O conto do cabresto digital

Haddad defendeu incesto em livro. Facada foi armação para esconder câncer de Bolsonaro. Frase “Jesus é travesti” gravada na camiseta de Manuela D’Ávila, bolsonaristas distribuindo grama para nordestinos. Pesquisas mostrando Haddad na liderança, ameaças de que tanto o PT quanto o PSL vão congelar a poupança. Essas e outras tantas mentiras – glamourizadas com a grafia inglesa fake news – correram e continuam frequentando as redes, ambiente em que ninguém é inocente. Nem a equipe do ex-capitão nem o PT.

Áudios e vídeos, montagens, algumas caseiras, outras não, boa parte para lá de grosseiras, dominaram a campanha de 2018. Algo que já ocorria muito antes do período eleitoral em que oficialmente seriam permitidas as incursões impulsionadas nas mídias sociais.

As equipes dos dois times que chegaram à final teceram suas teias há tempos. Burlaram a legislação no que tange à campanha antecipada e, ao que tudo indica, também ao financiamento para multiplicar suas mensagens, verdadeiras e falsas. Afinal, por maior que possa ser o engajamento espontâneo, qualquer noviço sabe que nada se faz de graça. Às vezes, até com financiamento público, como acontecia com blogueiros amigos no período áureo dos governos petistas.

Na reta final, o diabo se materializou no WhatsApp, que, de acordo com o candidato petista, teria influenciado definitivamente o resultado do primeiro turno.

Reportagem publicada na Folha de S. Paulo denunciando o uso indevido da rede pelo candidato do PSL alimentou a artilharia, com mais mentiras e tiros à culatra pelos dois lados. Bolsonaro e o seus atacaram com violência a autora Patrícia Campos Mello e o jornal, e Haddad viu na matéria a salvação contra a sua derrota anunciada.

Na Justiça, apoiadores de Bolsonaro exigem provas que os comprometam. Haddad foi mais além: pediu a prisão preventiva e a cassação do adversário. Nas redes, acusa Bolsonaro de fraudar as eleições com uma usina de mentiras financiadas por caixa dois.

Caixa dois é inadmissível. Mas é curioso ver o PT denunciar como gravíssimo algo que durante o julgamento do mensalão considerava pecado menor. Repete a tática de que um crime é fatal quando cometido pelo outro e banal nas vezes em que os seus estão na berlinda.

Fora a hipótese de que empresários pró-Bolsonaro financiaram disparo massivo de mensagens, o que é proibido pela legislação que impede a participação privada nas campanhas e, portanto, tem de ser investigada, esmiuçada e punida caso se confirme, o resto é mesmo chororô de perdedor.

Mesmo que a turma bolsonarista tenha espalhado boatos mais absurdos e em maior número, a do PT, como de costume, mentiu também. E não há lei que puna aquele que enganou mais ou menos o eleitor. Diga-se, não há lei que impeça o estelionato eleitoral, muito menos o engodo nas campanhas.

Nesse quesito, aliás, o ex-capitão é principiante perto do que o PT aprontou em campanhas anteriores e durante seus governos. As cenas de 2014, da comida sumindo dos pratos dos pobres para associar Marina Silva aos banqueiros, tornou-se um ícone da mentira eleitoral, em uma campanha que Dilma Rousseff pintou de ouro um país já mergulhado na lama.

Pela primeira vez sem dominar as redes onde já imperou absoluto, o PT, na voz de sua presidente Gleisi Hoffmann, fez a única autocrítica que o partido se permitiu até hoje: “nosso erro foi ter subestimado o WhatsApp”.

Possivelmente subestimou, sim. Mas cabresto digital só existe na cabeça de quem desconfia da capacidade dos votantes. Atribuir ao WhatsApp o resultado da eleição é, antes de tudo, um desrespeito ao eleitor. É tê-lo como idiota, incapaz de fazer suas escolhas.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, na Veja, em 21/10/2018. 

 

 

 

 

 

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