Petrobrás: estratégia ou ideologia

A indicação do economista Roberto Castello Branco para presidente da maior empresa brasileira põe na ordem do dia o debate sobre qual deve ser o papel da Petrobrás em um mundo em busca de energias limpas e renováveis. Dentro de algumas décadas o petróleo cederá espaço a novas fontes de energia e aquilo que hoje é visto como estratégico pode se transformar num tesouro morto, abandonado nas profundezas do pré-sal.

Concentrar esforços na sua exploração e produção, enquanto tem vida útil, passa a ser de interesse nacional.

Se esse é o objetivo estratégico a ser perseguido, faz inteiramente sentido a ideia do novo presidente da estatal de privatizar atividades nas áreas de distribuição e refino.

A BR distribuidora é uma grande rede de lojas, que pode muito bem ser tocada pela iniciativa privada sem comprometer a soberania nacional ou o desenvolvimento do país.

Por outro lado, 98% do refino está em mãos do Estado, quando o próprio monopólio da extração e produção do petróleo já foi quebrado há duas décadas. Qual a razão para não se repetir o modelo nas refinarias, a não ser o víeis ideológico e o saudosismo de um nacional desenvolvimentismo anacrônico?

Essas mesmas resistências se manifestaram quando o governo de Fernando Henrique Cardoso quebrou o monopólio na área de exploração por meio de concessões. A medida, em vez de enfraquecer a Petrobrás, a fortaleceu.

A concorrência obrigou-a a ganhos de produtividade e avanços tecnológicos, que levariam à descoberta do pré-sal. Em contrapartida o ideologismo trouxe danos à empresa e ao país, com o engessamento das regras de exploração do tesouro descoberto. A empresa viu-se obrigada a estar presente em áreas nas quais não tinha interesse nem aporte financeiro para tal.

Todo e qualquer tema sobre o futuro da Petrobras desperta paixões, até por seu simbolismo: ela nasceu como resultado da intensa campanha nacionalista “O petróleo é nosso”. Mas os tempos hoje são diferente dos anos 50, quando a política nacional-desenvolvimentista da era Vargas fazia sentido. O que é estratégico é mutável conforme a época.

A siderurgia foi essencial para dotar o Brasil de uma indústria de base sem a qual não surgiria um moderno parque de bens duráveis. Mas no início dos anos 90 já não se justificava a presença do Estado no setor e as siderúrgicas foram privatizadas. O mesmo aconteceu com a telefonia. Na década de 70 o Estado foi essencial para a criação de uma rede de telecomunicações em todo o país. Já no anos 90 seu grande salto se deu com as privatizações.

A Petrobras ainda tem um papel estratégico da sua competência na exploração em águas profundas, situando-se na última fronteira em termos tecnológicos. Um papel que pode estar com dias contados quando se mira para um horizonte de médio e longo prazo.

Se forem levadas em consideração as profundas transformações decorrentes da Quarta Revolução Industrial, o estratégico para o Brasil é ingressar no seleto rol do clube da inovação tecnológica. Hoje as principais empresas não são mais as petrolíferas e as de energia. São as cinco irmãs tecnológicas: Apple, Microsoft, Google, Facebook e Amazon.

Não faremos parte deste time se ficarmos acorrentados a dogmas do passado e a ranços ideológicos.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, na Veja, em 21/11/2018. 

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