Santa velhice!

Nasci antes do início da II Guerra Mundial. Quando meu filho era pequeno ele perguntou qual meu programa de TV favorito quando eu era criança e essa pergunta deslanchou uma lista das coisas que para ele são corriqueiras e que para mim foram chegando aos poucos. Eu mesma fiquei impressionada, que dirá o menino.

Das grandes novidades a penicilina, só disponibilizada ao público em 1941, é a mais sensacional, em minha opinião. Depois, todas as outras vacinas e remédios fantásticos que tanto prolongam nossas vidas. Na minha lista entram a TV, a transmissão direta de grandes acontecimentos mundiais, os aviões a jato, o laser, o computador, a internet, os celulares e centenas de outros inventos que tanto facilitam e tornam confortáveis nossa vida.

Os aparelhos de ar condicionado residenciais, hoje arroz de festa, foram outra grande invenção. Há quem sustente que o ambiente mais fresco que proporcionam impede que o número de tragédias domésticas seja muito maior do que é em países de verão ardente como o nosso. Além disso, segundo a revista Time sobre o assunto, os afrescos da Capela Sistina teriam deteriorado sem refrigeração, livros e manuscritos raros teriam se desfeito, o maior telescópio do mundo não teria funcionado, e a indústria de computadores não teria sobrevivido. Portanto, viva o ar condicionado!

Faço uma pausa para lembrar do Fusca, o querido carro besouro criado em épocas negras da história alemã. Foi e é o carrinho de que mais gosto, apesar de seu nascimento em tempos hediondos. Pena que ele também encheu nossas ruas de tal modo que até hoje eu o chamo de pai do engarrafamento, o mais antipático sintoma da modernidade.

Agradeço portanto a Deus ainda estar por aqui. Com dor nas costas, na nuca, nos quadris; com um cansaço muito maior que o esforço despendido; com milhares de probleminhas, sobretudo o problemão de uma mobilidade cada vez mais reduzida; com a crescente dependência em quem me ajude; lutando contra a arrogância e a insensatez dos mais moços que não se lembram que ou eles envelhecerão ou… Mas feliz, muito feliz.

Copio para os leitores que caminham animados para a velhice algumas citações que me apaixonaram:

Conselhos para a velhice são tolos, pois nada é mais absurdo do que aumentar a bagagem de quem se aproxima do fim da jornada. (Marco Túlio Cicero)

O segredo é carregar o espírito infantil até a velhice, o que quer dizer nunca perder o entusiasmo. (Aldous Huxley)

A velhice é a mais inesperada de todas as coisas que acontecem com o homem. (Leon Trotsky)

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A alegria de ter chegado aqui…

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, na Veja, em 18/5/2018. 

 

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