O sexo e o empurrão

Estão no Nimas e são filmes franceses. Os organizadores chamaram ao ciclo «Os Grandes Mestres» e balizaram-no com datas, a do Big Bang e a do Apocalipse, perdão, 1930, simbólica explosão do sonoro, e 1960, já a nouvelle vague fragmentava os hábitos narrativos e excluía do cinema o que a nova França ia excluindo da vida, a saber: a ingenuidade do quartier popular, a graça nonchalant do vígaro, os sonhos de ascensão social da costureira ou da criada, a sincera admiração da pequeno-burguesinha pelo descapotável novinho em folha com que um sedutor a tenta, o apetite inter-classista por uma sexualidade consentida, mas um bocadinho empurrada, como se, tal qual se engraxam sapatos, todos andassem, de escova e lubricidade, a puxar erótico brilho ao quotidiano.

Ia dizer que nunca mais o cinema francês voltou a ser genuíno, não fora ter eu aprendido com James Bond que nunca se diz nunca, isto para não dizer que também não me rendo à ideia de identidade, tantos eram já os sinais americanos que rasgavam os filmes franceses do pós-guerra. Aliás, essa admiração e mimesis foi afirmada e exaltada pelos corrécios da nouvelle vague que, mais do que ninguém, souberam estarrecer-se com a sublime virtude artística que o cinema americano conseguia inscrever no grau zero da mais simples narrativa, mesmo se nunca eles próprios conseguiram aproximar-se ou repetir esse milagre de haver Matisse e Piero della Francesca nos traços desencantados do rosto de um Gary Cooper e no escarpado horizonte de um western de Anthony Mann, sem que o western deixasse de ser um western.

Um dos filmes que o Nimas mostra é Elena et les Hommes. Dessa Elena disse Jean Renoir, seu criador, que era Vénus. Não estou certo de que os traços vulneráveis e manipuladores da Ingrid Bergman que é Elena tenham sido desenhados por Botticelli. Mas na festa do 14 de Julho, reminiscência do quartier e do seu povo, Renoir encena tudo com mancha de Cézanne.

Na aparência, nenhum filme poderia ser menos representativo do cinema francês do pós-guerra. Tudo é, porém, francês: o povo que dança, o vinho, a erotizada sedução com que Elena esfrega cada um dos seus homens, pedindo que a beijem, dobrem, empurrem um bocadinho, para logo ela os desempurrar com a ironia e ligeireza que são a bandeira de França. Vamos ao Nimas?

Este artigo foi originalmente publicado no jornal português O Expresso.

manuel.s.phonseca@gmail.com 

Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a velha ortografia.

 

 

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