Navegar é preciso

Nas três últimas décadas os brasileiros conquistaram dois bens inestimáveis: a estabilização da economia, em 1994, com o fim da inflação que penalizava em especial os mais pobres, e o retorno da democracia, consagrada na Constituição de 1988.

Não é pouca coisa.

Sobretudo quando comparamos nossa situação à da Argentina, com 40% ao ano de inflação, que teve de recorrer ao FMI porque o populismo dos governos Kirchner não fizeram a lição de casa.

Ou com a da Venezuela, um país em desintegração, com inflação de um milhão por cento ao ano, cujo povo emigra em massa para os países vizinhos para fugir da fome e da ditadura sanguinária do chavismo.

Bem ou mal, temos uma cultura anti-inflacionária e um ordenamento democrático resiliente. Nem por isto estamos imunes a retrocessos que podem levar para o ralo conquistas obtidas com muita luta e sacrifício.

Não se trata de ver fantasmas onde inexistem, mas de entender o tamanho do risco a partir do resultado eleitoral do primeiro turno. Não se questiona a legitimidade do pronunciamento das urnas e sua soberania. Mas isto não elude o perigo dos projetos populistas-autoritários de Fernando Haddad ou Jair Bolsonaro.

No plano econômico, a conversão liberal de Bolsonaro não convence, face ao seu passado de estatista e seu desconhecimento absoluto de fundamentos básicos da economia. Sem contar que a previsível instabilidade política em um hipotético governo seu poderá contaminar a economia.

Quanto a Fernando Haddad é visível o desastre que seu programa econômico causará.  Já foi testado no governo Dilma Rousseff e deu no que deu. Fortemente intervencionista, tem propulsão a romper contratos com investidores, conforme explicitou no último debate televisivo.

Em comum, os dois candidatos embutem o risco inflacionário e da postergação das reformas. Tanto um como outro colocam em risco nosso bem mais precioso: a  democracia, largamente aprovada pelos brasileiros, segundo pesquisa do Datafolha.

A “Constituinte dos notáveis” anunciada pelo vice de Bolsonaro e a “Constituinte exclusiva” de Haddad expressam a intenção de golpear a democracia por dentro. A extrema-direita é avessa a valores democráticos, e a esquerda petista vê a democracia como um estorvo para seu projeto de poder.

Os retrocessos podem acontecer ou não. Dependem da resistência da sociedade. Concluída a disputa presidencial, o país ingressará em uma nova fase, na qual a resistência democrática e a articulação de uma ampla frente se apresentam como a estratégia mais adequada para a defesa de tudo que o Brasil avançou nos últimos 34 anos.

Diante da radicalização e de um país dividido ao meio, o lado perdedor tenderá a atuar com sangue nos olhos para desestabilizar quem ganhou no voto. Nessas condições, a existência de um pólo democrático e reformista é condição para evitar o quanto pior melhor, bem como para evitar que o país afunde nas águas turvas do populismo autoritário de direita ou de esquerda.

Em 1973, quando o Brasil estava mergulhado em um mar cinzento e não se via luz no horizonte, Ulysses Guimarães recorreu a Fernando Pessoa para fazer renascer a esperança. “Navegar é preciso”, pregou o Senhor Democracia, então anti-candidato em uma eleição de cartas marcadas no Colégio Eleitoral indireto. Tinha razão.

Hoje, mais do que nunca, navegar é preciso.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, na Veja, em 17/10/2018. 

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