Marina brinca de brincar

Marina transforma tudo em brincadeira. Nesta quarta-feira da última semana de férias, em que dormiu aqui, fez virar brincadeira a forma de escolher de que a gente iria brincar.

Isso foi já tarde da noite, depois que fomos ao Shopping Higienópolis para ela nos mostrar o Jardim dos Unicórnios, e onde ela passeou mais uma vez no carrinho elétrico em forma de bichinho. E depois de ter brincado meia hora no banho na grande bacia, e ter brincado um tempão conosco de Elena e Isabel e Estéban, e também de Bruxa Bruxenta e seus dois assistentes, a primeira e o segundo, durante o jantar e depois dele, e também de um teatrinho na porta do freezer com Pepa e família e participação especial da turma da Mônica, e também de um bom tempinho fazendo acrobacias e contorcionismos no sofá da sala.

Tinha já brincado bastante, portanto, quando eu apresentei três propostas. A primeira: dominó de Frozen. A segunda: jogo da memória de Mônica e Cebolinha. A terceira: o baralho do Mico.

A rigor, eu não tinha muita esperança de que ela escolhesse um daqueles jogos. Conosco Marina sempre prefere brincar, em geral de algo que envolva fantasia, faz de conta, a jogar. Vovô e vovó, para Marina, são sinônimos de brincadeira sem parar, o tempo todo. É verdade que na praia, na deliciosa semana de praia, jogamos bastante, todo mundo junto, os pais, os avós e ela. Mas aqui em casa eu não tinha muita esperança – achava que ela iria propor mais uma brincadeira de faz de conta.

Para minha surpresa, apresentou um plano.

Pensou um pouquinho, elaborou um pouco mais, e apresentou seu plano.

Dispôs sobre a mesinha de centro da sala três matrioscas das maiores. Uma era a proposta 1, a outra era a proposta 2, a outra era a proposta 3. Cada um de nós deveria pegar uma matriosquinha das pequetitas e colocar junto da matriosca grande que escolhêssemos para brincar.

Claro que nós, avós, aprovamos o plano, e ela pediu que a vovó votasse primeiro.

A vovó colocou a matriosquinha dela junto da matriosca da proposta 3.

O vovô escolheu a proposta 2, justamente para dar empate, para ver o que rolaria em seguida.

Como estava empatado, apresentei um adendo: o voto de Marina, por ser criança, poderia valer por 2. Democrata rígida, filha de quem é, recusou de pronto a idéia injusta – e votou na proposta 1.

O que configurou, é claro, um triplo empate.

Pois não é que a criaturinha logo inventou uma nova forma de chegarmos a uma definição?

Embaralharíamos os quatro suportes de copo com capas dos discos dos Beatles, que ficam sempre em cima da mesinha de centro, e cada um de nós, de olhos fechados, tiraria um deles. O suporte que teria que ser pego seria aquilo ali, sentenciou, apontando o do Sgt. Pepper’s.

Primeira a pegar de olhos fechados um dos suportes, a vovó acertou. Eu fui o segundo, errei, e fui desclassificado. Marina acertou também, e determinou que ela e a vovó disputariam a vencedora naquele jogo de mãos que fazem papel x pedra x tesoura.

Marina ganhou – e portanto ficou estabelecido que a vencedora havia sido a proposta 1, dominó do Frozen.

Em suma: brincamos durante mais de cinco minutos, talvez dez, uma brincadeira que Marina inventou para decidirmos de que brincadeira iríamos brincar!

A pequena se divertiu muito ao longo de todo o processo. Marina adora brincar – mas brincar brincadeiras que ela mesma inventa, então, ah, isso é a melhor coisa do mundo.

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O fantástico foi que ela adorou jogar, jogou bem – e ganhou a partida. E quis jogar uma segunda. Ganhou, e quis jogar uma terceira. Ganhou, e quis jogar uma quarta. A vovó ganhou, mas ela ficou contente do mesmo jeito e quis jogar uma quinta e uma sexta partidas – as duas vencidas pelo degas aqui.

Incrível: Marina quis jogar seis partidas consecutivas de dominó!

Fazia muito tempo que não jogávamos aquele dominó com os personagens do Frozen. Muito tempo mesmo, seguramente bem mais de um ano, bem mais do que um sexto da vida dela, algo que para mim corresponderia a uns 12 anos!

Só então, depois da sexta partida, aceitou iniciar a sessão de DVD, que é o encaminhamento para iniciar o processo de daí a um tempo ir dormir.

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No dia seguinte, a quinta-feira, minha filha me contou (eu não sabia disso ainda, não tinha rolado oportunidade de ela me dizer) que Marina andava meio aborrecida com a idéia da volta às aulas que se aproximava. Andava dizendo que não queria ir, que o G-6 ia ser chato porque ela só ia ficar aprendendo a ler e escrever e não brincar, como fazia na escola até agora.

Mas aí, nesta semana, a última antes da volta as aulas, minha filha comprou o material escolar. Com um pouquinho de conversa, e diante do material preparado, Marina mudou de idéia. Passou a dizer que está ansiosa para a volta às aulas.

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De vez em quando alguma universidade apresenta a conclusão de uma pesquisa mostrando que brincar é algo absolutamente necessário para o desenvolvimento motor, sensorial, emocional, o escambau das crianças. Que crianças que brincam tendem a ser pessoas mais equilibradas, mais propensas a serem felizes.

Bem, Marina já é feliz a não mais poder.

Ela é a prova viva de que essas pesquisas estão todas certas.

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Na noite do dia em que Marina acordou na nossa casa, carinha boa e sugerindo a primeira brincadeira do dia, a mamãe teve idéia de refazer a famosa foto dela com o Elmo, quando era bem bebezinho. Ficou sensacional.

El tiempo pasa, Elmo queda.

1°/2/2019

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