Montevidéu, pequena pérola

Conseguimos encontrar um defeito em Montevidéu: não é muito fácil atravessar as pistas das ramblas para chegar ao calçadão junto da praia. São três faixas em cada direção, com um canteiro central bem pequeno, e os carros ali andam velozmente, perto do limite de 60 km/h. Há poucos faróis ao longo das ramblas – às vezes a distância entre um e outro é maior que 1 quilômetro.

Pode talvez parecer estranho começar um texto sobre Montevidéu (que seguramente será longo) com esse datalhe, mas não é. Na verdade, neste lead aí acima estão contidos itens importantíssimos, que por sua vez abrem para outros:

* As ramblas são um elemento fundamental da cidade, e uma atração absolutamente obrigatória para qualquer visitante. São a denominação comum das diversas avenidas beira-rio-mar, ao longo de todo o litoral de Montevidéu, desde a ponta a Oeste, junto à Cidade Velha, perto do porto e do Mercado, seguindo por dezenas de quilômetros rumo a Leste, e portanto rumo ao mar aberto. Os nomes vão mudando, um tanto de acordo com os bairros – Rambla Francia, Rambla Sur, Rambla República Helênica, Rambla República Argentina… –, mas a rigor é uma avenidona só. Como se fosse uma avenida só do Arpoador até o Recreio dos Bandeirantes, para usar o exemplo de outra cidade maravilhosa.

Dizem que é a maior rambla do mundo, com 22 quilômetros de extensão.

Para falar das ramblas, há que falar das praias, e do calçadão largo, majestoso, entre as pistas dos carros e as praias. Todas as tribos, absolutamente todos os tipos de uruguaios passeiam pelo calçadão. Observar o movimento do calçadão já dá material suficiente para tratados de antropologia, sociologia, o escambau.

(A foto do alto e esta abaixo, feita nos anos 1920, são da Praia de Pocitos.

Esta é a reprodução de um pequeno cartaz colocado pela Prefeitura em uma das praças do bairro, junto da rambla.)

* Velocidade. As ramblas são provavelmente o único lugar em Montevidéu em que se anda velozmente, em que se corre a 60 quilômetros por hora. Uma característica fundamental da cidade e de seus habitantes é a não-velocidade – a calma, a tranquilidade. Tudo bem: é verdade que no calçadão se corre, se pratica jogging – mas até o jeito de correr dos uruguaios é calmo, tranquilo.

Em Montevidéu, assim como na canção-mantra de Walter Franco, anda-se, vive-se “a 60 minutos por hora, sem pressa nem demora, pela vida afora”.

As pessoas percebem quando você está olhando um mapa, tentando entender onde está, para onde deve ir – param o que estão fazendo, aproximam-se de você e se oferecem para ajudar. Aconteceu conosco algumas vezes. Quando estávamos na região de Aguada, perto do Centro e do porto, junto do moderno conjunto de prédios da estatal Antel, e queríamos saber exatamente que rua pegar até o grandioso Palácio Legislativo, um frentista veio dar informações, solícito. Quando estávamos vendo que ônibus era bom para ir para as praias mais a Leste, um rapaz veio ajudar; pegou o mesmo ônibus, e lá dentro veio indicar o melhor ponto para descer e chegar à praia.

Minha amiga Márcia Pinheiro tinha reparado essa característica fascinante – e importantíssima – dos habitantes de Montevidéu. Fez o comentário perfeito em um post meu no Facebook: “O que mais gostei em Montevidéu foi a calma. Achei que todo mundo anda devagar, as pessoas são gentis.”

Gentilíssimas – e gostam de conversar. É uma delícia: basta você dar um sinal de que quer papear para que o interlocutor se disponha a conversar longamente com você. Motoristas de Uber, garçons, caixas, pessoas na rua – fiz uma pergunta ou outra, eles responderam com calma, e foram em frente. Conversei sobre segurança, política, futebol, novelas e programas de televisão com as mais diferentes pessoas.

Do dono de uma disqueria na Galería del Libertador, na Avenida 18 de Julio, Juan C. Origoni, a quem pedi informações sobre Daniel Viglietti, fiquei amigo de infância. Tivemos uma longa, deliciosa conversa com ele, a mulher, Lylián Firpo, uma jornalista simpaticíssima, e seus dois filhos, sobre música, política, Pepe Mujica, tupamaros, os dois caminhos distintos para se combater ditadura, o carnaval uruguaio, completamente diferente do nosso, o mais longo do mundo. E ele me aplicou Alfredo Zitarrosa, segundo ele o maior cantautor uruguaio, sobre quem fala num programa semanal de rádio.

* E, finalmente, para encerrar os itens contidos no primeiro parágrafo deste texto: a dificuldade de cruzar as seis faixas de trânsito nas ramblas foi o único defeito que conseguimos encontrar, ao longo de uma semana inteira em Montevidéu. O que, obviamente, significa que adoramos a cidade.

Não tivemos interesse em deixar Montevidéu para ir até Colônia ou Punta del Leste – dois passeios que a imensa maioria dos turistas brasileiros, para não dizer a totalidade, parece achar indispensáveis para quem vai à capital uruguaia. Pode até ser que a gente vá a Colônia um dia, mas será em outra ocasião. Punta, não vou conhecer jamais; não tenho curiosidade alguma.

Somos daquele tipo para quem conhecer uma grande cidade em dois dias é algo impossível. Tem que ser uma semana – pelo menos.

O Uruguai é um país pequeno, a população é pequena

Uma grande cidade?

Muitos uruguaios fazem questão de dizer, de lembrar, de realçar que o Uruguai é um país pequeno. E que Montevidéu é pequena.

Sem dúvida. A República Oriental do Uruguai é o 89º país em extensão territorial. É menor que a Síria, a Nova Zelândia, o Equador. É bem menor que o país, perdão, o Estado que está logo ao Norte dele, o Rio Grande do Sul. Os gaúchos vivem num Estado que tem 269 mil km2, e os uruguaios, num país de 176 mil km2.

Os números sobre a população uruguaia são ainda menores, e por isso muito mais impressionantes. No Rio Grande do Sul vivem 10,18 milhões de habitantes. A população do Uruguai é de 3,351 milhões de pessoas. Mais ou menos a população da Zona Leste da cidade de São Paulo.

(A questão demográfica do Uruguai, importantíssima, tem que voltar a ser falada mais adiante.)

Apesar de concentrar quase a metade de toda a população do país, Montevidéu tem 1,319 milhões de habitantes.

Se estivesse no Brasil, Montevidéu seria o 14º município em população.

Montevidéu é menor que Guarulhos, na Grande São Paulo.

E – meu amigo Valdir Sanches que me perdõe – Guarulhos pode ser muita coisa, mas não é uma metrópole.

Já Montevidéu – aí vai mais uma prova de que tudo, absolutamente tudo na vida é relativo – é uma metrópole. Pequenina, se comparada a outras megacidades do mundo. Pequetita, e até um tanto modesta. Mas metrópole.

Em Montevidéu há todo tipo de gente que existe no mundo. Todo tipo de comércio. Todo tipo de arte – e bota arte nisso. Todo tipo de qualquer coisa, em qualquer categoria das atividades humanas.

Tudo, absolutamente tudo de que uma pessoa pode necessitar na vida, ela encontra ali – e essa, creio, é a melhor definição de metrópole.

Montevidéu é uma pequena jóia, uma pequena pérola.

Várias vezes, sentado em um banco junto do calçadão em Pocitos à noite, vendo aquela espécie assim de pequena Copacabana, as luzes refletidas na água do rio-mar, me lembrei dos versos de Caetano sobre outra ciudad de nuestra América Latina, una que todavia no conozco, La Habana: “La sueño uma perla encendida sobre la mar”.

“La mar”? Feminino?

No maravilhoso show com que presenteou 15 mil pessoas na recém inaugurada Antel Arena (na foto), em sua turnê mundial “Mediterráneo da Capo”, Joan Manuel Serrat conversou a platéia sobre essa questão: o mar é masculino ou feminino? Para comprovar que é uma questão séria, cantou (maravilhosamente) “La Mer”, de Charles Trenet – e depois conjeturou que, como há muitos milênios o mar tem um caso com a lua, pode ser que seja ele ou ela, mas, seja o que for, é andrógino. O mar, la mer, é andrógino que nem David Bowie.

Sou um ser dotado de bolas de ferro amarradas às canelas, e raríssimas vezes viajo. Mary só conseguiu me levar a Montevidéu porque descobriu na internet que Serrat faria um único show lá, e ainda havia ingressos; os programados para Santiago do Chile, Buenos Aires e Mendoza já estavam quase esgotados. Diante disso, acedi, capitulei – disse que topava ir. Mas isso não importa, e Joan Manuel Serrat terá que ser tema de outro texto.

Uma questão difícil, um dúvida atroz: aqui é rio ou é mar?

O fato que é que, além da questão semântica se mar, em espanhol, é masculino ou feminino (meu antiquíssimo Dicionário de Espanhol-Português da Porto Editora diz que é amb, de ambivalente), há em Montevidéu uma questão mais premente, mais física, e também, se me permitem, mais molhada: aquilo aí diante de nós, aquele monte de água sem fim que vai até o horizonte é rio ou mar?

Mary, que só tinha ido uma vez a Montevidéu, ainda criança, literalmente criança, sequer fazia idéia de que a cidade tem praia, tanta praia, algumas – como a de Malvin, de areia fina branquíssima – tão belas quanto qualquer praia do Nordeste. E ficou brincando, ao longo dos dias, com a questão: esse mundão de água aí é rio ou é mar? É mar, assegurava ela. Só louco pra dizer que isso é rio.

É uma questão, uma dúvida, um dilema que Montevidéu compartilha outra capital de país, perdão, Estado situado ao Sul de Santa Catarina. Quando estivemos em Porto Alegre, observamos que os próprios gaúchos não sabem ao certo se aquele Guaibão todo, também tão lindo, é um rio ou é um lago.

Quando Mary vinha dizendo que aquilo ali é mar, e não rio, eu recitava os versos de Horacio Ferrer para a melodia de Astor Piazzolla cantados por Amelita Baltar: “mi Rio de La Plata lindo y sucio”. Sujo, no dizer de Ferrer em “Preludio para el Año 3001”, imagino eu, não por poluição, mas pelo fato de ter as águas – amplas, largas, oceânicas – barrentas, e não azuis ou verdes.

Há bons argumentos para dizer que é mar. Não se vê terra do outro lado – parece infinito. Tem maré alta, maré baixa. Tem ondas – bem pequenas, é verdade, mas que se agigantam com o vento. Nos dias de vento, pratica-se windsurfe. Vimos, numa quinta-feira de vento bravo, uma dezena de pessoas praticando windsurfe, dando maravilhosos saltos com as ondas.

Mas também há argumentos para dizer que aquele mar é um rio: o verso do portenho Horacio Ferrer, “mi Rio de la Plata lindo y sucio”, e o mapa, qualquer mapa.

Embora… Poesia é poesia. Pode ser um caso de licença poética. E os mapas, bem, pelos mapas, aquilo poderia perfeitamente ser uma gigantesca baía. Uma grande Baía da Guanabara, embora a Guanabara tenha a boca fechadinha, e o estuário do Prata seja uma bocarra de jacaré.

Há também que levar em consideração que Piazzolla, Ferrer e Amelita são daquela outra capital banhada pelo Rio da Prata, aquela do outro lado do rio, muitíssimo maior que Montevidéu. E aquela outra fica bem mais para dentro do rio, e portanto a água – que vem do Paranazão e do Paraguai e mais do Uruguai – lá é muito mais barrenta.

Em Buenos Aires, que está mais longe do mar, a água é mais barrenta, sem dúvida. E Buenos Aires não tem praia.

Isso deve ser motivo de muita discussão, na eterna rivalidade Buenos Aires x Montevidéu. Que as duas são rivais, disso não há dúvida alguma. É como Nova York x Los Angeles, São Paulo x Rio de Janeiro, Blumenau x Joinville.

Onde nasceu o tango – em Buenos Aires ou em Montevidéu? “La Cumparsita” é composição uruguaia. Carlos Gardel, afinal de contas, é uruguaio! (Ou não?)

Rivalidades. Dúvidas, dilemas, questões.

Algumas seguramente não poderão ser resolvidas nunca. Outras são mais simples. Mary deu um mergulho na água na praia de Pocitos e constatou o óbvio: a água é meio salgada, meio doce. Não tão salgada quanto a água do mar aberto, não tão doce quanto a água dos rios.

Mi Rio de la Plata lindo e sucio em Montevidéu é mezzo rio, mezzo mar.

E, diferentemente de como é em Buenos Aires, barrento que nem o Paraná, o Paraguai e o Uruguai, fica azulzinho celeste nos dias de sol.

Junto do Farol de Punta Carretas, o ponto mais meridional da capital mais meridional da América Latina, se vê um pôr-do-sol, lá no infinito após o rio-mar, digno do Arpoador ou do Farol da Barra. É de aplaudir de pé, como na ópera – mas os montevideanos, tranquilos, pacatos, não têm esse costume.

Muito mais belos prédios dos anos 1920 a 1940 que no centro do Rio de Janeiro

Montevidéu é o paraíso dos arquitetos.

É inevitável que essa frase venha à cabeça da gente, porque é um deslumbre caminhar pela cidade, especialmente na área central, no meio de tantos, tantos edifícios lindérrimos dos anos 1920, 1930, 1940.

O Brasil tem 8,5 milhões de km2 – o Uruguai tem, como já foi dito, 176 mil. Em 1920, o Brasil tinha 30,6 milhões habitantes. Em tamanho, o Brasil é umas 48 vezes maior que o Uruguai. Em população, em 1920 era mais de 10 vezes maior que o Uruguai. No entanto, Montevidéu tem mais prédios dos anos 1920 a 1940 do que a então capital federal, o Rio de Janeiro.

É acachapante.

O Palácio Salvo, na foto acima, é o mais espetacular de todos, sem dúvida – porque é belíssimo, muito alto, e também porque está na Plaza de la Independencia, a Praça da Sé deles, o coração, o marco zero, um lugar magnífico, extraordinário. Inaugurado em 1928, com 28 andares, foi por alguns anos o mais alto edifício da América Latina. (Não tenho certeza, mas creio que perderia o posto em 1934, com o final das obras do Martinelli, em São Paulo.)

Há visitas guiadas ao Palácio Salvo, e é um dos passeios mais recomendados aos turistas. Ele é de fato estupendo – mas se você passear devagar pela Avenida 18 de Julio, a principal do Centro, que sai da Plaza de la Independencia, justamente ao lado do Salvo, verá diversas, diversas, diversas outras maravilhas, como o Edifício London-Paris, por exemplo. Assim como do outro lado da praça, mais para o Oeste, rumo a outra praça imponente, a Constituición, a da Matriz, e depois rumo à Ciudad Vieja.

Nesse lado Oeste da Plaza de la Independencia, como se fosse uma continuação da 18 de Julio, há a Calle Sarandi, uma das poucas fechadas ao trânsito, só para pedestres, que vi no Centro. Elegância pura. Me fez lembrar o que era a Barão de Itapetininga quando cheguei a São Paulo, 50 anos atrás – mas ainda mais chique. Ali está, por exemplo, se não a maior, a mais bela livraria da cidade, num prédio art nouveau dos anos 30, o Museo Torres Garcia, um espetáculo (na primeira foto abaixo).

Uma cidade cheia de verde, com amplas avenidas – e prédios baixos

Umas 12 quadras da Avenida 18 de Julio a Leste da Plaza de la Independencia e do Palácio Salvo fica o prédio da Prefeitura de Montevidéu, a Intendencia de la Municipalid. (É obrigatório o registro: as quadras de lá são bem pequenas. E a cidade é quase toda plana, uma delícia para se caminhar.) Informa-se que a construção do edifício sede da Intendencia de la Municipalidad se estendeu de 1936 até 1968, e o projeto é do arquiteto Maurício Cravotto, tido como o pioneiro do urbanismo uruguaio. Não é um prédio que impressiona tanto pela beleza arquitetônica, mas é uma visita absolutamente obrigatória, na minha opinião e na da Mary, porque tem dois elevadores panorâmicos que levam você a um mirante, no 22° andar, de onde é possível observar a cidade em todos os 360 graus. E placas colocadas ao longo do quadrado que é o mirante mostram a localização de algumas das principais atrações – os prédios mais icônicos, o porto, o cemitério central, o Palácio Legislativo, o Clube de Golf, o Farol de Punta Carretas…

A vista, ou melhor, as vistas, são de tirar o fôlego. E é o melhor lugar para se ter uma visão geral de Montevidéu. (O acesso ao Mirante é gratuito – mas ele só funciona das 10 às 15 horas.)

Dali do Mirante Panorâmico você comprova claramente três características marcantes da cidade. Como é arborizada, como tem verde. Claro que isso a gente vê nas ruas mesmo – há trechos em que você anda em ruas cobertas pela copa dos plátanos. Sim, há plátanos na cidade inteira, como se estivéssemos no Canadá.

E como há praças e parques. É impressionante: a gente tropeça em praças – e há grandes parques, como o Rodó, no começo da 21 de Setiembre, uma via comercial importante, que liga a região central ao bairro e à praia de Pocitos. O Rodó me pareceu assim uma espécie de Ibirapuera deles. Estivemos lá no domingo, e é uma festa, com famílias inteiras passeando, brincando, se divertindo, assistindo a apresentações de artistas, performáticos, músicos. Estavam se apresentando lá uma dupla de atores, num espetáculo voltado para as crianças, e, um pouco mais adiante, um pequeno conjunto de jazz.

A segunda característica: como Montevidéu tem grandes vias, vias largas, amplas! A sensação que se tem é de que Montevidéu teve um George-Eugène Haussmann. E de fato há na cidade muitos quês parisienses – os amplos boulevards são apenas o mais visível deles.

A terceira: felizmente para Montevidéu, para os montevideanos e para os visitantes, a legislação municipal, ao longo de todos estes anos, só permitiu a construção de arranha-céus em alguns determinados locais. Ali no Centro, ao longo da Avenida 18 de Julio, da General Juan Antonio Lavalleja e umas outras poucas há prédios de mais de 20 andares. Na Aguada permitiram a construção do complexo da Antel, a estatal de telecomunicações, com um torre bem alta que também tem seu mirante. E em um trecho do bairro de Buceo, depois de Pocitos, há algumas torres gigantescas, inclusive as do World Trade Center de lá. (Gigantescas em termos uruguaios: prédios de uns 30 e poucos andares.)

E é isso.

Em todo o resto da cidade, inclusive nas ramblas, diante das praias, o gabarito é em torno de 10 andares. Não passa disso.

Nas praias de Pocitos, Buceo e Malvín, do outro lado da rambla há prédios de 10 andares!

E aí tudo fica mais belo, mais humano, mais acolhedor, mais aconchegante.

Montevidéu, graças a Deus, é a anti-Camboriú. Que maravilha!

A cidade parece só ter classe média – não se vê miséria, sequer pobreza

Aqui vão, salpicados, jogadas meio ao acaso, sem ordem de importância ou outra qualquer, algumas observações deste turista acidental sobre Montevidéu e os montevideanos:

* A sensação que se tem é que a imensa maioria dos moradores são classe média. Sim, há a classe média mais alta, como indicam as grandes casas do bairro de Carrasco, bem a Leste do Centro, e, mais para longe das praias, há casas mais simples de classe média baixa. Mas os diversos bairros mais centrais indicam que ali vive gente de classe média média para cima.

Não se vê miséria – sequer pobreza. Há alguns sem-teto nas ruas, e também pedintes – mas isso há em todo lugar do mundo, até em Estocolmo. E não são muitos, de forma alguma.

E dá facilmente para perceber que é uma classe média letrada, que, como diria minha mãe, lisou banco de escola. O Uruguai é dos países latino-americanos com melhor colocação nos rankings sobre escolaridade básica. Desde a segunda metade do século XIX a educação básica é obrigatória e gratuita, dever do Estado.

* Não se vêem muitos gordos. Que los hay, los hay, por supuesto, pero no son muchos, no son tan numerosos como acá en Brasil.

* Vêem-se muitas sapatarias, oficinas de consertos de sapatos. Em todos os cantos por onde passamos – e passamos por muitos cantos, não apenas nos locais mais turísticos, mas também por bairros mais para dentro da cidade, distantes das praias – há diversas sapatarias. Muito mais que em São Paulo, por exemplo. Dá para concluir que os montevideanos, nesse aspecto, se parecem muito mais com alemães que com americanos. Não jogam fora objetos que estragam: mandam consertar. Achei esse detalhe muito interessante.

* Esta aqui é de causar espanto aos meus sobrinhos ciclistas-atletas Beto e André e a todos os que seguem direito as normas, os regulamentos: a imensa maioria, a quase totalidade dos ciclistas não usa capacete.

Há sempre dezenas e dezenas de pessoas andando de bicicleta nas ramblas. Nas ramblas há de tudo: ciclistas, skatistas, patinetistas, atletas correndo, não-atletas correndo – além, é claro, de gente caminhando, seja em grupo, em família, a sós, com o/a companheiro/a, com o cachorrinho.

E quase absolutamente todos os ciclistas andam sem capacete. A rigor, só vimos dois sujeitos usando capacetes, mas eles eram obviamente profissas – além do capacete, usavam todos os outros adereços necessários aos ciclistas-atletas.

* São bastante comuns os casais gays. Não notei qualquer tipo de ameaça a gays ou preconceito contra eles.

* Sim, há em Montevidéu uma louca paranóia contra o sal em excesso – ou contra o sal, ponto. Não é assim uma coisa normal – é em excesso. É paranóia. Nos cardápios, há sempre avisos, lembretes, de que o sódio é prejudicial à saúde.

Em apenas um restaurante ou lanchonete foi colocado na mesa um saleiro – o Chez Piñero, em Punta Carretas, um restaurante bem simples, frequentado basicamente por gente do bairro, famílias. Pedimos uma salada, o garçom trouxe um saleiro. Absoluta exceção à regra. Bem que o meu amigo Carlos Marchi havia me advertido: se eu pedisse saleiro, era capaz de ser botado para fora do lugar.

* Fuma-se. Ah, fuma-se muito em Montevidéu. Mas pra cacete. Homens, mulheres, velhos, velhinhos bem velhinhos, gente mais jovem. É mais uma característica de Montevidéu que faz lembrar Paris: fuma-se pra dedéu.

Só não se fuma em locais fechados. Há cartazes contra o fumo – o careta, esse que dá câncer e outras coisas e não dá barato. No apart-hotel em que ficamos há pequenos cartazes indicando “local livre de fumo”.

Mas, ao ar livre, fuma-se, e fuma-se demais.

Até me deu uma certa nostalgia do cigarro, eu que já estou limpo desde que Marina era bebê de menos de 6 meses.

* Quanto àquele outro fumo, o que dá barato, o que o governo Pepe Mujica tornou legal, não procuramos saber como andam as coisas. Não fizemos perguntas sobre a maconha, não tivemos curiosidade de ir conhecer algum lugar que vende, nada. E nada é muito visível na cidade sobre a coisa da liberação. Não é um tema que esteja em pauta, pelo jeito.

Mary, com o olfato afiado que tem, sentiu cheiro de maconha em alguns lugares. Vários, a rigor. Mas nada muito diferente do que acontece com o nariz dela passeando por São Paulo.

* Agora, chimarrão, isso é de fato mania nacional. Uma em cada três pessoas que passa pela rambla, e um grupo em cada dois – lá estão o chimarrão, a garrafa térmica, a tralha toda. É impressionante. Velhos, gente aí pelos 30, 40 anos, e também jovens, bem jovens, gente na faixa dos 20: todo mundo com o chimarrão.

Há grupos que, ao mesmo tempo, tomam cerveja e chimarrão! Ao mesmo tempo, aquela néctar dos deuses, gostoso, saboroso, fresco, refrescante, que vai tornando seus pés mais leves, e aquela, argh, água quente com mate…

Vimos duas jovens senhoras sentadas na amurada da rambla, junto da areia, com uma garrafona de um litro de cerveja, e o chimarrão do lado, conversando na boa, enquanto os filhos das duas – um de cada uma, seguramente – brincavam à vontade.

Como bem diz o Joan Manuel Serrat, cada loco con su tema. Cada qual com sua mania.

* É bem verdade o que diz o título da canção de Serrat, mas há loucos que extrapolam. Em Montevidéu, é proibida a venda de bebida alcoólica nos mercados entre meia-noite e 6 da manhã. Descobrimos a insanidade logo na sexta-feira em que chegamos, já bem tarde da noite. Depois de nos instalarmos no apart-hotel, fomos até a loja de conveniência no posto de gasolina na rambla. Peguei umas latinhas – e o segurança veio avisar que no: entre las doce y las seis no se vende cerveza.

O país que legalizou a venda de maconha proíbe que se venda cerveja!

Tá legal, nos pubs de Londres o last call for alcohol, como diz o Mark Knopfler, é às 11. E tá legal: nos Estados Unidos inteiros na época da Grande Depressão era proibida a venda de álcool da 0h à 0h seguinte.

Como tenho absoluto horror a qualquer tipo de Lei Seca, do mesmo jeito que o Michaleen Flynn de Barry Fitzgerald em Depois do Vendaval (“aquela Lei Seca… Brrrrr….”), fiquei bastante chocado.

Entre as quatro linhas do gramado, eles derrotaram Argentina e Brasil

O futebol é outra mania nacional, como o chimarrão. Claro que toda generalização é falha, mas creio que não é muito errado generalizar que os uruguaios parecem gostar tanto de futebol quanto os brasileiros.

O Estádio Centenário, o Maracanã deles, é um templo, respeitado como a Basílica de São Pedro, a Capela Sistina, a Grande Mesquita de Meca.

A primeira divisão do futebol uruguaio tem 16 clubes – mas, mais ou menos como em Minas e no Rio Grande do Sul, há dois times grandes, tipo Atlético x Cruzeiro e Internacional x Grêmio: o Peñarol e o Nacional. Segundo explicou um garotão motorista de Uber – falante como praticamente todas as pessoas com quem trocamos palavras em Montevidéu –, Peñarol, o time do povão, e Nacional, o da “elite”, são os times de uns 80% da população. Os restantes 20% se dividem entre os demais clubes. Ele mesmo, o garotão, torce pelo que é a terceira força, o Defensor.

Esse rapaz fez muitas perguntas sobre o futebol brasileiro. E mostrou-se muito espantado por saber que o São Paulo não era o clube mais popular sequer do Estado de São Paulo. Falamos um pouco sobre os times brasileiros, e meio que chegamos à conclusão de que o São Paulo é assim tão mais conhecido lá do que Corinthians, Palmeiras e Santos porque tem uma tradição de ter jogadores de outros países latino-americanos. Falei de Pedro Rocha, e o rapaz, embora tão jovem, sabia da fama do conterrâneo que ficou anos no tricolor.

Não é difícil teorizar sobre os motivos pelos quais os uruguaios adoram tanto o futebol e a sua Seleção. Basta lembrar que eles foram campeões do mundo em 1930 derrotando o vizinho gigantesco, a Argentina, e depois foram campeões do mundo em 1950 derrotando o outro vizinho mais gigantesco ainda.

É para ter muito orgulho mesmo.

Nas conversas das pessoas e no noticiário, a preocupação com a segurança

Como no Brasil, como, creio, em qualquer lugar do mundo – à exceção talvez da Groelândia e da Antártida –, a segurança é um tema importante em Montevidéu. Fala-se muito da questão da segurança.

Nos sites sobre turismo que Mary leu antes da viagem (ela lê tudo que existe sobre o lugar que vai visitar, sempre; é impressionante), é dito, de uma maneira geral, que os viajantes não devem ter grandes preocupações com a segurança em Montevidéu. Claro: sugere-se que, como em qualquer lugar do mundo (não se mencionam a Groelândia e a Antártida, provalmente porque o fluxo de turismo para lá não seja muito alto), devem-se tomar algumas precauções básicas para evitar furtos, batedores de carteira, pickpockets. Não andar com muitas jóias, não andar com a bolsa aberta, não ostentar riqueza, esse tipo de coisa.

Alguns sites advertem que, na Cidade Velha, nas proximidades do Mercado, junto do porto, é preferível não caminhar à noite.

Mary e eu não sentimos medo hora nenhuma. Não ficamos apreensivos hora alguma, com medo de eventual assalto ou furto. Caminhamos tarde da noite pelas agradáveis ruas de Punta Carretas e Pocitos, e pelas ramblas, com a maior tranquilidade.

Mas a questão da segurança incomoda muito os próprios montevideanos, como pudemos perceber em conversas com as pessoas e também pelo noticiário. A manchete do El País, o principal dos cinco jornais diários da capital uruguaia, na sexta-feira, 23 de novembro, dizia que chegava a 351 o número de homicídios no país até então este ano, “un récord histórico”.

Para nós, brasileiros, 351 homicídios em quase 11 meses não é absolutamente nada – mas, para um país pequeno como o Uruguai, e que tradicionalmente se orgulhava de ser um dos mais seguros do mundo, é apavorante. Em 2017 haviam sido 268 homicídios – o aumento, assim, foi de fato brutal.
Mas não são tanto os homicídios que preocupam, e sim o aumento da violência de uma maneira geral, em especial o número de assaltos a mão armada a lojas e postos bancários – algo que praticamente não existia, uns 10 anos atrás, e agora vem se tornando comum, segundo ouvimos de mais de uma pessoa. Uma delas, o motorista que nos levou do apart-hotel para o aeroporto – um sujeito de uns 50 anos que se mostrou muitíssimo bem informado –, contou que tem aumentado exponencialmente o número de postos de atendimento bancário explodidos por gangues de assaltantes.

Esse senhor fez a ligação entre o aumento da criminalidade e da violência com a tendência do governo esquerdista da Frente Ampla de não combater de frente a bandidagem, de ser excessivamente tolerante com os fora-da-lei pela questão do respeito aos direitos humanos. “Recentemente obrigaram os policiais a usar balas de borracha – para enfrentar bandidos que usam metralhadora!”, reclamou ele. Parece papo de neguinho reacionário, direitista – mas matérias e artigos que li no El País vão no mesmo diapasão.

2018 é o décimo-quarto ano de governo esquerdista; Tabaré Vásquez governou o país de março de 2005 a 2010, foi sucedido por Pepe Mujica, também do Frente Amplio (é masculino, em espanhol) e reelegeu-se para o mandato que só terminará em março de 2020. Tabaré Vásquez havia sido prefeito de Montevidéu a partir de 1989 – a prefeitura está com a Frente Ampla há 25 anos.

Ouvi gente dizendo que é preciso mudar nas eleições de 2019, que chega de Frente Amplio – mas também ouvi que é difícil bater a união dos partidos de esquerda, já que, com os programas assistencialistas que fidelizam os eleitores mais pobres, eles estão garantindo sua continuidade no poder.

Se tiver ânimo, ainda escrevo uma retranca sobre política.

Baixa natalidade, alta esperança de vida – e um número altíssimo de jovens que emigram

Este texto já este imenso, mas falta ainda um tema importantíssimo: a demografia. O fato de que Montevidéu é a capital do filho único.

É impressionante, é uma coisa forte, que salta aos olhos: praticamente só se vêem nas ruas, nas ramblas, na praia, em todos os cantos, famílias inteiras ou então mães ou pais com um único filho.

Rarissimos são os casos de um homem, uma mulher ou um casal com duas crianças.

Isso seguramente explica – ao menos em parte – o estranho fenômeno de a população do Uruguai praticamente não crescer, ou crescer pouquíssimo.

De 1970 para cá, o Brasil passou dos 90 milhões em ação da música da época do tricampeonato no México para mais de 200 milhões. Em míseros 48 anos, a população do Brasil mais do que dobrou.

Nunca me esqueço de que, quando saí de Belo Horizonte, no início de 1967, a cidade não tinha ainda 1 milhão de habitantes. Hoje são 2,5 milhões.

Enquanto a população do Brasil mais que dobrou nos últimos 48 anos, a do Uruguai passou de 2,5 milhões em 1963 para 3,2 milhões em 2011, ano do último censo, e hoje está estimada em 3,3 milhões. Praticamente não cresceu, praticamente ficou igual!

Eis os números do pequeníssimo crescimento da população uruguaia nos últimos censos:

1963 – 2.595.510

1975 – 2.788.429

1985 – 2.955.241

1996 – 3.137.188

2004 – 3.241.003

2011 – 3.286.314.

A taxa de natalidade é das mais baixas das Américas – 13,50 nascimentos para cada 1.000 habitantes. (A da vizinha Argentina é de 16,64, e a deste despropósito que é o Brasil tem caído e hoje é de 16,10.)

Baixa taxa de natalidade, alta esperança de vida – e um número altíssimo de jovens que emigram. Entre 1970 e 1980, a estimativa é de que até 100 mil uruguaios abandonaram seu país. E nas últimas duas décadas o número de emigrantes chegou a 500 mil.

O Uruguai é o país do filho único – e de velhos. É um dos países latino-americanos com maior percentagem de idosos.

Quinze mil deles lotaram a Antel Arena para ver e ouvir Joan Manoel Serrat, ele mesmo um senhorzinho de 74 anos bem vividos, lépido e fagueiro quanto tantos e tantos senhorzinhos e senhorinhas que vimos andando pra cima e pra baixo nas ramblas, nas ruas.

São tantos os velhos que no Uruguai não há lei que determine a existência de privilégios em filas para os idosos. Fiquei sabendo disso no Aeroporto Internacional de Carrasco, quando tentei entrar numa fila menor para passar pela fiscalização. Uma policial jovem me falou, com voz e forte de otoridade: No Uruguai não há lei para privilegiar idosos. Meti o rabinho entre as pernas e fui para a fila longa.

Gardel, orgulho nacional da Argentina, ou é uruguaio ou é francês

Ih! Faltou o tango.

No Teatro Solís, o Municipal deles, menor que os nossos de São Paulo e Rio, mas elegantérrimo, no estilo Scala de Milão, vimos um show precioso, “La Cumparsita. ¡100 años más uno!“ – a Orquestra de Tango de la Ciudad de Montevideo em vários números instrumentais e em diversos outros acompanhando cantores de tango de diferentes gerações, das bem jovens Samantha Navarro e Valeria Lima ao monumento Olga Delgrossi, com uma voz poderosíssima, firme, emocionante, aos 86 anos de idade.

Todos os seis músicos da orquestra, dirigida pelo jovem pianista Álvaro Hagoplán (dois bandoneonistas, dois violinistas, um contrabaixista, além do maestro), uruguaios. Todos os cantores, uruguaios. Todos os tangos, uruguaios.

Sim: “La Cumparsita”, que fez um século em 2017 – daí o nome do espetáculo, 100 anos mais 1 –, tido como o tango mais difundido no mundo todo, é de autoria de Geraldo Matos Rodriguez (1897-1948), uruguaio de Montevidéu.

Agora, se o tango é invenção uruguaia ou argentina… Claro que não vou entrar nessa fria, nessa gelada. Registro, no entanto, um ponto sobre que não paira dúvida alguma: o tango, assim como o lunfardo – a gíria de um século atrás, que influenciou o português com palavras como otário, bacana, afanar, bronca, fajuto, embromar –, teve imensa influência dos marinheiros que chegavam aos portos dos dois lados do Rio da Prata, os de Buenos Aires e Montevidéu.

Os argentinos jamais vão admitir isso, mas tudo indica que o tango é exatamente como el Rio de La Plata lindo y límpio: ao mesmo tempo argentino e uruguaio.

Já Carlos Gardel…

O freguês pode escolher: o maior cantor de tango da História, um dos maiores orgulhos nacionais da Argentina nasceu na França ou então no Uruguai.

Há quem tenha pesquisado e concluído que nasceu em Toulouse, com o nome de Charles Romuald Gardés. Há quem tenha pesquisado e concluído que nasceu no departamento de Tacuarembó – o mesmo, aliás, da diva Olga Delgrossi.

Dizem que o próprio Gardel, com uma sabedoria de fazer inveja a Benedito Valadares, o prócer do velho PSD mineiro, respondia assim, quando indagado sobre seu local de nascimento: – “Nasci em Buenos Aires, aos dois anos e meio de idade.”

Bacana! O cara não era otário. Embromava tão bem quanto cantava.

E os uruguaios garantem que ele é uruguaio.

Novembro de 2018

2 Comentários para “Montevidéu, pequena pérola”

  1. Servaz, as fotos não ficam atrás da excelência do texto. Gostei do perfil parcial do autor, com bonezinho maneiro de turista descolado…

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