Viva a ditadura

Abaixo a ditadura. A causa que uniu as esquerdas latino-americanas na segunda metade do século passado já havia se perdido quando o encantamento por Cuba cegou os que escolheram aplaudir os desmandos de Fidel Castro. Agora, diante da tirania venezuelana, foi enterrada de vez. Pior: substituída por “vivas”.

Em defesa do regime insano de Nicolás Maduro, partidos ditos de esquerda do Brasil e no que resta dos governos bolivarianos – Bolívia e Nicarágua – se negam a enxergar a desgraça que se abateu sobre os venezuelanos. Gente sem comida, sem remédios, sem qualquer saída que não seja a fronteira mais próxima.

Mais de um milhão já emigraram, a maior parte para a Colômbia e o Brasil.

Cerca de 80% dos 30 milhões de venezuelanos vivem na pobreza, metade deles na miséria. Com inflação superando a casa dos 2.500%, o salário de um mês do sortudo que ainda está empregado mal dá para uma pasta de dentes.

Isso em um país com uma das maiores reservas de petróleo do planeta. E que sem o menor pudor atribui sua miséria a essa riqueza extraordinária. Repete a mesma cantilena cubana contra o imperialismo do Tio Sam, que deu sobrevida à ditadura de Fidel por mais de 50 anos.

Por aqui, mais do que vistas grossas às prisões de opositores e outras agressões aos direitos dos venezuelanos, o Partido dos Trabalhadores aplaude Maduro.

Em outubro, a presidente nacional da sigla, senadora Gleisi Hoffmann, louvou o ditador e o PSUV, vitoriosos em eleições cuja lisura foi questionada interna e externamente. Como se vivêssemos em outro planeta, a nota foi inserida no site do PT com o título “Venezuela: mais uma vez, exemplo de democracia e participação cidadã!”

Na sexta-feira, dois dias depois de o presidente Michel Temer decretar estado de emergência social em Roraima, que já recebeu mais de 40 mil refugiados venezuelanos, o PT, por meio de sua Secretaria de Relações Internacionais, disparou mais uma nota pró-ditadura vizinha.

Desta vez em repúdio à “ingerência imperialista” e à “postura subserviente” de chanceleres ao cancelar o convite a Maduro para a próxima reunião da Cúpula da Américas. Segundo a nota, o encontro de Lima, nos dias 13 e 14 de abril, poderá se transformar “em mero convescote do clube de amigos de Donald Trump”.

Surpreendente — mesmo para um partido que fantasia a realidade. Para o petismo, Maduro é perseguido assim como Lula. A fome e a evasão de milhares de venezuelanos são mentiras deslavadas, assim como o mensalão e a corrupção na Petrobras, Correios, fundos de pensão, etc.

A democracia que o PT afirma existir na Venezuela é tão verdadeira quanto a honestidade e a inocência do ex-presidente Lula.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, na Veja, em 18/2/2018. 

Postar um Comentário

O seu email nunca é publicado ou compartilhado. Os campos obrigatórios estão marcados com um *

*
*