Ouvir aquelas canções com O Bom e Velho

Minha filha não gosta do Roberto. É um ponto fora da curva, como se diz hoje em dia, porque ela gosta de praticamente tudo de que a mãe dela gostava e de que eu gosto.

Quando o duo O Bom e Velho começou a tocar e cantar “Baby”, no primeiro show de música noturno que fui com minha neta, uma coisa absolutamente histórica, cantei no ouvido da minha filha: “ouvir aquela canção do Roberto…”

Mas Ana Deriggi dá uma fugidinha da letra que Caetano escreveu lá por 1967, 1968, e canta: “ouvir aquela canção do Premê…”

No que ela traiu Caetano e também a mim, na minha vontade de relembrar para Fêzinha que o Roberto é demais – mas na verdade a caca que enfiou em “Baby” tem tudo a ver.

Marina, com seus gloriosos 6 anos e 5 meses, era evidentemente a pessoa mais jovem na platéia do show do Bom e Velho no Bona Casa de Música, em Pinheiros, no sábado agora, 3 de agosto. Mas que ninguém achasse esquisito aquela criaturinha (linda, fofa) de 6 anos sentada empertigada na platéia do Bom e Velho. Isso é uma tradição familiar. Quando a mãe dela era bem criança, eu a enfiava nos shows do Premê – justamente o Premê –, do Rumo, da Tetê Espíndola…

Assim como é uma tradição os meninos aplicarem boas coisas aos mais velhos. Me lembro perfeitamente que Fernanda me aplicou Legião, e me carregou para um dos grandes shows da banda no Ginásio do Ibirapuera, lá por… E, diacho, eu saberia que ano foi aquilo?

Foi, seguramente, alguns anos depois que levei Fernanda e Inês ao mesmo Ginásio do Ibirapuera para ver uma semifinal de um festival de música da Globo em que Tetê Espíndola cantou “Escrito nas estrelas”.

Enquanto esperávamos o começo do show do Bom e Velho, Fernanda perguntou que ano foi aquele em que fomos ao Ibirapuera ver Tetê cantando “Escrito nas estrelas”. Eu não lembro o ano, mas o Carlos, Fernanda contou, acha aquela canção um horror, e não consegue acreditar que fomos ouvi-la não apenas no Ibirapuera mas também no Maracanãzinho, na finalíssima do tal festival.

E a verdade é que fomos, sim, ao Maracanãzinho, nós quatro, Regina, Inês, Fernanda e eu. Se a memória não me trai muito, nos hospedamos todos na casa da Zezé em Laranjeiras. Deve ter sido algo em torno de 1982, Fêzinha com 7 aninhos.

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Os textos – todo mundo que escreve sabe disso – se escrevem por eles mesmo, independentemente da vontade do escriba, e este aqui se desviou nos parágrafos logo acima do que eu queria dizer, que era acentuar o fato de que a gente aprende com os meninos, da mesma forma com que eles aprendem com a gente.

É uma coisa da mão dupla. Inês, por exemplo, foi que me ensinou a prestar atenção a Cazuza e a Sting. Fernanda me aplicou a Legião, e foi por causa dela de virei fã de carteirinha de Renato Russo. Depois que surgiu o Carlos, é impossível enumerar todo mundo que ele me apresentou, a quem ele me introduziu. De Beirut a Bom e Velho, passando pelo Karnak e por um monte de bandas novas americanas, inglesas.

Ouço Mário Manga desde os tempos do Premê – e vejo aqui que o primeiro LP do grupo é de 1981, quando Fernanda tinha 6 anos, exatamente a idade de Marina agora, quando a carregamos para seu primeiro show noturno de música não infantil. Sou fã do cara desde essa época – e até disse isso para ele, no Bona, depois que o show terminou, e ele ficou ali no pequeno palco do restaurante enrolando os fios que fazem a conexão dos seus instrumentos com os amplificadores e alto-falantes.

Nunca tinha ouvido falar de Bom e Velho até bem recentemente, quando o Carlos – que conhece bem essa garota Ana Deriggi – me falou do duo e garantiu que eu seguramente adoraria ouvi-los.

Que Mário Manga é um dos grandes instrumentistas brasileiros, disso eu já estava cansado de saber. O show só confirmou. Mário Manga é tão maravilhoso no contrabaixo quanto na guitarra. Alguns dos solos de guitarra dele foram daqueles de aplaudir de pé, coisa de fazer lembrar os deuses, Eric Clapton, Mark Knopfler.

A descoberta, a novidade, para mim, foi Ana Deriggi. É uma ótima, experiente, bem preparada violonista – e que voz! É uma voz de amante de Janis Joplin, de quem é capaz daquela coisa rascante de Janis Joplin – mas não fica nisso apenas. Molda, suaviza, varia. Vai de Janis a Ná Ozzettti, de quem é amiga, segundo me disse o Carlos.

E como não adorar ouvir dois ótimos músicos tocando e cantando só canções do período 1965-1975, pérolas de Lennon-McCartney, George Harrison, Caetano, Secos & Molhados, Stones, Mutantes, trilha do Hair, e por aí vai? E tudo entremeado por bons casos contados pelo Mário Manga?

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Não sei bem o que eu pretendia com este texto, mas creio que era basicamente fazer o elogio do duo O Bom e Velho. E, já que estava com a mão na massa, aproveitei para fazer o elogio dessa coisa das duas mãos – o vai e o volta.

A geração mais velha passa as coisas para a mais nova, e a mais nova pode acatar muito, ou pouco. Minha filha, por exemplo, acatou quase tudo que Suely e eu passamos para ela em matéria de música. Pena que não tenha entendido o Roberto, mas tudo bem, paciência, é assim mesmo.

Velho e bom é o vai e volta, é a gente aprender com os meninos – e, diacho, nisso tenho que dar graças a Deus, porque o pai da minha neta não pára de me mostrar coisas boas. Se aprendo a gostar ou não é problema meu.

E já que estou mesmo com a mão na massa, lá vai.

Gosto de combinações de pessoas e coisas diferentes. Esse é um dos motivos pelos quais me encantei com O Bom e Velho – um músico experientíssimo, veterano, e uma cantora bem jovem.

Gosto de preto com branco, branco com mulato, mulato com índio, índio com japonês, japonês com branco, velho com novo, tradicionalista com moderneiro, macartneyista com lennonista, caetanista com chiquista.

Gosto das coincidências da vida, de minha neta adorar o Palavra Cantada, do Paulo Tatit que eu ouvia no Rumo e levava minha velha para ver.

Gosto de misturas, de mestiçagem. De a Ana Deriggi cantar “ouvir aquela canção do Premê” em vez de “ouvir aquela canção do Roberto”. De misturar assuntos e dizer que gosto de viver “na melhor cidade da América do Sul”, como cantava o Caetano, que cantou também que São Paulo é como o mundo todo. São Paulo – André Abujamra também tem toda razão – é uma salada russa, tem nego da Pérsia, tem nego da Prússia…

5 e 6/8/2019

Depois do show, Marina foi inspecionar o palco e sentar na cadeira da Ana… 

 

2 Comentários para “Ouvir aquelas canções com O Bom e Velho”

  1. O que aprendemos com os filhos, sobrinhos, amigos deles, é sensacional! Nem sempre gostamos do que aprendemos, mas pelo menos a vida não passou em branco só porque o calendário avançou… Foi muito bom ler este artigo, Sergio Vaz. Foi ótimo!

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