Marina já não tloca letla

A um mês do quinto aniversálio, já não palece que algum dia Marina tlocava letlas. Nossa pequena é agora uma ex-Cebolinha.

E fica cada vez mais definido que ela é, afinal, uma canhotinha.

Ainda não dá para afirmar com 100% de certeza, porque em muitos momentos ela se mostra ambidestra. Come com a mão direita, como Mary muito bem repara, sentando ao lado direito dela sempre que ela janta aqui em casa. Ainda usa as duas mãos para desenhar, para pegar nos lápis: às vezes até, nos momentos em que fica mais atenta para não borrar, para não deixar a cor sair dos lugares exatos, usa mais a direita. Para usar a tesoura, ainda utiliza as duas mãos.

Mas é claramente mais firme com a esquerda, na maioria dos movimentos, dos momentos.

Mary fez um raciocínio interessantíssimo: se fosse propriamente educada para tal, Marina poderia perfeitamente ser, ao longo de toda a vida, uma ambidestra. Mas não existe isso no mundo real. Ela vai começar a escrever – e não há como uma escola, mesmo que muito boa, encorajar uma criança a desenvolver a habilidade da escrita com as duas mãos. Há que se fazer uma opção pela mão mais usada, mais hábil. E no caso dela não parece mais haver dúvidas: ela é mesmo canhotinha.

Nossa ex-Cebolinha é uma pequena Garrincha.

Na verdade, ex-pequena. Tem 1 metro e 11, for Christ sake! Faltam apenas 45 para pegar a avó.

Nossa Garrincha é ex-Cebolinha e ex-pequena.

***

Hoje, depois que Marina foi embora com a mãe, e eu e Mary ficamos babando e comentando isso e aquilo sobre a pequena, me ocorreu que, nestas agendas do vô aqui, tenho anotado muito sobre pequenos detalhinhos, mas talvez esteja deixando passar coisas bem importantes. Como essa coisa do erre vibrante, como diz a mãe dela, do fonema erre, que na verdade não é um fonema – são vários fonemas que em Português são representados pela letra erre. O erre de rato, roupa, rei, Roma é um fonema completamente diferente do erre de tora, fora, bora bora.

Mas isso é frescura de quem gosta de língua.

O fato é que não anotei aqui direito como foi que Marina, nos últimos meses, foi passando a falar direito os erres, que antes trocava por éles – todos êles, o de rato e o de faro, e mais o de credo, cruz, acróstico.

Me lembro que de vez em quando pensava até que idade essa coisa da troca de letra é absolutamente normal. E que foi apenas há pouco tempo atrás que o pediatra sugeriu que já estava chegando a hora de procurar um fonoaudiólogo.

Só que não precisou – nas semanas que se seguiram ao conselho do pediatra, a pequena foi acertando por si só a coisa da letra erre, como seria mesmo de se esperar, como acontece com tantas crianças em torno dessa idade.

Pequena maravilha.

Não que seja uma maravilha pequena – é uma maravilha gigantesca, esse pequeno ser. Embora já nem sequer seja um ser pequeno, apenas 45 centímetros mais baixa que a avó.

Faltando um mês para os 5 anos, já não parece que algum dia Marina trocava letras. E não parece haver mais dúvidas de que ela será canhota.

***

Uma coisa que Marina domina deliciosamente faz tempo é o jogo, a brincadeira com os antônimos, os opostos, os antípodas.

Acho isso delicioso – e é fantástico como ela parece de fato se divertir com esse jogo.

Já faz algum tempo, repito. Curte, gosta. Em dias recentes, andou brincando com coisas do tipo Amber (do desenho Princesinha Sofia) é sempre boazinha, Sofia é fresca, Cascão toma banho demais, Cebolinha fala tudo certinho, Magali come muito pouco, Mônica nunca bate nos amiguinhos.

É rápida no gatilho quando brinca desse tipo de coisa.

Hoje, numa brincadeira de escola, nós três colorindo um Olaf, eu perguntei se poderia ficar com os botões do corpo dele. Marina ficou com o corpo, um espaço muito maior para colorir – e ela fazia rabiscos. Já eu caprichei, nos espacinhos pequenos que me cabiam.

Ela disse que eu estava rabiscando.

Falei que não, que estava caprichando muito, que não tinha borrado, que tinha colorido muito direitinho. A vovó – que na hora era a professora – me defendeu, disse que eu estava colorindo muito bem.

Aí ela, esperta pra cacete, saiu-se com a brincadeira do contrário: disse que no reino de Arendelle, onde estávamos, usa-se a palavra rabiscar para o desenho caprichado. E a palavra desenhar para o rabisco.

Danadinha!

***

Adora desenhar – para alegria e orgulho do pai.

E diz com todas as letras que prefere o abstrato. Faz figurativo também – mas prefere o abstrato.

Um exercício no livrinho com que brincamos hoje mostrava metade de um animal colorido, e a outra metade para ser colorida pela criança.

Marina pegou cores bem diferentes daquelas que deveriam ser usadas.

Mary se espantou um pouco. Mas Marina mostrou que sabia muito bem o que era exigido – só que ela queria, para se divertir, fazer diferente.

Sabe o que tem que ser feito – mas prefere fazer diferente. Conhece as regras – mas se diverte em quebrá-las.

Uma iconoclasta, meu Deus! E ainda não tem 5 anos!

***

Mas o que me deixa mesmo feliz feito pinto no lixo é ver como Marina lida com os sentimentos. É uma criaturinha que adora as pessoas ao redor dela – e adora demonstrar o que sente.

Pode haver coisa melhor?

Está cada vez mais declaratória. Grudentinha e declaratória. Gruda na avó, se enrosca na avó. Sempre que pode, na hora de ver DVD pega na mão do vovó e na mão da vovô.

Começou uma fase de enviar mensagem de voz. Com voz sempre alegrinha, feliz da vida, começa com “oi, vovô, oi, vovó!”. E sempre inclui um “tô com saudade” e um “amo vocês”,

Marina não apenas gosta das pessoas – adora dizer que gosta, tem prazer em expressar o que sente.

Ah… Criatura abençoada!

Fevereiro de 2018

Um Trackback

  1. Por 50 Anos de Textos » Marina e a Fortuna (2) em 12/03/2018 às 3:54 pm

    […] Garrincha dribla certo com as pernas tortas, e então, duas semanas depois que gorou minha ida com Marina ao Sesc Pompéia para ver o novo show da Fortuna, ela foi – junto com cinco amigos da […]

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