Erros se corrigem

As manifestações que tomaram de assalto o território americano foram emocionantes. Nelas podíamos ver negros, brancos, latinos, judeus, orientais, todas as etnias e representantes de todas as religiões, irmanados na dor e na revolta com a morte brutal de George Floyd. Seu martírio, longo o suficiente para que ouvíssemos, nitidamente, onze vezes seu lamento ‘I can’t breathe’ e o apelo, ‘Mommy! Mommy!, que faz por socorro, até agora ecoam pelo mundo.

O policial que o matou foi de uma crueldade absoluta. E os dois colegas que a tudo assistiram impassíveis, merecem, em minha opinião, a mesma pena que for dada ao assassino. São três seres abjetos, que não merecem fazer parte da Polícia do país que canta Black Lives Matter!

A cena chegou aqui trazendo a dor dos negros americanos que veio juntar-se à dor dos nossos negros. E com ela inúmeras idéias, algumas originárias dos States e outras nascidas aqui mesmo. Umas inteligentes e extremamente necessárias, outras estúpidas e destituídas de qualquer valor. Por exemplo: acabar com a Polícia. Qual o sentido? Por acaso os crimes vão sumir como num passe de mágica? As cidades serão paraísos, onde viver é sempre muito tranquilo?

Mas tem pior. Revoltante é o racismo, o preconceito, a perseguição aos negros e a tal da supremacia branca, que não existe nem nunca existiu. Ou ainda pior: apagar os mais fortes sinais do horror que já foi vivido em nosso país durante o longo período da escravidão. Como? Derrubando estátuas, rasgando páginas da nossa História, apagando o passado na esperança de que, assim, consertaríamos tudo e renasceríamos um povo ideal, sem máculas?

Como tudo mais, isso não nasceu aqui. É cópia. Será que alguém realmente acha que ao derrubar a estátua do traficante de escravos em Bristol, Inglaterra, a queda da imagem apagou o passado?

Ao ler que a HBO Max recolheu as cópias do magnífico … E O Vento Levou, filme histórico, com grandes interpretações, e que é uma das obras-primas do cinema americano, fiquei apavorada com o que possa vir a suceder aqui. O filme retrata a segregação racial que era a norma no Sul americano e negros podiam ser assassinados impunemente por infrações reais ou imaginárias. Mas é algo mais também: idealiza a figura do escravo da casa, que fazia parte da família dona da fazenda dos O’Hara.

A saga de Scarlett O’Hara se passa durante a Guerra Civil americana (1861-1865). De lá para cá já se passaram cento e cinquenta e cinco anos. Tempo suficiente para corrigir todos os erros que o homem cometeu e fazer do mundo um lugar acolhedor para todos nós. Apagar a História, derrubar estátuas, queimar livros e refazer nosso passado não vai resolver nada. O que resolveria seria mais instrução, mais educação, mais amor ao próximo e mais gratidão a Deus. E que todos nos esforçássemos para merecer viver melhor.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, na Veja, em 12/6/2020.

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