Com Jair Bolsonaro não tem conversa

Governadores reagiram com vigor, com força, à saída de Nelson Teich do Ministério da Saúde – a segunda demissão no cargo em menos de um mês, no momento em que o país se encontra no olho do furacão da pior pandemia que o planeta já enfrentou em um século.

Não que houvesse muito a defender Nelson Teich – mas é que havia tudo para atacar Jair Bolsonaro.

Houve duras críticas a esse sujeito que, nem tendo sequer chegado a major – porque teve que pedir baixa após ser julgado pela Justiça Militar como terrorista, por seu plano de lançar bombas para chamar a atenção para os baixos soldos, e entende tanto de infectologia quanto de física quântica – se considera o maior de todos os PhDs em Medicina do mundo.

“Estamos à deriva.”

“Um presidente que nada entende de saúde.”

Bem… Exatamente de que o asno entende mesmo?

“Ninguém vai conseguir fazer um trabalho sério com sua interferência nos ministérios e na Polícia Federal.”

“O Brasil acorda assustado com as sucessivas agressões à democracia.”

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É bastante confortador ver essas reações enérgicas dos governadores do Estado, de vários partidos. Até porque cabe a eles e aos prefeitos – conforme entendimento claríssimo, definitivo, do Supremo Tribunal Federal – estabelecer as normas de enfrentamento da pandemia. Cabe a eles, governadores e prefeitos, e não ao malucão da cloroquina, ao Napoleão de hospício que despacha no Palácio do Planalto, definir as medidas para minorar, na medida do possível, o avanço da doença.

Transcrevo aqui, contente, as reações de alguns governadores – mas, depois de transcrevê-las, vou contestar parte do que disse justamente o governador do meu Estado, o governador do partido em que eu vinha votando desde 1989, o governador mais populoso e mais importante Estado da Federação.

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O governador do Espírito Santo, Renato Casagrande (PSB), escreveu no Twitter:

“A saída de mais um ministro da Saúde em meio a pandemia mostra como estamos à deriva no enfrentamento à crise por parte do governo federal. Ou o PR deixa o Ministério agir, segundo as orientações da OMS ou vamos perder cada vez mais brasileiros.”

O governador da Bahia, Rui Costa (PT), também usou o Twitter:

“Inaceitável. Plena #pandemia, em 30 dias, dois ministros da Saúde demitidos por não aceitarem seguir as orientações médicas de um presidente que nada entende de Saúde. O país exige respeito à vida, à medicina e à ciência.”

Também o governador do Rio, Wilson Witzel (PSC), escreveu no Twitter:

“Minha solidariedade, ministro @TeichNelson. Presidente Bolsonaro, ninguém vai conseguir fazer um trabalho sério com sua interferência nos ministérios e na Polícia Federal. É por isso que governadores e prefeitos precisam conduzir a crise da pandemia e não o senhor, presidente.”

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), fez um pronunciamento longo:

“Eu lamento que essa troca tenha sido feita e espero que o sucessor do ministro Nelson continue seguindo a orientação da medicina e da saúde, e que não incorra no grave erro de seguir orientações ideológicas partidárias, pessoais ou familiares. Um ministro da saúde do Brasil deve proteger a saúde dos brasileiros, e não proteger a individualidade da intenção deste ou daquele mandatário.”

E prosseguiu:

“Lamento mais uma vez a perda do ministro Nelson Teich, como lamentei aqui a perda também do ministro Luiz Henrique Mandetta, que também pagou com seu cargo por defender o seu compromisso com a ciência com a saúde e com a vida dos brasileiros.

E em seguida falou grandes, importante, fundamentais verdades – para, em seguida fazer apelos que são absolutamente sensatos, bem intencionados, corretos – mas, infelizmente, inúteis.

“O Brasil acorda assustado com as sucessivas agressões à democracia. Agressões à constituição, agressões às instituições, agressão ao Congresso Nacional, agressão ao Supremo Tribunal Federal, agressões à imprensa, agressões e xingamentos a jornalistas, agressões à ministros do seu próprio governo. Como o senhor fez e continua a fazer. Fez com Gustavo Bebianno, fez com Santos Cruz, fez com Sérgio moro fez com Luiz Henrique Mandetta e agora fez também com Nelson Teich. Presidente Bolsonaro, governe. Administre o seu País com equilíbrio, com paz no coração, com compreensão com discernimento e com grandeza. Pare com agressões.”

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O governador João Doria – assim como vários outros – vem tendo atitudes absolutamente corretas, de bom senso, ao longo dos últimos meses, diante da pandemia. Bem ao contrário do presidente da República, vem defendendo o isolamento social como a única arma para tentar impedir a explosão irrefreável do número de casos da doença.

Suas decisões seguem sempre o que mandam a Ciência, a Medicina, a OMS. Cercou-se de excelentes técnicos – como o dr. David Uip, um dos mais respeitados infectologistas do Brasil –, e obedece ao que eles dizem.

O que João Doria disse diante do afastamento do segundo ministro da Saúde do Brasil em menos de 30 dias tem muito sentido.

À exceção das frases em que ele se dirige a Jair Bolsonaro:

“Presidente Bolsonaro, governe. Administre o seu País com equilíbrio, com paz no coração, com compreensão com discernimento e com grandeza. Pare com agressões.”

São – repito – apelos absolutamente sensatos, bem intencionados, corretos – mas são inúteis.

Não adianta falar com Bolsonaro. É a mesma coisa que falar com uma porta. Uma parede. Um asno, um burro – embora esses sejam animais úteis, ao contrário de Bolsonaro, que não serve para nada que preste.

Bolsonaro jamais teve e portanto jamais terá equilíbrio, paz, compreensão, discernimento, grandeza.

Agora mesmo, no olho do furacão da pandemia, tudo o que ele faz é aumentar o grau de agressões à razão, à lógica.

Ele vai forçar o uso da droga que nenhum cientista de renome recomenda. Ele vai forçar cada vez mais o fim das medidas de isolamento social.

Ele não tem qualquer respeito pela vida das pessoas que não sejam seus filhos e seus amigos.

15 mil ou 150 mil brasileiros mortos – isso para ele não significa absolutamente nada.

Com Jair Bolsonaro não tem conversa.

É preciso tirar Jair Bolsonaro da Presidência da República.

O quanto antes.

A cada dia que passa são mais 800 brasileiros mortos.

15/5/2020

A foto – de Michael Dantas/AFP – é do Cemitério Parque Tarumã, em Manaus, e foi publicada no site de O Globo no dia 22/4.

Um lembrete: esta série de textos e compilações “Fora, Bolsonaro” não tem periodicidade fixa.

É sempre importante lembrar: os alemães acharam que um doido varrido não iria longe. (16)

Esperava-se dos generais bom-senso, não “adulação de avós condescendentes com diabruras”. (15)

Até quantos mortos por dia o país vai esperar para botar Bolsonaro para fora? (14)

É preciso concentrar o foco no que importa: tirar Bolsonaro. (13)

É exatamente porque estamos afundados no meio do caos que o impeachment é urgente. (12)

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