A Temer o que é de Temer

Eu gostaria de ter escrito o artigo do professor de Filosofia da UFRGS Denis Lerrer Rosenfield publicado no Estadão desta segunda-feira, 16/9. O texto faz críticas ao governo Bolsonaro, e embaixo de críticas ao governo Bolsonaro – quaisquer que sejam elas –, eu assino com convicção.

Mas o que de melhor tem o artigo, me parece, é o reconhecimento de que, em seus poucos meses de governo, tendo recebido um país absolutamente arrasado pelo descalabro, pela incompetência de Dilma Rousseff e do PT, Michel Temer colocou o país no caminho certo, na trilha certa.

Diz o destaque do artigo na página 2: “Atual governo herdou um país arrumado, bastava seguir o que estava sendo bem feito.”

Que maravilha ler isto em um dos três jornais mais importantes do país!

Mais adiante transcrevo a íntegra do artigo.

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O governo de Michel Temer foi sem dúvida um dos mais impopulares, se não o mais impopular da História do Brasil, das Américas, do planeta, do universo – e Denis Lerrer Rosenfield trata desse tema, e fala, é claro, das acusações de corrupção a membros do governo e ao próprio presidente.

As acusações de corrupção são, seguramente, com toda certeza, parte da explicação da impopularidade do governo Temer e da pessoa do então presidente. Mas são apenas parte.

Tenho absoluta certeza de que a forma sensacionalista, explosiva, irresponsável, com que a imprensa noticiou aquela infeliz conversa do então presidente Michel Temer com o empresário-bandido Joesley Batista no porão do Palácio Jaburu teve peso considerável na má avaliação do governo.

E não dá para deixar de lado, é óbvio, o fato de que, com o impeachment de Dilma Rousseff, para cerca de 30% do eleitorado brasileiro, os 30% que sempre votaram no PT e seus satélites, Michel Temer virou um traidor, um golpista.

Traidor, golpista. Para muitos outros, corrupto.

De resto, assim propriamente simpatia, beleza, aplomb, carisma, isso Michel Temer não tem mesmo.

E no entanto fez um bom governo.

Se for levado em consideração o tamanho do buraco em que sua antecessora deixou a economia do país, então, Michel Temer fez um governo excelente.

Tentei demonstrar isto aqui neste 50 Anos de Textos em mais de três dezenas de compilações de informações e opiniões publicadas nos grandes jornais, uma série a que dei o título de ”Vai Melhorar” e depois de “Está Melhorando”. Foi um trabalho que se seguiu à publicação de cerca de 160 compilações do que chamei de ”Más Notícias no País de Dilma”.

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Quando comecei a compilar reportagens e artigos que indicavam que o governo Dilma Rousseff estava levando a economia para o buraco, ainda em abril de 2011, a aprovação da forma lulo-petista de governar era altíssima. Eu me sentia remando contra a maré, nadando contra a corrente, dando murro em ponta de faca.

Quando Dilma saiu, levando com ela Guido Mantega, Arno Augustin, Luciano Coutinho et caterva e Michel Temer assumiu, colocando Henrique Meirelles no Ministério da Fazenda, e comecei a compilar as notícias que mostravam que o país começava, aos poucos, a melhorar, me sentia de novo remando contra a maré, nadando contra a corrente, dando murro em ponta de faca.

Não me arrependo nem um pouco de nada – nem da época da série “Más Notícias no País de Dilma”, nem do tempo do “Vai Melhorar” depois “Está Melhorando”.

Dando uma rapidíssima olhada em um ou outro daqueles textos da época do governo Temer, vejo que nomes absolutamente respeitáveis escreveram a favor dele – ou, a rigor, a favor da verdade dos fatos, reconhecendo os avanços que ocorreram naqueles 2 anos e 7 meses após a saída do lulo-petismo.

Míriam Leitão, com mira perfeita, escreveu que “Temer tem uma espécie de fator teflon ao contrário, o que é bom não gruda nele.”

Elena Landau, Hubert Alquéres, Carlos Alberto Sardenberg, por exemplo, escreveram artigos destacando avanços ocorridos no período Temer.

Até mesmo  – e é fascinante lembrar isso, após oito meses de desvairio de Jair Bolsonaro – o insuspeito Guia Gay São Paulo enumerou 10 medidas do governo Temer a favor do segmento..

(Reuni alguns desses textos na compilação O Brasil vai ter saudade do governo Temer, no dia 27 de dezembro de 2018.)

Mas a verdade é que não são muitas as vozes que se levantam no que possa parecer uma defesa do governo Temer – e por isso fiquei bem contente ao ler o artigo do professor Lerrer Rosenfield.

Transcrevo a íntegra:

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Futuro incerto

Por Denis Lerrer Rosenfield, O Estado de S. Paulo, 16/9/2019.

Passados oito meses do novo governo, a incerteza impera. O presidente continua entendendo a política como atividade voltada para contemplar seus amigos e sua família, enquanto considera todos os que dele discordem ou o critiquem como um inimigo potencial ou atual. O resultado é a constante polarização do campo político, numa espécie de guerra incessante. Do ponto de vista econômico, a promessa liberal e inovadora do novo mandatário pouco produziu até agora, com a economia no marasmo, se não estagnada.

Apesar do discurso radicalizado de que tudo seria diferente, o “novo” tomando o lugar do “velho”, numa retomada do lema lulista do “nós contra eles”, com os polos invertidos, nada de verdadeiro novo se vislumbra, salvo o impasse e a incerteza. O que era compreensível num embate eleitoral deixa de sê-lo quando a tarefa primeira consiste na arte de governar, com os ritos e as negociações próprias de uma democracia. A democracia toma tempo, exige aprendizado e não tolera atalhos.

Na polarização eleitoral, o governo Temer praticamente desapareceu, isso porque o candidato Bolsonaro assumiu a posição daquele que iria dar combate ao PT, à esquerda e à sua doutrina, focando na crítica ao politicamente correto. Acertou enquanto estratégia eleitoral, errou no diagnóstico da situação real.

Não se pode confundir a impopularidade do presidente Michel Temer com sua obra como governante. Por sua impopularidade convinha desprezá-lo, pelo que fez deveria ser reconhecido. A corrupção de alguns de seus ministros em muito contribuiu para isso, com imagens estarrecedoras, mas o País estava ganhando em ordenamento econômico, social e institucional. Havia um clima de expectativa, de que a alardeada bandeira da luta contra a corrupção ensejaria um novo caminho a ser trilhado.

Na verdade, o candidato vencedor herdou um País arrumado. A narrativa eleitoral contra tudo o que estava aí não correspondia aos fatos. Bastava seguir o que estava sendo bem feito, corrigindo suas distorções, principalmente relativas a certas formas de fazer política, algo que deveria ser fácil para um novo presidente eleito, de ampla popularidade e muito boa comunicação com o eleitor.

País ganhando confiança, após o colapso do governo Dilma e da prática petista de governar. A inflação já havia voltado a um patamar de país sério; os juros caíram a um nível civilizado; a Lei do Teto de Gastos pôs um limite à irresponsabilidade fiscal; a mudança na legislação trabalhista e da terceirização modernizou as relações de trabalho; critérios de mérito foram introduzidos em estatais importantes, a começar pela recuperação da Petrobrás, em estado calamitoso naquele então; um audacioso programa de privatizações e concessões foi elaborado e começou a ser implementado; a reforma do ensino médio foi aprovada e os excessos da ideologia de gênero nas escolas começaram a ser corrigidos; a negociação Mercosul-União Europeia foi retomada e quase concluída. Não menos importante foi o amplo debate da reforma da Previdência, com a transparência das contas públicas tornada acessível a quem quisesse vê-las.

A herança era bendita! E o que fez o novo governo? Manteve o discurso de que o “novo” deveria primar, o que não tivesse esse carimbo devia ser desprezado. O preço a pagar foi alto. A reforma da Previdência estava pronta para ser votada. Bastava a nova equipe de governo concluí-la. Eventuais desacordos poderiam ser corrigidos. O presidente tinha capital para tal.

Em vez disso, uma nova proposta foi elaborada, criando um vácuo de expectativas e um ambiente de esperar para ver. A reforma poderia ter sido aprovada em março. Estamos em setembro, aguardando sua aprovação em outubro. Um ano foi perdido. Ouve-se atualmente que a política vai mal, mas a economia está indo bem. Trata-se de uma forma de autoilusão. Se fosse bem, já estaríamos na rota do crescimento, da confiança e do contentamento com as transformações prometidas. O País permaneceu, porém, na discussão da Previdência, da Previdência e da Previdência. A repetição da mesma narrativa não a torna verdadeira.

A confusão continua em outra reforma, a tributária. Passados mais de oito meses, o governo ainda não apresentou sua proposta. Não teve tempo de elaborá-la? Há já dois projetos de iniciativa parlamentar, o do Senado e o da Câmara, além de uma iniciativa dos governadores, num choque sistemático de cabeças. Restou ao governo, pela sua inércia, propor o “velho”, a volta da CPMF, que consegue a proeza de congregar todas as forças políticas e empresariais contra ela. Resultado: a exoneração do secretário Especial da Receita Federal. Mais uma baixa num governo que não consegue firmar a sua equipe.

Politicamente, o presidente, que se tornou o principal comunicador de seu governo, não hesita em criar conflitos, como se assim outros problemas pudessem ser minimizados. Aposta que essa sua narrativa, fortalecendo o seu núcleo duro, poderá proporcionar-lhe condições favoráveis para as eleições de 2022. Crê na polarização e em embates contínuos, convocando o PT a ser o seu inimigo preferido. Acontece que sua narrativa e o diagnóstico equivocado do País que recebeu estão, cada vez mais, interferindo na seara econômica. Em vez de propiciar o relançamento do País, sua política o está travando. Se a economia não der certo, nem o seu discurso polarizado lhe será de valia.

Tampouco contribui para destravar o País o apoio incondicional do presidente a seus filhos, como se questões familiares e psicológicas devessem prevalecer sobre os destinos do Brasil. Que um filho do presidente faça um comentário desprezando a democracia e o vice-presidente, o presidente do Senado e o presidente da Câmara se vejam obrigados a contestá-lo mostra bem a anomalia que estamos vivendo.

O futuro é incerto!”

(Denis Lerrer Rosenfield é professor de Filosofia na UFRGS. E-mail: denisrosenfield@terra.com.br.)

16/9/2019

4 Comentários para “A Temer o que é de Temer”

  1. Servaz, e a campanha mais duradoura, odiosa, diária no Jornal Nacional e na GloboNews contra o presidente Temer, a partir de uma armação abominável, que demoliu a credibilidade e a honra de jornalistas das Organizações Globo?

  2. Quem é presidente Carlos Fravio Eduardo, estamos Beira da falência seres negativos famílias toda diz besteiras horror fascismo

  3. Salve Sérgio Vaz!

    Sim, Michel Temer foi o primeiro presidente denunciado por suspeita de corrupção em pleno exercício do mandato.

    Sim, chegou ao fim de seu governo com altíssimo nível de desaprovação.

    Sim, não teve condições sequer de ter um candidato que defendesse seu legado.

    Mas apesar dos pesares, entregou ao seu sucessor um país bem mais organizado do que recebeu. E é possível que seja atribuído a ele o mérito de ter lançado as bases para o Brasil retomar o crescimento sustentável, se Jair Bolsonaro e seu posto Ipiranga realmente aprofundarem a agenda reformista iniciada no governo Temer (coisa que, convenhamos, estão tropeçando para realizar).

    Afinal, a política pretendida pela equipe capitaneada por Paulo Guedes não é de ruptura. É de continuidade, de aprofundamento na direção do saneamento das contas públicas e de desengessamento da economia. A ruptura defendida por Fernando Haddad foi incontestavelmente derrotada no voto. Temer, portanto, não deixa de ter razão ao se sentir um vitorioso, como externou em entrevista ontem na TV Cultura.

    O ex-presidente tem números a apresentar, sobretudo quando comparados com a era de Dilma Rousseff. A inflação, antes na casa de dois dígitos, está abaixo da meta de 4,5%, enquanto que no seu governo, em dois anos, a taxa básica de juros recuou de 14,5% para 6,5%. Não se vislumbra no horizonte o retorno da inflação e da elevação dos juros.

    Resgatou também a credibilidade da política monetária, duramente afetada pelo intervencionismo de sua antecessora.

    A retomada do crescimento e a recuperação do emprego foram lentas e irrisórias, é verdade. Mas se deve levar em consideração a ruína causada pela “nova matriz econômica” lulopetista, cuja herança foi a queda de quase 10% do PIB e os 14 milhões de desempregados.

    Na economia as coisas acontecem assim: os danos de uma política equivocada vem a galope, mas o conserto de seus desajustes demandam tempo e muito sacrifício.

    Entre os ativos de Temer estão ainda a reforma trabalhista, a emenda constitucional do teto de gastos e a recuperação das estatais.

    A Petrobras saiu das páginas policiais, voltou a dar lucro, se valorizou, retomou sua capacidade de investir. As empresas estatais retomaram seu caráter público. Alterações no marco regulatório do pré-sal tornaram atrativos os novos leilões, que devem gerar R$ 100 bilhões para o país. A bolsa-empresário do BNDES cedeu lugar a regras transparentes.

    Credite-se a seu favor o retorno da política externa ao leito natural, deixando para trás o terceiro-mundismo e as relações ditadas por afinidades ideológicas dos tempos de Celso Amorim e Marco Aurélio Garcia, area que agora Bolsonaro volta a regredir. Na educação, foram dados passos importantes com a reforma do ensino médio e a definição da Base Nacional Curricular Comum para todo o ensino básico.

    Certamente o governo de Michel Temer seria bem mais virtuoso, se não fosse o fatídico 17 de maio de 2017, quando veio a público a gravação de sua conversa nada republicana com Wesley Batista. A partir daí o presidente perdeu ímpeto reformista, dedicando-se principalmente a sua sobrevivência. E a custo altíssimo para o país.

    Continuo torcendo para que Jair Bolsonaro faça bom uso e aprofunde a herança bendita que recebeu de Temer. Mas meu apoio será sempre crítico, como tem sido ao longo dos anos. Afinal, o preço da democracia é a eterna vigilância! Abração,

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