Marina está grande

Marina está grande mesmo. Tem dado provas disso a cada dia, e deu várias nesta viagem de Dia dos Pais, a terceira consecutiva, essa coisa que  já virou uma tradição, graças à mãe dela.

Uma das provas: pela primeira vez, que eu saiba, esteve num hotel e nem sequer pisou na brinquedoteca de crianças pequenas – aquela que tem piscina de bolinhas, micro-escorrega e coisas do tipo. Mostramos para ela, é claro. Olhou, e demonstrou que não estava nem aí para aquelas criancices.

Outra prova: mesmo em fim de semana, as pessoas ficam ligando para ela do trabalho. E não só do trabalho: de casa também, com demandas disso e daquilo.

Estávamos no parquinho no sábado; ela balançava sozinha, inteiramente sozinha, vovô e vovó ali perto mas já totalmente dispensados da tarefa de empurrar um de um lado, o outro do outro. Mais um sintoma, é claro, de que está grande mesmo. De repente, em algum momento qualquer dos últimos dois meses, creio, Marina, aos cinco anos de idade, passou a prescindir de empurrões para balançar. Aprendeu. Durante meses e meses a gente tentou ensinar: – “Agora, pernas pra frente; agora, pernas pra trás! Prá frente! Pra trás!” A mãe, como ela mesma lembrou, ensinava a mesma coisa com outras palavras: – “Estica! Encolhe! Estica! Encolhe!”

Mais de ano, e nada – continuava precisando da nossa ajuda, do impulso, do empurrão. E lá ficávamos nós, avó e avô, um de um lado, outro do outro, impulsionando, empurrando, felizes da vida porque estávamos proporcionando uma alegria para a pequena. E quanta alegria: uma das grandes paixões de Marina, nos parquinhos todos, de todas as praças e parques a que já fomos com ela, a começar pelo do próprio prédio dela, sempre foi o balanço.

E então de repente ela não precisa mais de vovó empurrando por trás e vovô empurrando pela frente, ou vice-versa. Não precisa mais. Está grande, independente. Sabe fazer sozinha. Bota as pernas para frente na hora de botar as pernas para frente, bota as pernas para trás na hora de botar as pernas para trás, e lá vai ela, pro alto e além, que nem o Buzz Lightyear.

***

E então estávamos no parquinho no sábado, e ela balançava sozinha, quando o telefone tocou.

Era do trabalho.

Parou de balançar, tirou o telefone de dentro do bolso do casaquinho (estava um frio danado em Atibaia neste início de agosto). É um celular já um tanto antigo, daqueles de duas partezinhas, que abre e fecha, presente que ganhou faz tempo da Abuelita e que tem usado cada vez mais.

Conversou com o interlocutor, expressão séria, um tanto preocupada, um tanto incomodada por estar sendo interrompida em pleno fim de semana. Disse isso para o interlocutor, que era fim de semana, que eles dessem um jeito de resolver por eles mesmos.

Depois que desligou, comentou conosco que o pessoal do trabalho é assim, fica ligando para ela, pedindo para ela fazer as coisas.

***

Daí a algum tempo, o telefone tocou de novo. Ela se afastou um pouco de nós, como as pessoas educadas costumam fazer quando toca o celular e elas têm que atender – distanciam-se um pouco do grupo em que estavam, para que a perturbação seja menor.

Encaminhou-se para o navio de madeira que fica ali perto da piscina infantil, que, com aquele frio danado do fim de semana do Dia dos Pais, estava absolutamente deserta. Subiu as escadas, ficou na proa do navio. Xereta, intrometido, invasivo (mas, diacho, ela é minha neta, uai!), me aproximei um pouco do navio, como quem não quer nada, e ouvi um pouco do que ela dizia:

– “Mas, Érolti, eu não estou em São Paulo! Eu estou em Atibaia! E é fim de semana!”

Érolti é o amigo imaginário, na verdade mais que amigo, e mais que imaginário. Tem existência física num grande, muito grande urso danado de simpático. Era Jimi, nome completo Jimi Hendrix, até ser rebatizado por ela de Érolti. O Érolti de carne e osso, perdão pano e pelúcia, é a representação física do Érolti, namorado, marido, pai dos muitos filhinhos e filhinhas dela.

O telefonema do Érolti foi longo, bem mais longo que o do pessoal do trabalho. Ela ouvia durante um tempo, e depois falava, falava, argumentava, reclamava. Foi bem dura com o Érolti, seca, firme. Depois nos contou que o Érolti e a Dona Julieta estavam insistindo para que ela voltasse para casa, para resolver lá um problema tal e tal.

(A Dona Julieta é uma hipopótama, bastante grandona, muito amiga do Érolti. Costumam ficar lado a lado na cama da pequena.)

Depois que contamos essas histórias para pai e mãe, ficamos todos tentando imaginar de onde ela tira essas coisas. Não é muito comum ela ver o pai ou a mãe atenderem a telefonemas, de trabalho ou não…

Mas o celular dela não pára de tocar. Tocou várias vezes, ao longo do sábado, e também no domingo. Uma hora lá, perto do meio-dia do domingo, arrumei um esquema de joguinho de bola (andou demonstrando interesse por bola, futebol), mas ela demorou um pouquinho a entrar no jogo porque estava atendendo a um dos telefonemas.

É uma moça muito requisitada.

***

Ao contrário da mãe, bem ao contrário da mãe, que sempre gostou de trepa-trepa, Marina não costumava chegar perto desse brinquedo. Coisa realmente interessante, porque a mãe gostava de trepa-trepa desde bem pequena. Não sabia subir, mas já curtia andar no meio daqueles quadrados de ferro, pegar naquilo – desde os tempos da João Moura e da Benedito Calixto ali pertinho.

Já Marina nunca tinha sido de curtir trepa-trepa.

Mas agora está grande, e passou a adorar. Eu tinha visto a novidade no início das férias de julho, na Praça da Ginástica, que é como ela chama a Gastão Vidigal, no Jardim Paulista. Sobe com a maior agilidade – e a maior segurança. Com absoluta segurança.

E aqui é necessário lembrar que Marina não é do tipo ousado, corajoso. Não; felizmente, é do tipo um pouco mais para cauteloso, que observa primeiro atentamente antes de se lançar numa coisa desconhecida – qualquer que seja ela.

Se não se aventurava antes no trepa-trepa é porque observava e chegava à conclusão de que ainda não era a hora. Agora que está mais comprida, mais alta, se sente à vontade, e manda ver.

E pula e fica se segurando na barra, e lança os pés para a frente e engancha as pernas na outra barra. E sobe até o topo. Na maior; com a máxima tranquilidade, com segurança total.

Claro, óbvio: todas as crianças são assim. Todas as crianças de 5 anos e 4 meses dominam perfeitamente a arte do trepa-trepa.

Sei disso, uai! Mas as outras crianças não me interessam muito. Quem me interessa é ela, e então é uma maravilha ver como ela está grande e de repente, não mais que de repente, nos últimos dois meses ficou grande e passou a curtir o trepa-trepa.

***

Marina me contesta muitas vezes – e isso não é uma novidade, não é algo que ela desenvolveu só agora que está grande. Faz tempo que ela me contesta. Faz a cara brava, às vezes até lança para a frente, perigosamente, o indicador, e diz: – “Não! Não é assim!”

No sábado, quando ela chegou à última das barras de ferro, a mais alta, bem no meio do trepa-trepa, junto daquela barrinha central que marca o ponto mais alto de toda a estrutura, o ponto culminante da torre, comentei com ela essa coisa do crescimento, de como ela está grande, de como antes ela não tinha aprendido a balançar sozinha e agora sabe na maior, de como antes ela não gostava muito de trepa-trepa e agora ela sobe muito à vontade, na boa, e fica no topo do trepa-trepa.

E aí, lá do alto da barra mais alta, fez a cara mais séria do mundo, não lançou o indicador para a frente porque as duas mãos estavam ocupadas segurando na barra do trepa-trepa, e disse: – “Não! Não é o topo!”

E mostrou o tal toquinho, a torrezinha: – “Ali é o topo!”

Ah, pô, Marina – tentei argumentar. Ninguém senta ali naquela coisa. Você está no topo.

– “Não! Não estou, não!”

Quando Marina entra no modo contesta-vovô, não adianta contestá-la.

Coisa mais delícia.

***

Ainda na sexta à noite, algum tempo depois de chegar ao hotel e nos encontrar (tínhamos chegado um pouquinho antes), sentenciou para a avó: – “Não vou brincar com os tios!”

E de fato não quis saber dos monitores, do pessoal da recreação. Completamente diferente da viagem de Dia dos Pais do ano passado, quando, no hotel de Louveira, adorou os tios, passou muito tempo com eles, almoçava e jantava com eles.

Mas isso aí não tem nada a ver com o fato de estar grande. Não foi por se considerar grande demais para brincar com tios que Marina se recusou a saber dos monitores. Foi porque queria ficar grudadinha em papai, mamãe, vovó. Estava tão grudentinha que sobrou até pro vovô, que dos quatro é aquele em que ela menos gruda.

***

Há um momento, e apenas um, em que Marina se parece com a poupée da música do Michel Polnareff, aquela qui fait non…non…non…non…, / Toute la journée elle fait non…non..non…non…”

É quando tem que parar de brincar. Seja pelo motivo que for: porque tem que comer, porque tem que tomar banho, porque tem que dormir, porque tem que voltar pra São Paulo, porque… Por qualquer coisa.

Quando tem que parar de brincar, Marina, hoje já tão grande, tão independente, faz que nem na canção do Dylan: she breaks down like a little girl.

12 e 13/8/2018

As fotos são da vovó Mary Zaidan.

 

Um Trackback

  1. Por 50 Anos de Textos » Marina em modo Vampirina em 01/11/2018 às 5:35 pm

    […] Marina é uma criaturinha alegre, luminosa – solar, como Paulo dizia de Maria Alice em Todas as Mulheres do Mundo.  Mas a atual paixão cinematográfica dela é Vampirina, uma vampirinha azul que se mudou com seus pais da Transilvânia para a Pensilvânia. […]

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