Mas que estão inquietos, lá isso estão

Ouço bando de fogos ao longe, não muito longe. Digo: “Ih, chegou droga boa!” Mary, embora enfiada na produção de seu artigo de domingo, esclarece: “Não, é o carnaval!”

Verdade! São 22h45 da sexta-feira, a primeira escola está para entrar no Sambódromo ali junto da Marginal, perto da Ponte da Casa Verde, e aqui de casa, em Perdizes, a gente ouve os fogos, vai ouvir o baticum.

Os moços estão inquietos.

Não era bem “os moços” que eu queria dizer, citando o Paulinho Nogueira, que usava a frase em cada carnaval.

Paulinho Nogueira trabalhou com a gente na Geral do Jornal da Tarde, ali pelo começo dos anos 80, quando eu era subeditor; ele era copy, ótimo copy. Depois seria por muitos anos editor de Internacional do Estadão. Tinha um excelente humor, e, quando copy da Geral do JT, fazia piadas com o carnaval, tema que nós tínhamos que editar, embora detestássemos tudo aquilo.

Cada vez que surgia o batuque dos tambores, brincava com a frase repetida em tantos filmes pelos colonialistas ingleses na Índia, na África, sempre que os tambores começavam a batucar – sinal de revolta, de perigo.

Então eu estava começando a contar isso em um post no Facebook quando Mary, embora enfiada na produção de seu artigo de domingo, me advertiu: se eu usasse a frase exata que o Paulinho Nogueira usava, eu poderia ser até mesmo processado pelo inafiançável crime de racismo – eu, meu Deus do céu e também da terra, que só queria fazer uma piada, uma blague, uma brincadeirinha.

***

Os moços estão inquietos – e o mundo tá muito chato.

Quem gosta de carnaval não pode mais nem se fantasiar de índio!

Quem não gosta não pode mais nem dizer que os nativos estão inquietos.

Tá muito chato.

9/2/2018, sexta-feira de carnaval.

2 Comentários

  1. Luiz Carlos Toledo
    Postado em 10/02/2018 às 5:26 am | Permalink

    Não pode fazer piadas e nem usar fantasias no Carnaval. Não viu as recomendações do vídeo do Catraca Livre? Nada de sair fantasiado de mulher, Sérgio Vaz. E nem usando fantasias de índio, de cigana, de enfermeira e mais uma lista enorme de brincadeiras que agora são politicamente incorretas. O interessante é que de Batman, pode. Acho que fica liberado só enquanto eles estão pesquisando os efeitos da exploração imperialista da imagem dos morcegos. Se o Catraca fiscalizar o Carnaval de Maceió, vai certamente proibir o Pinto da Madrugada, que é uma sátira do Galo da Madrugada, de Recife. É que as mulheres daqui adoram falar que estão indo para a avenida ver o pinto entrar, esperar a entrada do pinto e outras coisas proibidas de serem descritas neste horário. Imagine as feministas radicais da USP ou da UNB ouvindo uma barbaridade dessas.

  2. maria helena rubinat
    Postado em 10/02/2018 às 10:53 pm | Permalink

    Queriam porque queriam tirar a graça do Carnaval! E conseguiram.

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