Os (des)caminhos do centro

Dando como favas contadas que Lula não estará na urna eletrônica, o campo democrático, situado entre os dois extremos que lideram as pesquisas, inicia a disputa presidencial atomizado em várias pré-candidaturas. O coro que não vê problema em muitas candidaturas foi engrossado por Rodrigo Maia, mais um a entrar na dança presidencial, e Geraldo Alckmin, até então árduo defensor de uma candidatura aglutinadora.

Em sendo assim, não haveria problema em Marina Silva, Alckmin, Joaquim Barbosa, Henrique Meirelles, Rodrigo Maia e mesmo Luciano Huck – se por ventura entrar no jogo – em disputar o mesmo espaço. No final, acreditam, um deles chegará ao segundo turno, quando todos se uniriam.

Argumenta-se ainda que até julho seria a etapa de se testarem candidaturas, quando haveria a decantação natural, com novo realinhamento do centro. Alimenta a tese o fato de todos os pré-candidatos deste espectro terem baixa densidade em matéria de intenção de votos.

Ora, esse quadro não será alterado substancialmente até o meio do ano, salvo tempestade, chuva e trovoada, como a entrada de um outsider de centro que empolgue o eleitorado avesso a Lula e Bolsonaro. Como todos estariam no mesmo patamar, todos se sentiriam no direito de ir em frente.

Em vez do afunilamento, a hipótese mais provável seria a cristalização das candidaturas – ou da maioria delas – com o campo democrático vivendo uma situação semelhante à da disputa presidencial em 1989 e à do Rio de Janeiro em 2016. E como haveria indefinição até julho, a construção de palanques regionais também iria para a rubrica de médio prazo.

Falta ao centro uma estratégia claramente definida, com o objetivo definido a ser perseguido, ao qual todos os seus movimentos deveriam estar em sintonia. O presidente Michel Temer pressentiu o perigo com sua sinalização a Geraldo Alckmin. Mas pelo visto não adiantou muito.

Evidência clara da falta de rumo: parte do centro reproduz o erro de 1989, quando Lula não quis Ulysses Guimarães em seu palanque. Hoje desdenha-se do apoio do PMDB e Temer, como se a correlação de forças entre o centro e os dois polos regressistas fossem favoráveis a ponto de se dispensarem alianças.

Subjacente à estratégia de várias candidaturas está a certeza de que a Justiça facilitará a vida de todos, com a condenação de Lula.

A lei da inércia, acreditam, funcionaria mais uma vez, com Lula e o PT nas cordas e o esvaziamento espontâneo de Bolsonaro. Automaticamente estaria assegurada a presença do centro democrático no segundo turno. Essa lógica conspira contra a aritmética. A depender de como for a divisão do eleitorado refratário aos extremos, o centro pode ficar a ver navios na segunda rodada.

Sem contar o risco bastante provável de as candidaturas perderem o foco e ficarem guerreando entre si. A troca de cotoveladas entre Rodrigo Maia e Henrique Meirelles é apenas um aperitivo do que pode vir.

Convém, pois, levar muito a sério o alerta do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em seu último artigo: “o pior pode sempre acontecer… Não há fé cega na razão ou nos bons propósitos que barre o irracional, se não se criarem alternativas que impeçam o pior prevalecer, pela guerra ou pelo voto”.

O perigo não está afastado, longe disso. Do ponto de vistas de seus objetivos, a estratégia de Lula está afinadíssima. Dom Sebastião não brinca de candidatura, não faz política amadoristicamente.

Adota estratagema semelhante ao da sua eleição de 2002, costurando alianças, comendo o PMDB pelas bordas. O caudilho não tem esse drama existencial do centro. Aceita alianças até com o diabo se ela favorecer aos seus planos.

Só não enxerga o objetivo estratégico de Lula quem não quer: estar na urna eletrônica com sua foto ou com algum preposto. Para tal vai travar a batalha jurídica até onde puder.

Não por ter ilusões sobre o pronunciamento das instâncias judiciárias, mas para manter nomes como Renan Calheiros, Eunício Oliveira, Jader Barbalho, Paulo Câmara em seu palanque. Pode até não ter cacife para eleger seu preposto, mas tem para colocá-lo no segundo turno, sobretudo se os adversários facilitarem sua vida.

É temerária também a aposta na desidratação natural de Bolsonaro. Há um ano dizia-se que ele era fogo de palha . Sua resiliência se explica porque há um segmento do eleitorado não desprezível que se identifica com seu discurso das trevas.

E como um extremo se alimenta do outro, a possibilidade real de Lula ir ou levar seu poste ao segundo turno dará gás a Bolsonaro. O medo de o lulismo voltar ao poder por meio de um preposto fidelizará o eleitorado bolsonarista se não houver outra saída.

Elementar, o objetivo estratégico do centro deveria ser quebrar essa polaridade ou criar um novo contraponto por meio de uma alternativa agregadora, comprometida em levar adiante as reformas econômicas e capaz de combinar a democracia liberal com o reformismo social.

A indagação do artigo de FHC “Ainda há tempo?” paira no ar. O centro democrático pensa que o relógio da disputa presidencial ficará parado à espera de candidatos de sua turma.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 17/1/2018. 

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