Os Bossa Nova, privilégio puro

Que imenso privilégio ver, juntos, num palco – e no palco de uma maravilha de teatro, o Paulo Autran do Sesc Pinheiros, em São Paulo –, João Donato, Carlos Lyra, Roberto Menescal e Marcos Valle.

Isso vinha à minha cabeça sem parar, ao longo dos cerca de 90 minutos de encantamento que foi o show dos quatro grandes músicos.

O terceiro show que eles fizeram juntos na vida, segundo disse, logo no início, Marcos Valle. Apesar de serem amigos, companheiros, parceiros, e de terem lançado em 2008 um disco juntos, Os Bossa Nova, para comemorar os 50 anos do movimento, não haviam feito shows. Resolveram fazer agora, pelos 60 anos da bossa nova, e começaram por São Paulo, na sexta-feira, 11 de maio. Por isso é que o show que vimos, o do domingo, foi o terceiro.

Não parecia, de jeito algum, que era a estréia de um show. Muitíssimo ao contrário: parecia que tinham percorrido o país inteiro ao longo de meses e estavam agora encerrando a carreira do espetáculo naquele teatro maravilhoso. (Marcos Valle fez questão de elogiar a sala, em sua primeira fala.) No mínimo, no mínimo, parecia que haviam ensaiado exaustivamente, para estarem tão à vontade e tão harmônicos.

Mas é que de fato devem estar acostumados a tocar juntos, se não os quatro, pelo menos em duplas. Compuseram juntos várias músicas, nas mais diferentes formações – Carlinhos e Marcos (“Até o fim”), Marcos e Donato (“Entardecendo”, “Último aviso”), Carlinhos e Menescal (“Sambeando”), Menescal e Donato (“A cara do Rio”), Menescal e Marcos (“Bossa entre amigos”).

E experiência, traquejo, vivência, anos de estrada é que o não falta. De jeito nenhum.

João Donato disse que era aniversário de Carlinhos Lyra, de 85 anos; ele tentou negar, mas ouviu os músicos tocarem e a platéia cantar “Parabéns pra você”. Era mentira, perdão, era uma brincadeirinha de Donato: o aniversário dele foi na sexta-feira, exatamente o dia da estréia do show. E ele não fez 85: nascido em 1939, fez portanto 79.

João Donato na verdade é o mais velho daqueles quatro senhores: nasceu – em Rio Branco, a capital do Acre – em 1934, e está portanto com 83 anos. Depois dele vem Roberto Menescal, capixaba de Vitória, nascido em 1937, hoje com 80 anos. Marcos Valle, que Menescal chamou de surfista, é o garoto do quarteto: de 1943, está com apenas 74. Ele e Carlinhos são cariocas da gema.

É de fato um garotão, com aquele cabelo comprido como se usava nos anos 70, aquela cara de surfista: seu primeiro disco é de 1963, quando os outros três já tinham carreira sólida.

Como eu mesmo já estou bem velhinho, me lembro de Carlinhos Lyra não apenas como o autor de alguns dos grandes clássicos da bossa nova, como “Samba do Carioca”, “Minha Namorada”, “Pode ir” (com Vinicius de Moraes), mas como o sujeito que fez, no início dos anos 60, a “Canção do Subdesenvolvido”, gravada em um compacto duplo para o Centro Popular de Cultura da UNE – CPC este de que foi um dos fundadores, ao lado de Oduvaldo Viana Filho, Ferreira Gullar, Leon Hirszman e Carlos Estevam.

Todas as canções citadas acima (com exceção, claro, do “Subdesenvolvido”) estão na set list do show Os Bossa Nova.

Me lembrei do disquinho do CPC da UNE, que a gente ouviu nas aulas de História do Brasil da Dona Beatriz no Colégio de Aplicação como exemplo do que rolava antes do golpe de 1964, enquanto via, extasiado, aqueles quatro senhores no palco do Teatro Paulo Autran, e ficava imaginando que privilégio é este, meu Deus do céu e também da terra.

Estavam ali, diante de Mary, de mim e de mais mil felizardos que lotavam o teatro do Sesc Pinheiros, alguns dos pioneiros, dos criadores da bossa nova.

Marcos Valle, a rigor, não é dos pioneiros, dos criadores – é considerado, com toda razão, como nome da segunda geração da bossa nova. Surgiu junto com a geração dourada da MPB, Chico Buarque, Nara Leão, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Edu Lobo, Maria Bethânia, Gal Costa, Elis Regina. (Milton Nascimento viria um pouquinho, bem pouquinho depois.)

E é absolutamente necessário fazer um registro sobre o público, a platéia, os mil privilegiados que viram o show com Mary e comigo – seguramente igual às platéias da sexta e do sábado. Eta platéia boa, meu!

Dizem que os artistas gostam especialmente das platéias paulistanas.

Deve ser verdade.

Pensei bastante nisso: aqueles quatro senhores, embora calejados, experientes demais, em apresentações ao redor do mundo todo, devem ter sentido seus egos bastante agradecidos, porque, cacete, que recepção maravilhosa eles tiveram! Quanto aplauso a cada uma das músicas! Que recepção quando entraram – o teatro inteiro de pé aplaudindo a simples existência deles!

Uma platéia interessada, conhecedora, apaixonada, entusiástica. No restaurante em que foram jantar após o show, no avião de volta para o Rio, com absoluta certeza vão comentar: – “Essexx paulistaxx são demaixx!”

***

Marcos Valle parecia o mais à vontade dos quatro para conversar com a platéia. Contou uma que me fez gargalhar durante um bom tempo: Tim Maia chegou pra ele e disse (e aí ele imitou o vozeirão do Síndico): “Ô Marcos, o Brasil tem três grandes músicos: eu, você, e eu de novo!”

Lá pelas tantas, contou que uma determinada canção, creio que “Entardecendo”, foi composta por ele e por Donato quando os dois estavam no Barbican, em Londres. Citou assim como quem não quer nada o Barbican, sem dizer mais nada sobre o belíssimo centro cultural construído numa região que sofreu especialmente com os bombardeios nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, que tive o privilégio de visitar na única vez em que estive lá.

Menescal gozou: – “Chique, hein? Em Londres…”

Mais tarde, quando Marcos Valle falou de “Vagamente”, a canção de Roberto Menescal-Ronaldo Bôscoli para a qual ele fez um arranjo, pedindo que Menescal cantasse, o capixaba contou que época protestou, disse não ser cantor, não queria cantar. E em seguida comentou que sua carreira de cantor foi a mais curta do mundo: começou e acabou numa única apresentação, no Carnegie Hall – a famosérrima sala de concerttos de Manhattan em que a bossa nova foi apresentada à terra do Tio Sam e ao mundo, em 1962.

Marcos Valle poderia perfeitamente ter devolvido ao amigo o “Chique, hein?” Não devolveu – mas Mary, ao meu lado, fez a brincadeira: “Chique, hein?”

Falei que Marcos Valle era quem estava mais à vontade para falar, contar histórias, e a rigor creio que isso é correto – mas a verdade é que todos eles falaram e contaram casos para o público numa boa, na maior.

Menescal contou que um belo dia tinha parado seu Fusquinha no Arpoador, e saíra para olhar a praia, carregando o violão. Aí viu um surfista que passava, carregando sua prancha – Marcos Valle, claro. O garotão chegou pra ele e falou tipo pô, que legal que cê tá com o violão, acabei de fazer uma musquinha, deixa eu te mostrar.

– “E aí ele me mostrou, e eu falei, mas, Marcos, isso aqui é um grande acerto! Isso vai pegar, vai dar o que falar no mundo inteiro.”

A musquinha que Marcos tinha feito com o irmão Paulo Sérgio era “Samba de Verão”.

“Summer Samba” foi gravado, entre muitos, muitos, muitos artistas e grupos, por Duke Ellington.

***

A verdade é que aquele povo reunido ali no palco do Sesc Pinheiros, diante da gente, é chique demais da conta.

Há muitas décadas digo e repito que a música é nossa especialidade, nosso melhor produto de exportação.

Ver quatro mestres, quatro bambas, quatro veteranos, de carreiras inigualáveis, juntos e ao vivo, é privilégio demais da conta.

13 e 14/5/2018

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