Prisioneiros de Lula

Desde o início o ex-presidente Lula, hoje preso em Curitiba, teve estratégia clara. Construiu uma narrativa para apagar da memória dos brasileiros o desastre econômico e social criado pelos governos petistas e para despertar nos eleitores a ilusão de que viveram anos dourados em seu governo. Paralelamente, se fez de perseguido pela Justiça, eludindo sua condição de presidiário por crime comum.

De dentro da cadeia, Lula pode conduzir sua estratégia em uma zona de conforto. Estranhamente, ela não foi desconstruída pelos outros presidenciáveis, que se deixaram enredar.  Passou batido, por exemplo, o embuste  dos 13 milhões de desempregados, que ele jogou nas costas dos adversários, principalmente do PSDB e do governo Michel Temer.

A grande pergunta é: por que os demais presidenciáveis, exceto Jair Bolsonaro, ficaram paralisados pelas artimanhas lulistas, que agora estão prestes a colocar Fernando Haddad no segundo turno?

Uma explicação surpreendente é a de terem subestimado Lula. De um lado, Geraldo Alckmin e os outros candidatos do centro imaginaram que a prisão do caudilho faria o campo vermelho desaparecer da polarização com o dito campo azul. De outro, Ciro Gomes e Marina Silva viram-se na condição de herdeiros naturais do eleitorado lulista. Os dois lados ingenuamente deixaram de dar o combate à candidatura petista.

O erro de Geraldo Alckmin pode ter sido fatal: abriu mão de ser a expressão do pólo azul no confronto com o vermelho, deixando Bolsonaro ocupar esse espaço. Isto ficou evidente na propaganda televisiva. O tucano começou sua campanha esquecendo-se de um episódio do qual foi vítima. Na disputa pela prefeitura paulistana em 2008, Gilberto Kassab se antecipou a Alckmin e, já no primeiro programa de TV, polarizou com Marta Suplicy, candidata do PT. Kassab venceu aquelas eleições.

O que fez Alckmin agora? Tentou uma linha intermediária, expressa no slogan “cabeça e coração”, em uma eleição radicalizada na qual o eleitorado não está interessado no meio termo. Agora busca se reposicionar, mas por vias tortas. Não combatendo Haddad e o PT, mas pregando o voto útil e atacando Bolsonaro. A eficácia dessa estratégia deixa sérias dúvidas e pode até facilitar as chances de Haddad no primeiro turno.

Já o discurso salomônico de Marina Silva de colocar PSDB e PT no mesmo balaio e de dizer que seria injusto apenas Lula estar preso, também favoreceu à estratégia do caudilho. Marina se meteu numa enrascada: não conquistou a confiança do eleitorado historicamente lulista, que a abandonou nas primeiras horas do lançamento de Haddad, nem fez pontes com o eleitorado do centro e anti-Lula. Foi quem mais perdeu.

Ciro Gomes também poupou Lula até mais não poder.  Por bom tempo operou erraticamente, ora à direita, ora à esquerda. Com mais resiliência do que Marina, também está vitimizado pela entrada de Haddad em campo. E, diferente da sustentabilista, Ciro não é de ir para o matadouro calado.

A grande dúvida é se Alckmin, Ciro e Marina deixarão de ser prisioneiros de Lula e adotarão uma estratégia comum de ataque ao presidenciável petista. Se não o fizerem estarão aplainando o terreno para o segundo bote de Lula: apresentar, desde já, Haddad como o candidato da conciliação e da união contra o perigo Jair Bolsonaro. Aí seria correr para o abraço.

Talvez esse seja o único ponto obscuro na estratégia lulista, para quem Bolsonaro era um problema do PSDB. Poupou o candidato da extrema direita no primeiro turno por considerar favas contadas sua derrota no segundo já que estariam todos contra ele.

O Brasil continua dividido entre azul e vermelho. Só que com atores diferentes.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, na Veja, em 19/9/2018.

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