Havemos de voltar

Antes que o Verão acabe, eis uma lista de coisas que gostava de voltar a ver ou a ouvir:

Maminhas como as dos filmes de Miklós Jancsò.
Maravilhosa, a justificação dele: “Há três coisas que não passam de moda. Primeiro, os uniformes, a seguir a nudez e, enfim, os cavalos. É por isso que os uso tanto. Representam um pouco a eternidade.”

O cinismo na ponta da língua.
A história contou-a Elia Kazan, garantindo que não se passou em The Arrangement, filme que fizeram juntos. Noutras filmagens, Kirk Douglas, já uma estrela, embirrou com um jovem actor. Fizesse o mocinho o que fizesse, era tudo uma boa merda. A equipa já estava toda lixada, para não dizer constrangida, e um veterano director de fotografia passou-se dos carretos: “Kirk, lembro-me de quando começaste. Eras um puto porreiro. Agora estás feito um grande cabrão”. Kirk tinha uma resposta cabra na ponta da língua: “Estás enganado, fui sempre um grande cabrão, só que agora tenho dinheiro que chegue para o mostrar.”

Um título de primeira página que sodomize as fake news.
Havia um clássico francês, Le Jour se Léve, que fazia chorar Giscard d’ Estaing. O presidente convidou realizador e actores a almoçar no Eliseu. À saída, o fabuloso actor Michel Simon, anarquista, despenteado e mal-amanhado, disse aos jornais: “É muito prático este estabelecimento e além disso é central.” Morreu dias depois. O jornal Le Canard Enchainé, libérrimo, satírico e divinamente irresponsável, titulou em primeira página: “Michel Simon morre envenenado no Eliseu.”

O polegar da mão esquerda de Ornella Mutti.
Ah, Mutti, Mutti o que esse teu polegar de A Última Mulher, meio-escondido na tua boca sublime, nos fez sofrer e sonhar, num filme em que, exemplo maior da objectificação e exploração sexual do corpo masculino, Gérard Dépardieu conseguia o prodígio de passar muito mais tempo despido do que tu e em nu frontal.

Dos visionamentos matinais na Cinemateca.
Obrigado Edith Clever, minha Marquise d’O, por teres tão mansamente passado a mão pelos meus saudosos caracóis, no escuro da velha e enterrada sala da Cinemateca. Bem sei que estavam as luzes apagadas e o filme de Syberberg, que projectávamos, era só negrume – vinhas por isso a apalpar e pensaste que foi sem querer, e é essa tua ingénua crença no acaso que mais me comove.

Este artigo foi originalmente publicado no jornal português O Expresso.

manuel.s.phonseca@gmail.com

Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a velha ortografia.

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