Até quando o país aguenta Jim Jones na Presidência?

A cada dia que passa, mais Jair Bolsonaro se mostra como um animador de auditório, uma atração circense, um palhaço, bufão, bobo da corte – e menos presidente da República.

“O presidente sou eu, pô”, soltou ele, dias atrás. “A minha caneta funciona. Não tenho medo de usar a caneta, nem pavor”, tonitruou mais adiante.

A cada dia que passa, felizmente, mais Jair Bolsonaro se demonstra cão que ladra e não morde: como têm mostrado os fatos e as análises de editoriais e artigos dos últimos dias, alguns deles transcritos logo abaixo, muitas de suas decisões são travadas pelos poderes Judiciário e Legislativo.

“É uma lástima para ele —e ótima notícia para o Brasil— que a tinta de sua esferográfica esteja ficando escassa na crise”, cravou a Folha de S. Paulo em editorial na sexta-feira, 10/4.

“É hoje um tutelado”, escreveu Dora Kramer na revista Veja desta semana. “Não traduz a realidade de maneira correta a atribuição dessa tutela aos militares que o cercam. Vai muito além: inclui o Judiciário na representação do Supremo Tribunal Federal, o Legislativo nas figuras dos presidentes da Câmara e do Senado, as unidades da federação nas pessoas de governadores e prefeitos, a insatisfação da sociedade retratada na imprensa, a diplomacia avessa aos ditames da cúpula do Itamaraty, entidades civis e parte significativa do universo religioso, entre outros setores que têm barrado iniciativas de Bolsonaro, sejam elas autoritárias ou contrárias à ciência.”

“Nada comanda, a não ser showzinhos para a platéia de fãs no portão do Palácio da Alvorada”, anotou Mary Zaidan no Blog do Noblat com transcrição neste 50 Anos de Textos. 

Mas, por favor, pelo amor da razão, pelo amor de Deus, que não se chame Bolsonaro de Rainha da Inglaterra. Como bem lembrou Bernardo Mello Carvalho em O Globo da sexta:

“É uma injustiça com Elizabeth II, que respeita a liturgia do cargo e não aluga os ouvidos dos súditos. No domingo, a rainha interrompeu a programação da TV pela quinta vez em 68 anos de reinado. Ela fez um agradecimento aos profissionais da saúde, defendeu o isolamento social e pediu que os britânicos permaneçam em casa para se proteger do coronavírus. Bolsonaro acaba de fazer o quinto pronunciamento televisivo em menos de um mês. Ele moderou o tom, mas insistiu em distorcer uma fala da Organização Mundial da Saúde para torpedear a quarentena.”

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Já seria extremamente grave ter no cargo de presidente da República um animador de auditório, uma atração circense, um palhaço, bufão, bobo da corte, já que, nesta crise em que o novo coronavírus afundou todo o planeta, se fazem desesperadamente necessários líderes que saibam unir a sociedade, criar um amálgama entre os diversos setores e interesses para que se atravesse a tormenta com a menor quantidade de mortes e prejuízos possível.

Mas é pior. Não apenas não temos um presidente da República que una, que agregue, como temos em Jair Bolsonaro algo muito, mas muito pior que um palhaço, bufão, bobo da corte. Jair Bolsonaro é um Jim Jones. É um louco que lidera uma seita e quer levar não apenas seus seguidores, mas todo o país ao genocídio.

A comparação com o líder de seita que levou ao suicídio coletivo de 918 pessoas na Guiana, entre elas quase 300 crianças, em 1978 vem sendo feita cada vez mais – com carradas de razão.

A cena patética, nojenta, abjeta, apavorante de Jair Bolsonaro enxugando a sujeira que escorria do nariz com o antebraço, bem perto da mão direita, para logo em seguida estendê-la para uma senhora idosa, filmada em Brasília na Sexta-feira Santa mostra com perfeição o que ele é. Não mais um presidente da República. Um palhaço, um bufão, sim – mas sobretudo um Jim Jones.

Como diz Merval Pereira em sua coluna no Globo deste sábado, 11/4, intitulada “Jim Jones tupiniquim”:

“Bolsonaro será responsabilizado pessoalmente pelo aumento das mortes. Não é possível ter um presidente que estimula a população a se arriscar numa pandemia, como um líder místico levando seus seguidores para o suicídio coletivo. Bolsonaro, nosso Jim Jones tupiniquim, será o PT da próxima eleição, aquele a quem será preciso afastar do poder.”

(As fotos deste post são do acampamento da seita de Jim Jones na Guiana, logo após o suicídio coletivo.)

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“Bolsonaro está colocando os brasileiros em grave perigo ao incitá-los a não seguir o distanciamento social e outras medidas para conter a transmissão da Covid-19, implementadas por governadores no país inteiro e recomendadas por seu próprio Ministério da Saúde”, afirma a Human Rights Watch, uma das mais respeitadas organizações não-governamentais do planeta, em nota divulgada em seu portal na internet na noite da sexta, 10/4.

Segundo a ONG, “ele também age de forma irresponsável disseminando informações equivocadas sobre a pandemia”. “Bolsonaro tem sabotado os esforços dos governadores e do seu próprio Ministério da Saúde para conter a disseminação da Covid-19, colocando em risco a vida e a saúde dos brasileiros.”

Em seguida, a nota da Human Rights Watch faz um cuidadoso histórico das atitudes e decisões que Bolsonaro vem apresentando ao longo das últimas semanas diante da pandemia da doença que até esta sexta-feira já havia matado mais de 1 mil pessoas no Brasil, 100 mil no mundo todo.

Um cuidadoso, triste balanço da atuação de Bolsonaro ao longo dos últimos 30 dias foi feito também por Míriam Leitão em sua coluna em O Globo deste sábado, 11. E ela conclui o balanço assim:

“Neste mês em que o Brasil entrou em espiral de infectados e mortos e se assusta com a dimensão ainda desconhecida da pandemia, tudo o que o presidente da República fez foi brigar com governadores, minar seu ministro, ficar de picuinhas, receitar remédio duvidoso. Na crise, Bolsonaro provou que não sabe exercer o cargo de presidente da República.”

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“Bolsonaro está colocando os brasileiros em grave perigo.”

“Bolsonaro provou que não sabe exercer o cargo de presidente da República.”

“Bolsonaro, nosso Jim Jones tupiniquim, será o PT da próxima eleição, aquele a quem será preciso afastar do poder.”

O diagnóstico está posto.

A questão que se põe diante de todos nós é: afastar do poder apenas daqui a 2 anos e 8 meses?

O país aguenta mais 2 anos e 8 meses de Jim Jones na Presidência da República?

Abaixo vão as íntegras dos artigos citados de Dora Kramer, Bernardo Mello Carvalho, Merval Pereira e Míriam Leitão, e do editorial da Folha.

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A engenharia do Jair

Por Dora Kramer, Veja, edição nº 2682, de 15/4/2020,

É ilusão do presidente acreditar que o vírus que atormenta o mundo não o atingiu. Fez mais que isso, matou uma chance quase certa de reeleição e, dependendo da evolução de seus efeitos, poderá eliminar também as condições para a conclusão do mandato. O presidente imagina-se livre da gripezinha enquanto agoniza de um mal bem maior: a erosão do próprio poder. Principalmente, mas não só, em decorrência do posicionamento dele diante das urgências da pandemia.

Com a crise sanitária deu-se por completada a obra de desconstrução da força política, da influência social e da autoridade moral da Presidência da República, cujo engenheiro atende pelo nome de Jair Bolsonaro. Está certo quando enxerga uma onda gigantesca de rejeição a ele, mas demonstra não compreender a razão quando delira imaginando que isso ocorra por seus méritos, pois tal reação acontece devido à terra arrasada que semeou em torno de si neste um ano e poucos meses de atuação desgovernada.

A situação talvez não estivesse no estágio de degradação a que chegou se Bolsonaro não tivesse dizimado seu capital político e explodido pontes de convivência institucional com coisas inúteis. Gastou patrimônio antes do tempo e, hoje, em plena crise de saúde pública, quando mais precisaria de âncoras de sustentação, está zerado: isolado, sem diálogo, desmoralizado, desautorizado, desacreditado.

Operando num mundo onde a lógica não tem vez, o presidente semeia a discórdia desde os primórdios de sua gestão. Não se deu ao respeito e ainda se dá ao direito de desrespeitar a tudo e a todos que vê como obstáculos ao exercício do mando. Por essa visão distorcida do que sejam atributos de um governante, Bolsonaro acabou perdendo o poder de comando.

É hoje um tutelado. Não traduz a realidade de maneira correta a atribuição dessa tutela aos militares que o cercam. Vai muito além: inclui o Judiciário na representação do Supremo Tribunal Federal, o Legislativo nas figuras dos presidentes da Câmara e do Senado, as unidades da federação nas pessoas de governadores e prefeitos, a insatisfação da sociedade retratada na imprensa, a diplomacia avessa aos ditames da cúpula do Itamaraty, entidades civis e parte significativa do universo religioso, entre outros setores que têm barrado iniciativas de Bolsonaro, sejam elas autoritárias ou contrárias à ciência.

Embora não tenha condições objetivas de provocar retrocessos irremediáveis como temiam alguns, o presidente causa um mal enorme ao país ao se posicionar como fator de instabilidade, obrigando a todo momento a uma mobilização de forças para contê-lo. Energia que deveria ser direcionada para o que de fato importa.

Se esse homem que ora desgoverna o Brasil tem consciência da própria responsabilidade pela armadilha na qual se encontra prisioneiro é uma incógnita, embora já não seja mistério para ninguém seu medo de perder o cargo antes do tempo regulamentar.

Mostram isso as constantes reafirmações autorreferidas de poder. Isso, em público. No particular já foi bem explícito a dois ministros do Supremo que, antes da crise atual, cada qual numa situação diferente, ouviram dele a aflitiva indagação: “Você acha que eu termino o mandato?”. Perplexos e constrangidos, calados ficaram.

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Tolhido pelo STF

Editorial, Folha de S. Paulo, 9/4/2020.

Obsessões com a potência masculina tornaram-se lugar-comum na psicanálise. A do presidente Jair Bolsonaro se fixa no objeto caneta, a pequena haste capaz, segundo seus manifestos recorrentes, de num rabisco materializar os desejos do chefe de Estado.

É uma lástima para ele —e ótima notícia para o Brasil— que a tinta de sua esferográfica esteja ficando escassa na crise. Ameaçou usá-la para demitir o ministro da Saúde, Luiz Mandetta, mas foi impedido por uma sensata reação palaciana.

Cogitou deslanchar uma campanha publicitária para incentivar a circulação de pessoas em meio à epidemia, mas foi bloqueado pelo Supremo Tribunal Federal.

Decretou a inclusão de igrejas em listas de estabelecimentos cuja operação não pode ser restringida em nome do combate à Covid-19, mas seu ato tem sido questionado em circunscrições locais.

Sonhou em voz alta com comandos que pudessem atropelar ordenanças estaduais e municipais de combate à emergência sanitária, mas foi advertido, também à luz do dia, por autoridades legislativas e judiciárias de que os sortilégios terão vida curta.

Na quarta-feira (8), o que era uma advertência se tornou decisão cautelar da corte constitucional. A Ordem dos Advogados do Brasil obteve do ministro Alexandre de Moraes o reconhecimento liminar de que o Executivo federal não pode desfazer unilateralmente as determinações municipais e estaduais de limitar atividades.

Com essa torrente de vetos impostos ao seu poder, o presidente da República veio sendo reduzido a uma espécie de crítico teimoso e falastrão do que todas as outras autoridades, inclusive no seu governo, estão fazendo. Quanto mais ataca e ameaça, menos pode.

A situação, surreal, escapa à lógica política que prevalece em quase todos os países democráticos, onde governantes ganham popularidade ao alinhar-se aos protocolos que vão sendo cristalizados pela comunidade científica e e sanitária.

Foi essa a maneira, no entanto, que a institucionalidade brasileira encontrou de atenuar a capacidade destrutiva do presidente Jair Bolsonaro em meio a uma crise em que estão em jogo a vida e a renda de milhões de cidadãos.

A fala em cadeia nacional no dia 8 mostra que a ignorância presidencial não ficou inofensiva. Bolsonaro, fantasiado de curandeiro, direciona a máquina do governo federal para apostar em um dos vários fármacos em fase de testes contra a doença —numa politização descabida do uso da cloroquina.

Trata-se de imitação tosca do que faz nos Estados Unidos seu congênere e modelo Donald Trump, que ao menos já assumiu atitude mais colaborativa contra a pandemia.

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Freios ao capitão

Por Bernardo Mello Carvalho, O Globo, 10/4/2020.

O isolamento político de Jair Bolsonaro não se reflete apenas em derrotas no Congresso. O presidente também tem apanhado no Supremo, cada vez mais acionado para conter seus desatinos na pandemia.

O capitão ameaçava derrubar medidas de governadores e prefeitos para restringir a circulação de pessoas. Antes que ele assinasse o decreto, o Supremo tirou a tinta da caneta. Na quarta-feira, o ministro Alexandre de Moraes proibiu Bolsonaro de atropelar estados e municípios. Ele ainda anotou que as divergências entre autoridades federais têm causado “insegurança, intranquilidade e justificado receio” na sociedade.

Não foi a primeira derrota relevante do Planalto. Na semana passada, o ministro Luís Roberto Barroso proibiu a Secom de torrar dinheiro público numa propaganda com o slogan “O Brasil não pode parar”. Ele escreveu que a campanha era “desinformativa”; não obedecia ao interesse público, deseducava a população e poderia favorecer a propagação do vírus.

Fora dos autos, o Supremo também tem dado recados de que o governo não pode tudo. O ministro Dias Toffoli, que às vezes parece um auxiliar de Bolsonaro, fez questão de declarar apoio ao titular da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. O ministro Gilmar Mendes foi mais direto. “A Constituição não permite que o presidente adote políticas genocidas”, afirmou.

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Para debochar do enfraquecimento de Bolsonaro, políticos da oposição passaram a chamá-lo de rainha da Inglaterra. É uma injustiça com Elizabeth II, que respeita a liturgia do cargo e não aluga os ouvidos dos súditos.

No domingo, a rainha interrompeu a programação da TV pela quinta vez em 68 anos de reinado. Ela fez um agradecimento aos profissionais da saúde, defendeu o isolamento social e pediu que os britânicos permaneçam em casa para se proteger do coronavírus.

Bolsonaro acaba de fazer o quinto pronunciamento televisivo em menos de um mês. Ele moderou o tom, mas insistiu em distorcer uma fala da Organização Mundial da Saúde para torpedear a quarentena.

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Jim Jones tupiniquim

Por Merval Pereira, O Globo, 11/4/2020

O presidente Jair Bolsonaro está cavando um abismo a seus pés lutando contra a realidade trágica da Covid-19. Não há saída honrosa para ele diante da perspectiva de recessão econômica – o ministro da Economia Paulo Guedes já teme um PIB negativo de 4%, há bancos prevendo até 6% – e de um dramático número de mortes, que já está na casa do milhar antes de um mês de quarentena.

As demonstrações diárias de irresponsabilidade acintosa vão ganhando perigosos ares de desequilíbrio comportamental que, em vez de aumentar suas chances de concorrer à reeleição, vão lhe retirando essa possibilidade, reduzindo seu apoio a um grupo de fanáticos.

A mais recente pesquisa DataFolha mostra que 17% dos eleitores que votaram em Bolsonaro no segundo turno estão arrependidos, o que quer dizer que cerca de 10 milhões de pessoas o abandonaram, fazendo com que tivesse hoje, teoricamente, menos votos do que obteve no primeiro turno.

Não quer dizer, porém, que todos os que não se declararam arrependidos estejam contentes com o governo Bolsonaro. Muitos, certamente, não se arrependeram porque consideram que o principal papel de seu voto foi derrotar o PT.

Pesquisas de opinião pública mostram que Bolsonaro mantém um apoio em torno de 30% da população, o mesmo índice que o PT costumava ter antes de chegar ao poder, igual ao percentual de votos que o candidato petista Fernando Haddad obteve no primeiro turno.

Não há indicações de que o PT tenha mantido seu nível de apoio de lá para cá, e o desgaste de Bolsonaro é nítido. Por isso a polarização contra o PT é bom, teoricamente, para os dois, mas especialmente para Bolsonaro se ele já não tivesse provado que não é apenas um antipetista, mas um desequilibrado, técnica e emocionalmente incapaz de enfrentar crises como a que atravessamos, e moralmente corrupto.

Não acredito que o PT tenha, nesses anos recentes, recuperado a imagem de honestidade e credibilidade que conseguiu introjetar no eleitorado, e acho, portanto, que uma repetição da polarização dificilmente acontecerá. Os extremos já se mostraram incapazes de dar uma solução para o país.

O desgaste de Bolsonaro só se acentuará nos próximos anos, já que ele é incapaz de ser outra pessoa. Já era assim antes da campanha, mas era o que tinham os que queriam alijar o PT. O centro político foi incapaz de apresentar uma alternativa ao eleitor de centro-direita que demonstrasse viabilidade eleitoral, diante da radicalização que tomou conta da eleição.

Abre-se um caminho largo até 2022 para candidatos de centro se firmarem no cenário político nacional, e os governadores, que são protagonistas dessa guerra contra a Covid-19, podem colher resultados positivos, como já demonstram as pesquisas de opinião e as redes sociais. Por isso, a cada vez que surge um político que se destaque, passa a ser potencial candidato a presidente: é assim com Mandetta, é assim com Moro.

O comportamento do presidente Bolsonaro, ao sair às ruas em Brasília, é acintoso, atitude que não pode ser vista como normal. Por causa desse comportamento, nossa política de isolamento social está começando a afrouxar, a ser rompida por grupos incentivados pelo presidente.

Não é assim que a economia vai melhorar, e esse afrouxamento provocará mais mortes, mais sofrimento. Não é à toa que a embaixada alemã está recomendando a seus cidadãos que regressem ao seu país.

Bolsonaro será responsabilizado pessoalmente pelo aumento das mortes. Não é possível ter um presidente que estimula a população a se arriscar numa pandemia, como um líder místico levando seus seguidores para o suicídio coletivo. Bolsonaro, nosso Jim Jones tupiniquim, será o PT da próxima eleição, aquele a quem será preciso afastar do poder.

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Os 30 dias que abalaram o Brasil

Por Míriam Leitão, O Globo, 11/4/2020

Quando o Brasil atravessou ontem a fronteira dos mil mortos por Covid-19 o presidente Jair Bolsonaro saiu para passear novamente. Foi a uma padaria, a uma farmácia, passou pelo Hospital das Forças Armadas onde, disse aos jornalistas, foi fazer teste de gravidez. Ele é coerente. Tem tratado a pandemia com a displicência de sempre. Seus atos e palavras nos últimos trinta dias mostram a constância da mensagem contra o isolamento social e as recomendações das autoridades de saúde.

No dia 10 de março, na viagem aos Estados Unidos, para uma plateia de empresários, Bolsonaro disse “a questão do coronavírus não é isso tudo isso que a grande mídia propaga” e que muito era “fantasia”. Na volta descobriu-se que na comitiva havia 23 infectados. No domingo, dia 15, ele foi à manifestação contra o Congresso e o Supremo, cumprimentou inúmeros manifestantes, desprezando os cuidados para prevenir o contágio. O comportamento mostrava desprezo às orientações médicas, e o ato era um ataque à democracia. Ele compartilhou vídeos de manifestantes de várias partes do Brasil exibindo faixas que não deixavam dúvidas sobre a natureza antidemocrática das mensagens.

No dia 17 houve a primeira morte confirmada por coronavírus, Rio de Janeiro e São Paulo decretaram emergência. E ele: “A economia estava indo bem, mas esse vírus trouxe alguma histeria. Existem alguns governadores que estão tomando medidas que vão prejudicar nossa economia”. No dia seguinte, ele disse que não haveria colapso na saúde e chamou o governador João Dória de “lunático”. Defendeu a cloroquina que deveria, segundo prescreveu, ser distribuída para todos os infectados. Depois em um pronunciamento no dia 19 ele pediu o fim do confinamento, acusou governadores de histeria, pediu a volta das aulas porque “raros são os casos fatais de pessoas sãs com menos de 40 anos” e completou: “pelo meu histórico de atleta, caso eu fosse infectado pelo vírus, não precisaria me preocupar, nada sentiria ou seria acometido de uma gripezinha, um resfriadinho”. Uma fala reveladora de que ele não pensa no que pode acontecer ao país, mas apenas com ele mesmo.

Bolsonaro mostrou neste um mês — do dia 10 de março ao dia 10 de abril — várias vezes, desprezo pela vida humana. No dia 26, ao chegar no Alvorada, debochou: “o brasileiro tem que ser estudado, ele não pega nada. Você vê o cara pulando em esgoto ali, sai, mergulha tá certo?”. No dia seguinte disse “algumas mortes terão, paciência”. E depois, em entrevista ao José Luiz Datena, “alguns vão morrer? Vão, ué. Essa é a vida”. Em seguida, no dia 30, no mesmo trôpego linguajar, “vocês acham que gente morrerão? Vai morrer gente”.

No dia 31 ele voltou à televisão para outro pronunciamento e alguns se iludiram com uma suposta mudança de tom. Houve aqui e ali alguma frase que refletia a realidade, como a de que “esse é o maior desafio da nossa geração”. Foram trechos inseridos pelos conselheiros militares do presidente que passaram o dia tentando salvar o pronunciamento que pela manhã ele prometera fazer. Seu objetivo era distorcer as palavras do diretor-geral da Organização Mundial da Saúde.

No dia primeiro de abril, em mais um ato da sua campanha de acusar os governadores pela crise econômica, ele postou um vídeo que transmitia uma informação falsa de desabastecimento na Ceasa de Belo Horizonte. No mesmo dia, comparou o coronavírus à chuva. “Você vai se molhar, mas não vai morrer afogado”.

Depois de tantas palavras de menosprezo à vida, é difícil acreditar na sinceridade do que ele disse em novo pronunciamento esta semana, quando se solidarizou com as famílias das vítimas. De novo, o objetivo era defender a cloroquina, usando o argumento de que o médico Roberto Kalil a usara.

Durante todo esse mês ele fritou em público o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, desautorizando diariamente tudo o que ele recomenda e todos os alertas que ele faz.

Nesse mês em que o Brasil entrou em espiral de infectados e mortos e se assusta com a dimensão ainda desconhecida da pandemia, tudo o que o presidente da República fez foi brigar com governadores, minar seu ministro, ficar de picuinhas, receitar remédio duvidoso. Na crise, Bolsonaro provou que não sabe exercer o cargo de presidente da República. (Com Marcelo Loureiro)

11/4/2020

Um lembrete: esta série de textos e compilações não tem periodicidade fixa.

59% ainda não perceberam, mas é preciso tirar Bolsonaro da Presidência (9)

Vai ficando provável que ele não consiga terminar o desgoverno em 2022 (8).

Ou o Brasil se livra de Bolsonaro, ou não tem mais Brasil (7).

Ou o Brasil se livra de Bolsonaro, ou não tem mais Brasil. (6)

Ou a democracia pára Bolsonaro, ou Bolsonaro pára a democracia (5)

4 Comentários para “Até quando o país aguenta Jim Jones na Presidência?”

  1. O governo Bolsonaro acabou. O que temos em Brasília é um circo mambembe com o toldo furado e arquibancadas comidas por
    cupim. È vero ed è bene trovato.

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