Que longe que era a guerra

Pode alguém ter saudades e memórias ternas e queridas da guerra?

Aposta arriscada, mas vamos já à destrunfa: eu nunca conheci Hitler, mas Bill um miúdo inglês que bem podia ter crescido na velha Luanda dos anos 60,

se não fosse um puto londrino dos anos 40, quer dizer duas coisas ao alemão de curto bigode e vai explicar-nos tudo.

Os escombros são o paraíso da infância. Coitadinha da infância asséptica! Nunca me engasguei tão bem a tentar travar o fumo, que nunca aprendi a travar, como na casa em ruínas. O bando em que sempre andávamos aventurava-se pelas precárias paredes, partíamos os últimos vidros, levantávamos com um pau um resto de vestido, a perna que sobrara de um par de calças.

Eis a casa destruída, com o cheiro tropical do abandono, capim que cresce, os lagartos ou a medrosa cobra que se escondem. Onde os adultos viam e cheiravam os apossépticos odores de um drama, nós víamos e cheirávamos o cabo da boa esperança dos nossos descobrimentos.

Víamos nós e via Bill, o herói de Hope and Glory, filme de John Boorman, pequeno e verdadeiro como só os pequenos filmes podem ser verdadeiros. Bill, o miúdo londrino, fomos nós, os exploradores de casas em ruínas da Luanda colonial, que o emprestámos a John Boorman. A sorte que Bill teve. Foi viver em guerra, para o que nós já o tínhamos preparado. E sou, de inveja, obrigado a repetir-me: a sorte que ele teve. Londres era bombardeada forte e feito pelos nazis, enquanto nós, em Luanda, só tínhamos as notícias em surdina dos nossos terroristas libertadores. Nem um eco de um morteiro, sequer o silvo anacrónico de um tiro de canhangulo.

Oh, que longe que era a guerra. Que raio de progressista era Che Guevara, que nem sequer ousara um passo a sul do rio Zaire, um pezinho que fosse no capim de Angola. A muito mais se atrevera, cinco séculos antes, o intrépido reaccionário Diogo Cão. Os nossos 10 anos já tinham saudades do 4 de Fevereiro de 61, que nos obrigara a passar as noites de dois meses em apartamentos da Baixa, colchões estendidos no chão, mulheres e crianças de um lado, homens do outro.

Às noites londrinas de Bill, vinham os bombardeiros da Luftwaffe rasgar a escuridão e o silêncio. Os dias seguintes, como se a vida em guerra fosse férias eternas, eram de alegria pirata nas ruas destroçadas. Até que chega o tempo de voltar às aulas. Bill e os amigos sentem a dura garra da escravidão e do dever aproximar-se. Chateado de morte, Bill volta à escola. Descobre que uma bomba perdida a arrasou essa noite. É o êxtase, o delírio entre os miúdos. Um deles grita, à espera que se ouça em Berlim: “Obrigado, Adolf.”

Este artigo foi originalmente publicado no jornal português O Expresso.

manuel.s.phonseca@gmail.com

Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a velha ortografia.

 

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