Derci

Não sei se isso ainda existe hoje em dia, quando tudo está tão absolutamente globalizado, mas houve um tempo, num passado remoto, em que os meninos da província se sentiam um tanto intimidados com as moças das metrópoles. Fascinados, é claro, encantados – mas também, ou sobretudo, um tanto intimidados.

Nem me lembro se mais tarde, no tempo em que fomos próximos, ou ao longo das muitas décadas seguintes, em que estivemos distantes mas ligados sempre por uma simpatia misturada com curiosidade, respeito e admiração, contei para Derci que jamais fui capaz de esquecer o dia em que ela me levou ao cinema.

Sei que dia foi porque anoto as coisas. Está no meu caderno de cinema, ainda o primeiro deles. Foi no dia 1º de março de 1965, na sessão das 17 horas, e o cinema não poderia ser mais majestoso – o Metrópole, na galeria do mesmo nome, na Avenida São Luís.

Belo Horizonte, minha cidade, tinha bons cinemas – mas há poucos cinemas no mundo como era Metrópole de São Paulo, com aquele teto direito quádruplo, quíntuplo, sêxtuplo no hall de entrada, e aquela parede frontal coberta de um espelho que não terminava nunca.

Eu tinha 15 anos, Derci tinha 13, mas eu era o capiau da cidade então pequena, e ela era a moça da cidade que não tem mais fim, não tem mais fim, como Caetano cantaria três anos depois.

E era linda de morrer, de matar.

Que adolescente de 15 anos não se sentiria pequenino diante daquela princesa?

Que coração de adolescentes 15 anos não derreteria por aquela maravilha?

***

Vários, vários, vários anos depois, no começo da década de 90, Derci e eu nos revimos algumas vezes num chique, caro, badalado restaurante dos Jardins cujo nome se recusa a aparecer na minha cabeça. Ah, era o Esplanada Grill, me sopra o Melchíades.

Já éramos havia décadas tios dos mesmos sobrinhos – os filhos do meu irmão Geraldo e da Celia irmã dela. Eu já estava com a Mary, ela estava em geral no meio de um grupo de amigos; nos falávamos quando um de nós se levantava e passava pela mesa do outro. Lembro de termos brincado ao menos uma vez que, depois de tanto tempo, nós dois estávamos juntos num lugar danado de caro, chique, badalado – ela por ser da turma do DiGenio, o João Carlos DiGenio do Objetivo, onde trabalhou por décadas, eu por ser da turma do Rodrigo Lara Mesquita, com quem trabalhei por décadas. (Havia uma permuta, e os editores-executivos da Agência Estado tínhamos direito a jantar na faixa em alguns lugares chiquetérrimos da cidade que não tem mais fim, não tem mais fim, não tem mais fim.)

Não sei o que teria passado pela cabeça dela, naquelas vezes em que nos vimos lá – distantes mas ligados sempre, repito, por uma simpatia misturada com curiosidade, respeito e admiração –, mas euzinho, eterno capiau, pensava em coisas tipo: que engraçado, aqueles meninos que ficaram amigos na Casa Verde estão aí, estão bem, passam bem; ralaram, trabalharam, e, diabo, estão bem.

Nada mal para o provinciano aqui, que o pai dela uma vez amaldiçoou dizendo que bebia demais e ganhava pouco demais. Nada mal para nós, que ralamos, trabalhamos duro.

***

Hoje, umas muitas horas depois que recebi a notícia da morte de Derci, tive a coragem de mexer nas minhas coisas até encontrar um pequeno monte de cartas dela. São várias, e longas, e lindas – todas de 1970, quando ela estava com 18 e eu com 20, e tínhamos trocado de papel. Eu tinha vindo para a cidade dela, a maior metrópole do país – e ela tinha ido para a província, a cidade pequena, Curitiba, onde, na casa da irmã dela e do meu irmão, passou um tempo fazendo cursinho para a faculdade.

Foi a época em que estivemos mais próximos.

Um tema constante nas cartas de Derci é o estudo, o ralar. A necessidade de – e a preguiça, as dúvidas, as inquietações. E o estudo, o ralar.

Nas cartas – escritas com letra bela, esbelta e elegante como ela –, assinava-se Dê. Foi só mais tarde que adotou o Deca de que não se desfez mais.

***

Nem me lembro quando, mas foi muito tempo atrás que ela se radicou em Chicago.

Creio que para Derci a cidade que não tem mais fim, não tem mais fim, não tem mais fim em algum momento ficou pequena.

Veio de Chicago para enterrar a mãe, no dia 13 de março deste ano de 2020 que não deveria ter existido. Sei a data não apenas porque anotei, mas porque foi um dia importantíssimo, definitivo: o último dia em que Mary e eu tivemos contato físico, próximo, com outras pessoas. No dia 15, o dia dos 7 anos da Marina, já não fomos ver a netinha, abraçá-la, beijá-la, lambê-la. A partir do dia 16, entramos em quarentena.

Depois do enterro da Dona Elza, mandou uma mensagem pedindo desculpas por não ter tido oportunidade de falar mais tempo com a Mary e comigo. Bobagem grande: só queríamos que ela e as irmãs – todas tão queridas – soubessem que estávamos lá, ao lado delas.

Em quatro meses de quarentena mundial, se foi.

Até daqui a pouco, Derci querida.

30/7/2020

Na foto de 2013, Derci e a filha de uma amiga dela da Casa Verde. 

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