mas não. Não falou uma palavra sobre o projeto de “reforma administrativa”. Foi para a beira da Régis Bittencourt acenar para os motoristas de caminhão.

Toda a sabedoria política de Jair Bolsonaro, toda a sua capacidade de trabalho consiste em proteger a si mesmo e a seus filhotes das investigações da Polícia e da Justiça e fazer campanha pedindo votos na próxima eleição.

Como definiu com precisão Vera Magalhães no Estado deste domingo, 6/9, Bolsonaro “deixou o Exército pela porta dos fundos para entrar na política pela mesma via”. Depois que saiu do Exército – após ser julgado na Justiça Militar por planejar atos terroristas, de explosão de bombas em quartéis para chamar a atenção para os soldos pagos aos militares –, Bolsonaro passou três décadas como deputado do baixo clero e como treinador de seus zeros para serem a mesma coisa, parlamentares do baixo clero.

Em 28 anos no Parlamento, jamais apresentou um projeto.

Em 20 meses na Presidência, jamais apresentou um projeto. Uma idéia para a frente, para o futuro.

Tudo o que faz é a favor da morte, da destruição, do retorno às trevas, às cavernas.

É como disse Míriam Leitão em um artigo em O Globo já de várias semanas atrás, no dia 19/8:

“Bolsonaro não sabe governar. Sua agenda se resume à defesa dos clubes de tiro, onde seus filhos gostam de brincar, ao desregramento do trânsito, às vantagens corporativas de militares e policiais. Presidentes assim em épocas difíceis costumam criar falsos adversários, mentir sobre a realidade e entrar em campanha. Bolsonaro usou as três técnicas e com elas tenta encobrir sua incapacidade administrativa.”

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O fato de ter ficado durante 70 minutos parado de pé ao lado de uma rodovia acenando para os motoristas de caminhão me parece absolutamente chocante. É a prova vívida, clara, cabal, definitiva, de que ele não tem a menor idéia do que seja governar. A existência, para Jair Bolsonaro, consiste em pedir votos.

Em editorial neste domingo, O Estado de S. Paulo, com brilhantismo, foi exatamente ao ponto central, ao fulcro da questão:

“A Presidência da República não é para qualquer um. Para exercê-la é preciso uma série de qualidades que separam os estadistas dos aventureiros e oportunistas.”

Jair Bolsonaro é apenas um aventureiro, um oportunista. Uma figura menor, que “deixou o Exército pela porta dos fundos para entrar na política pela mesma via”.

Há estadistas. E há estradistas.

Bolsonaro é um estradista.

Não sabe governar. Não sabe nada na vida – a não ser acenar pedindo votos.

É uma ameaça perigosíssima à democracia brasileira. À saúde da população.

Deveria estar sendo objeto de um processo de impeachment.

Até se admite que a Câmara não tenha ainda sequer examinado qualquer um das cinco dezenas de pedidos de impeachment já apresentados à Mesa: o país está mergulhado nas crises sanitária  e econômica. Não haveria, neste momento, condições políticas para o início de um processo de impeachment.

Mas é preciso que fique – sempre – bem claro que Jair Bolsonaro é uma ameaça perigosíssima à democracia brasileira, à saúde da população.

Quando a fase mais aguda da pandemia passar, a Câmara dos Deputados tem a obrigação de examinar aqueles 50 pedidos.

O Brasil precisa se livrar de Jair Bolsonaro, o estradista.

Como disse Gilberto Gil, nos jornais deste domingo, “algo só mudará no Brasil quando mudar o governo”.

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O presidente tem toda a razão

Editorial, O Estado de S. Paulo, 6/9/2020.

Em um evento recente no Palácio do Planalto, o presidente Jair Bolsonaro desabafou: “Só Deus sabe o que já passei e passo dentro desta sala, não queiram a minha cadeira”. A sala em questão é o gabinete da Presidência, e a cadeira, aquela que lhe cabe ocupar como o vitorioso da eleição de 2018. “Com todo o respeito, não sou super-homem, mas não é para qualquer um.”

De fato, Jair Bolsonaro tem toda a razão: a Presidência da República não é para qualquer um. Para exercê-la é preciso uma série de qualidades que separam os estadistas dos aventureiros e oportunistas.

A primeiríssima dessas qualidades é ter um projeto claro de País – isto é, um conjunto de propósitos e compromissos públicos de longo prazo em torno dos quais o presidente deve se esforçar para construir maioria ou consenso político. Sem esse projeto e sem esse consenso, como convencer a sociedade a fazer sacrifícios em nome do bem-estar de todos, agora e no futuro? A destruição do legado de governos passados, por pior que esse legado tenha sido, não pode ser o único objetivo de um presidente, nem mesmo o principal. É preciso ter, isso sim, aptidão para construir.

Outra qualidade fundamental é a capacidade de compreender o que é o poder e como exercê-lo numa sociedade democrática. A eleição presidencial não dá a seu vencedor a prerrogativa de exercer o poder fora dos limites inscritos com clareza meridiana na Constituição. O presidente da República não pode nem deve esperar que os demais Poderes se submetam a seu tacão, pois todos são igualmente legítimos. Deve ter a grandeza de reconhecer igualmente que seu poder não existe em si. É, antes, expressão da vontade coletiva, construída por meio de amplo debate público, a partir da qual se extrai a base de uma governança genuinamente democrática. Isso é bem diferente do poder exercido de maneira arbitrária, em confronto aberto e permanente com a parte da sociedade que se recusa a ver legitimidade nas decisões de governo justamente porque, intimidada pela violência, que muitas vezes não é só retórica, não consegue ter voz no debate sobre a administração do País.

Além disso, um presidente deve demonstrar respeito reverencial pelas instituições que compõem a República, a começar pela própria Presidência – que deve ser exercida com o decoro que o mais alto cargo da administração demanda. Não se pode aceitar que um presidente se permita vulgaridades a pretexto de se aproximar do povo. O chefe de Estado não é um qualquer – foi eleito para representar o País e seus valores. Rebaixa a Presidência aquele que a ocupa como se estivesse num churrasco com os amigos.

Finalmente, um presidente da República que dignifica o cargo é aquele que respeita a imprensa, cuja existência, livre e saudável, é o maior sintoma de uma democracia pujante. A liberdade de imprensa não é uma concessão do Estado ou dos governantes; é, antes, uma condição sem a qual as demais liberdades estarão sob risco. Sem os veículos de comunicação, que levam os fatos ao conhecimento do público, dando-lhe condições de elaborar juízos racionais sobre a realidade, a sociedade estaria à mercê dos que pretendem impor o pensamento único. Desprovido de consciência crítica, proporcionada pelo escrutínio constante do poder, nenhum cidadão é livre – nem sequer cidadão chega a ser. Não é à toa que candidatos a ditador vivem a ameaçar jornalistas e a atacar a imprensa, pois estes são, por definição, o arrimo das sociedades democráticas.

Como se observa, não é mesmo fácil ser presidente da República. É um fardo e tanto, que só líderes políticos muito preparados, intelectual e emocionalmente, são aptos a carregar. Infelizmente, a democracia, por mais madura que seja, não é capaz de garantir a qualidade dos presidentes que serão eleitos, ainda mais em tempos de confusão, mentiras e rebaixamento moral como estes que ora vivemos; por outro lado, a democracia tem mecanismos muito eficientes para pelo menos impedir que os presidentes flagrantemente incapazes de exercer o cargo continuem indefinidamente no poder.

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Patriotismo de fancaria

Por Vera Magalhães, O Estado de S. Paulo, 5/9/2020.

“Patriotismo significa apoiar o País. Não significa apoiar o presidente.” Diferentemente de outras frases citadas com frequência e falsamente atribuídas a pensadores, esta foi de fato escrita por Theodore Roosevelt, 26º presidente norte-americano (republicano), num ensaio de 1918 em que falava sobre Abraham Lincoln e a liberdade de expressão.

Trago a citação a este texto na véspera do Sete de Setembro, feriado nacional que será desculpa para mais um show de uso de fancaria do termo por parte de Jair Bolsonaro e seus seguidores, num truque comum a regimes de corte nacional-populista e do qual o presidente brasileiro lança mão desde que deixou o Exército pela porta dos fundos para entrar na política pela mesma via.

O sequestro do patriotismo permite ao “capitão” desde desqualificar qualquer opositor como sendo inimigo do Brasil até cunhar frases absurdas como a de que donos de supermercados deveriam demonstrar seu amor à Pátria baixando o preço dos produtos.

É essa apropriação indébita que faz com que o discurso propagandista vendido pela Secom, transformada por Bolsonaro num Ministério da Propaganda, eleja aproveitadores como “heróis” e venda uma narrativa parcial como sendo a História do Brasil.

“Nosso presente está repleto de passado”, disse a historiadora e antropóloga Lília Moritz Schwarcz ao ser questionada por mim sobre o uso torpe do patriotismo como muleta por governantes durante o Roda Viva especial da Independência do Brasil que será exibido nesta segunda-feira.

O recurso a um passado falsamente idealizado não é um expediente original do bolsonarismo. Ele é uma das ferramentas básicas por meio das quais regimes e líderes políticos autoritários constroem a mística em torno de si.

No caso do atual ocupante da Presidência do Brasil, essa narrativa inventada inclui dizer que nossa ditadura militar foi um período “mal interpretado”, como o próprio Bolsonaro fez questão de dizer para um incrédulo Al Gore nos corredores do Fórum Econômico Mundial, em Davos, em 2019. Dentro dessa falsificação, criminosos sanguinários como o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra são metamorfoseados em heróis.

O mau uso do patriotismo – um conceito que, em vez de ajudar a clarear, os setores “progressistas” da sociedade preferem olhar com soberba, nojinho ou enfado – faz com que mentiras como as cunhadas por Bolsonaro para se eleger, para atentar contra as instituições e para boicotar o combate à pandemia se legitimem junto a uma larga faixa do eleitorado.

Patriotismo nada tem a ver com a versão revisitada dos “fiscais do Sarney” que Bolsonaro evocou na sua última viagem de campanha antecipada sem agenda alguma. Uma visão de amor à Pátria por parte do presidente o levaria, por exemplo, a defender a vacinação em massa e obrigatória para seu povo como um direito de todos e um dever do governo, e não uma “imposição indevida”, como fez em mais uma fala criminosa em que usurpou conceitos, dessa vez o de liberalismo, que ele desconhece completamente.

Inebriado por uma circunstancial melhora de sua popularidade à custa de mais uma ilusão, a de que de repente passou a se preocupar com os pobres graças ao auxílio emergencial, Bolsonaro vestiu o figurino populista e com ele acha que poderá escapar ileso da gestão desastrosa em áreas essenciais, como o combate à pandemia e a política ambiental, e das investidas sistemáticas que fez contra a democracia.

É preciso que os verdadeiros patriotas, aqueles que não usam a Bandeira do Brasil como abadá, pensem em feriados como o de amanhã como um momento de reflexão a respeito desse presente cheio de um passado do qual a História sem narrativa não permite sentir saudades nem orgulho.

6/9/2020

Este post pertence à série de textos e compilações “Fora, Bolsonaro”. 

A série não tem periodicidade fixa.

Bolsonaro tem que ser responsabilizado por boa parte da tragédia dos 100 mio mortos. (24)

Jairzinho paz e amor é genocida igual ao de verdade, (23)

Se fosse um ser humano mais ou menos normal, não aguentaria enfrentar tangtas críticas. (22)

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