A diplomacia de Bolsonaro é contra o Brasil

Não há uma única área que tenha sido poupada pela onda de destruição, de envenenamento, de empesteamento que é a marca do bolsonarismo. Os esforços do presidente e seu grupo para não deixar de pé nada do que de positivo o Brasil conseguiu construir vão em todas, absolutamente todas as direções.

Na área ambiental, é isso que o mundo vê, incrédulo, atônito: o combate sistemático ao trabalho dos órgãos encarregados de proteger os recursos naturais, o esvaziamento de sua estrutura e de seu orçamento, a ordem de passar a boiada, o apoio descarado, aberto, aos garimpeiros, grileiros, desmatadores – e mentiras deslavadas em cima de mentiras deslavadas, do tipo “alguém que faz oposição ao governo no Inpe só divulga os dados negativos e esconde os positivos”.

Na saúde, o governo acaba de confirmar no Ministério o general de 3 estrelas que topou seguir a cartilha de que a cloroquina resolve tudo – o expert da área de intendência que já demonstrou não ter idéia de por onde passa a linha do Equador.  O presidente em pessoa lidera a luta para confundir a opinião pública e dificultar ao máximo possível a organização da sociedade no combate à maior emergência sanitária enfrentada pelo planeta nos últimos cem anos.

Na educação, foi-se embora o idiota da corte (bobo é pouco), mas o pastor que veio ainda não disse a que veio – a não ser dar algumas declarações estapafúrdias, chocantes. Em meio à pandemia, seria necessário, mais que nunca, um Ministério que soubesse coordenar esforços, dar as linhas gerais para a necessário volta às aulas – mas não adianta esperar nada do MEC. O Ministério é como a cabeça do Dudu Chapeiro: oco, sem nada dentro.

Na cultura… Meu Deus do céu e também da Terra arrasada! A última das muitas notícias horripilantes foi a nomeação de um coronel para dirigir a Fundação Nacional das Artes.

“Quando ouço falar em cultura, saco meu revólver”, dizia Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda de Hitler. Ou seria Herman Göring, o líder do Partido Nazista? Há controvérsia. Não há controvérsia, porém, quanto aos integrantes do governo Bolsonaro: quando eles ouvem falar em cultura, educação, saúde, floresta, índio, vida, imprensa, liberdade, vão logo sacando o revólver – e sacando também mais um milico para aquela área.

O cara é de fato o Capitão da Morte e das Trevas: todas, absolutamente todas as suas ações são na direção do passado, das cavernas, da destruição dos melhores valores. Além da reeleição, o energúmeno só pensa em afrouxar as regras de trânsito – e assim aumentar o número de vítimas de acidenges – e armar o maior número possível de brasileiros.

Mas uma das áreas em que a peste do bolsonarismo mais demonstra seu poder destrutivo é a diplomacia.

Justamente um ponto de que o país podia se orgulhar. Desde os primórdios da República, desde a época do Barão do Rio Branco, ministro das Relações Exteriores entre 1902 e 1912, o Brasil sempre cultivou uma diplomacia independente, altiva, defensora do entendimento, da pacificação.

Nem mesmo durante a ditadura militar que Bolsonaro tanto aprecia a diplomacia brasileira abandonou seus princípios basilares – e o pronto reconhecimento da independência de Angola, em meados dos anos 70, é apenas uma prova disso.

No período do lulo-petismo, o Itamaraty foi atacado pela febre terceiro-mundista, de implicância ginasiana com os Estados Unidos, tido então como o vilão mundial, o representante do imperialismo, do Mal em Si – mas o desvio foi rapidamente consertado durante o governo Michel Temer, com José Serra e depois Aloysio Nunes Ferreira no Ministério das Relações Exteriores.

Com Bolsonaro, um século de boa diplomacia foi jogado no lixo.

Um editorial e dois artigos publicados no jornal O Globo desta segunda-feira, 15 de setembro, detalham o desmonte do legado de José Maria da Silva Paranhos Júnior e de tantas gerações de diplomatas brasileiros.

Seguem-se as íntegras do editorial e dos artigos de Miriam Leitão e Bernardo Mello Franco. Faço questão de tê-las aqui neste site.

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Bolsonaro avança no projeto de demolir a diplomacia brasileira

Editorial, O Globo, 15/9/2020

O governo Bolsonaro avança no projeto de demolição da política tradicional do Itamaraty: não subordinação aos Estados Unidos e equidistância diplomática. Foi decisivo o apoio brasileiro para que, pela primeira vez em 60 anos, um americano assuma a presidência do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). É, na gestão Bolsonaro, o ápice da subserviência ao interesse americano.

Nascido na Flórida de pais cubanos, Mauricio Claver-Carone, linha-dura do trumpismo pinçado no mercado financeiro, teve 66,8% de apoio do capital votante da instituição financeira multilateral, numa eleição em que se abstiveram parceiros de peso como Argentina, Chile e México — recado claro de insatisfação com o alinhamento automático do Planalto à Casa Branca e prova de que a atitude do Brasil equivale a renunciar a qualquer liderança relevante no continente.

É como se Bolsonaro repetisse a intenção de Carlos Menem, revelada no final dos anos 1990 ( gestão Bill Clinton), de que a política externa argentina fosse uma “relação carnal” com os Estados Unidos. O presidente brasileiro pode aprender uma lição daquela diplomacia exótica: a economia argentina soçobrou, sem contar com qualquer ajuda especial do amigo do Norte.

A aproximação às cegas de parceiros internacionais, estimulada à base de afinidades pessoais e ideológicas, não costuma dar bons resultados. Bolsonaro, filhos e seu grupo foram evidentemente logrados por Trump no negacionismo da Covid-19, como prova a entrevista concedida em março pelo presidente americano ao jornalista Bob Woodward. Nela, Trump diz que minimizava a doença para não causar pânico. Bolsonaro foi na conversa e ainda terminou catequizado pela lorota da cloroquina. Pelos números oficiais, Estados Unidos e Brasil lideram o ranking de mortes pelo novo coronavírus (cerca de 200 mil e 130 mil).

Entre os efeitos colaterais da subserviência ao ultraconservadorismo trumpista, está a classificação às pressas, pelo Itamaraty, de telegramas enviados a diplomatas na ONU com instruções para trabalharem pela proibição do aborto e contra propostas não discriminatórias de mulheres e meninas. O PSOL pediu o material em 3 de agosto. O Itamaraty teria até 2 de setembro para responder. Quando chegou o prazo, os telegramas foram remetidos, já classificados como “reservados”.

Cada uma dessas ações fere preceitos constitucionais, entendimentos do STF e a tradição da diplomacia brasileira. O governo vai assim executando seu projeto obscurantista e se afastando do mundo moderno, democrático, progressista. Quer Trump vença ou não em novembro, o atrelamento automático aos interesses americanos é uma armadilha para o Brasil.

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Política externa contra o Brasil

Por Miriam Leitão, O Globo, 15/9/2020

A subserviência aos Estados Unidos, marca maior da política externa do governo Bolsonaro, produz prejuízos concretos. Os americanos reduziram as cotas na exportação brasileira de aço. O Brasil não apenas aceitou, mas premiou o país, mantendo as cotas de importação de etanol americano sem tarifa. Cedeu também quando retirou o nome brasileiro e aderiu ao candidato americano, que foi eleito neste fim de semana para presidir o Banco Interamericano de Desenvolvimento. Um americano no BID é fato inédito na história da instituição. No caso do etanol, o governo quis beneficiar a campanha de Donald Trump à reeleição, só que em detrimento dos interesses dos produtores do Brasil.

Quando se fala que uma política externa independente é a que pensa nos interesses do Brasil em primeiro lugar, isso não é apenas retórica. Há efeitos concretos. A subserviência tem um preço. Quando um governo se deixa dominar por uma visão ideológica, o país como um todo perde. Nesses três casos o Brasil teve prejuízos, e os Estados Unidos, vantagens. O governo apresenta tudo como se fosse a expectativa de um ganho futuro que nunca vem, diz, por exemplo, que cedeu no álcool porque no futuro vai ganhar no açúcar.

O Brasil ficou contra o Brasil no BID. Foi exatamente isso que aconteceu. O governo já havia apresentado a proposta de um candidato brasileiro, mas a submissão foi tanta que assim que o governo americano apresentou o nome dele o Itamaraty e o Ministério da Economia aderiram imediatamente. Detalhe: desde a sua fundação, o banco é dirigido por um latino-americano. Faz parte das normas não escritas nas instituições multilaterais que o BID sempre é dirigido por um país da região.

Essa quebra de regras imposta por Trump foi tão acintosa que revoltou líderes europeus. O representante da União Europeia para a política externa Josep Borrell enviou a todos os países que têm capital na instituição uma proposta de adiamento da escolha para depois das eleições americanas. Vinte e dois ex-governantes da América Latina assinaram uma carta defendendo esse adiamento. Mas os Estados Unidos impuseram seu candidato e seu calendário. O governo brasileiro foi atrás, como um cachorrinho, com o rabinho entre as pernas.

Maurício Claver-Carone, o candidato de Trump, foi eleito no dia 12 de setembro, com os votos do Brasil e da Colômbia, mas sem os votos de Argentina, México e Chile, e sem o apoio dos países europeus, que votam porque têm capital no banco. Trump impôs à América Latina a quebra de uma tradição de seis décadas, e com a ajuda brasileira. Além de aceitar passivamente ser atropelado e aderir ao atropelador, o governo brasileiro ficou mal com países da região.

No caso do etanol, o governo decidiu manter por mais três meses a cota de importação de 187,5 milhões de litros sem tarifa. O tempo foi escolhido para favorecer Trump junto a produtores de milho, a matéria-prima do etanol deles. Ouvido pelo “Estadão”, o presidente da Unica, Evandro Gussi, disse que os estoques aqui neste momento estão 43% acima do mesmo nível do ano passado. Se fosse dentro de uma política de abertura comercial seria louvável. Mas é por um período específico, para ajudar o presidente americano em sua campanha, justamente ele que tem tomado decisões protecionistas em relação ao Brasil. O Itamaraty costuma ceder e soltar uma nota se elogiando. Trata concessão como se fosse conquista.

Nas questões conceituais, a política externa erra na área ambiental, política e de direitos humanos. O Brasil se aliou a países fundamentalistas islâmicos contra os direitos da mulher. Em artigo recente na “Folha”, Jacqueline Pitanguy alertou que no Conselho de Direitos Humanos da ONU o Brasil ficou junto de Arábia Saudita, Qatar, Afeganistão, Bahrein, Egito numa resolução que condenava a discriminação da mulher e estabelecia o “acesso às informações e métodos contraceptivos”. Ela lembra que nesses países árabes a mulher é cidadã de segunda classe.

A Constituição brasileira condena qualquer discriminação de gênero, portanto, a política externa brasileira é inconstitucional na área de direitos da mulher. Na economia, trai os interesses econômicos do próprio país. A diplomacia do governo Bolsonaro se divorciou do Brasil. Com Alvaro Gribel (de São Paulo)

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Diplomacia da submissão

Por Bernardo Mello Franco, O Globo, 15/9/2020

Na semana passada, Jair Bolsonaro aproveitou o feriado da Independência para fazer mais um pronunciamento na TV. “Naquele histórico 7 de setembro de 1822, às margens do Ipiranga, o Brasil dizia ao mundo que nunca mais aceitaria ser submisso a qualquer outra nação”, disse. Dom Pedro guardaria a espada se soubesse o que fariam com seu brado retumbante.

Desde a vitória do capitão, o Brasil diz ao mundo que aceita ser submisso à Casa Branca. Outros governos já haviam se ajoelhado diante dos EUA, mas nem a ditadura militar foi tão servil nas relações com o país.

Para agradar Donald Trump, Bolsonaro tem jogado no lixo décadas de política externa independente. Em vez de defender o interesse nacional, a diplomacia brasileira passou a defender o interesse de Washington. A vassalagem acaba de se repetir na disputa pelo comando do Banco Interamericano de Desenvolvimento.

Fundado em 1959, o BID sempre foi presidido por um latino-americano. Um acordo entre os países reservava a vice-presidência aos EUA. Desta vez, Trump resolveu ignorar a regra e indicou um ex-assessor para chefiar o banco. O Brasil já havia lançado candidato, mas voltou atrás e traiu os vizinhos para apoiar a manobra.

Em plena Semana da Pátria, o Itamaraty festejou a eleição do americano Mauricio Claver-Carone. Mais um gesto de submissão a Trump, que já debochou dos esforços de Bolsonaro para imitá-lo.

Além de humilhar a diplomacia brasileira, a subserviência demonstra falta de visão estratégica. O republicano aparece em desvantagem nas pesquisas para a eleição de novembro. Se o democrata Joe Biden chegar lá, seu partido deve incentivá-lo a retaliar o capitão.

No sábado, o Ministério das Relações Exteriores afirmou que a vitória de Clever-Carone honrou “valores comuns e fundamentais às Américas”. A nota ajudará a contar a história do desmanche do Itamaraty na gestão do bolsonarista Ernesto Araújo.

Outras páginas terão que ser escritas mais tarde. O governo alterou a classificação de papéis para esconder instruções que aproximaram o Brasil de teocracias islâmicas na ONU. Os telegramas ficarão em sigilo até 2025.|

16/9/2020

Este post pertence à série de textos e compilações “Fora, Bolsonaro”. 

A série não tem periodicidade fixa.

A maior das crueldades do bolsonarismo: uma portaria ilegal e desumana protege o criminoso e pune a vítima. (26)

Ao acenar para caminhoneiros por 70 minutos, Bolsonaro demonstra à exaustão como é incapaz. (25)

Bolsonaro tem que ser responsabilizado por boa parte da tragédia dos 100 mio mortos. (24)

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