Um grande pontapé na biografia

Tanto quero que se lixe o estruturalmente falecido Roland Barthes, como quero bem que nasçam cravos no nariz aos vigilantes politicamente correctos que não saem de cima, digamos assim, dos artistas selvagens a ver se ninguém os f-f-frui.

Andava eu, todo jovem, a passar creme de Paris, linha Vincennes VII, na minha linda forma de me cevar nas artes, quando essa pecaminosa devassidão foi baratinada pela ideia barthesiana de não haver autor. Seria, simplifico eu, a linguagem que redigia o texto e lhe dava sentido, borrifando-se para as intenções do escrevente. E logo, tinto a alastrar em toalha branca, do escritor a coisa se espalhou ao pintor, ao cineasta.

Ora, isto é o mesmo que dar um pontapé no cu ao contexto biográfico. Zanguei-me: acho o pontapé no cu humilhante e eu já era de ameno tu cá, tu lá com o fraterno contexto biográfico.

Bêbado, William Burroughs deu um tiro nos miolos da mulher, a fazer com ela o jogo de maçã e seta de William Tell – é um acto cuja sombra sórdida acompanha cada linha da leitura de Naked Lunch. Jean Genet era ladrão. Alfred Hitchcock encostou à lúbrica parede chantagista o louro corpinho de Tippi Hedren, e sem isso não teria havido The Birds. A T.S. Eliot e Virginia Woolf roía-os a acidez do anti-semitismo, e Patricia Highsmith disse, infame, que o Holocausto só era um Semicausto por ter liquidado apenas parte dos judeus.

Esta crápula danação biográfica, ao contrário do insidioso conselho da angélica brigada dos novos censores, não me afasta e até me aproxima das obras de irrecomendáveis criadores. Como o esplêndido Sol a bater no mar oscilante, nas obras cintilam reflexos de perturbação convulsa, às vezes assassina, como a de Caravaggio, ou a da menor romancista policial Anne Perry, que com uma amiga matou a própria mãe.

Nem todos os admiráveis poetas podem, como Tolentino Mendonça, ser convidados para o Vaticano. Se nos atrevemos a frequentar a inquietante caverna do humano, temos também de afrontar a negríssima luz de algumas sublimes, mas terríveis obras de arte. Luz que tanto sai de mãos eucarísticas, como de mentes misóginas, racistas, pedófilas, seja de um Polanski ou da nazi Leni, de Villon, Balthus, Larkin, Woody Allen. A biografia é um purgatório moral. Destemida mistura de céu e inferno, a obra de arte bate com estrondo a porta na cara a toda a moral.

Este artigo foi originalmente publicado no jornal português O Expresso.

manuel.s.phonseca@gmail.com

Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a velha ortografia.

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