Fé cega, faca amolada

Não são poucas e nem recentes as vozes que denunciam a crescente intolerância na disputa política. Mas neste país que insiste em errar muito e quase nada aprender com seus erros, dificilmente a barbárie cometida contra Jair Bolsonaro servirá como freio de arrumação. Ao contrário: os opostos que se digladiam com incivilidade e ódio recarregaram suas baterias.

Nas redes sociais dominam a belicosidade e as acusações sem pé, cabeça e muito menos lógica, incluindo até promessas de revanche feita por fiéis. Fora delas, mais absurdos.

No palanque do Grito dos Excluídos, realizado na Avenida Paulista como contraponto às comemorações oficiais do 7 de Setembro, o candidato a governador pelo PT, Luiz Marinho, levantou dúvidas quanto ao atentado – “não vi sangue”. Nivaldo Orlandi, do PCO, disparou a máxima: “anjinho fascista não merece solidariedade”. A presidente deposta Dilma Rousseff jogou a culpa na vítima, aplicando o popular dilmês ao dito popular – “quando se planta ódio você colhe tempestade”. No dia seguinte, demitiu sua assessora de imprensa por usar raciocínio idêntico.

Na outra ponta, o general Antônio Mourão, candidato a vice de Bolsonaro, antecipou-se às investigações e apontou o culpado: “Eu não acho, eu tenho certeza, o autor do atentado é do PT”.

Tudo a contribuir para acirrar mais os ânimos.

Ainda que os candidatos embolados no miolo das pesquisas eleitorais – Ciro Gomes, Marina Silva e Geraldo Alckmin – tenham se manifestado com velocidade e contundência contra qualquer tipo de violência, suas falas não conseguem ter a efetividade que as mensagens de ira alcançam.

Se quiserem contribuir para baixar a fervura terão de ir além do discurso protocolar. Usar seus preciosos minutos no horário eleitoral em nome da pacificação, agir contra a guerrilha nas redes, desarmar correligionários. O problema é como dosar isso sem abrir flancos para o opositor hospitalizado, cuja turma é eficiente no marketing. A começar pelos filhos, que correram para misturar informes do estado de saúde do pai com slogans de campanha.

Bolsonaro é vítima e qualquer lado que se utiliza do atentado perde a razão. Insere-se em um país no qual facas e tiros fazem parte do cotidiano das pessoas. Em um país recordista em crimes violentos, com  62,5 mil vítimas, segundo o Atlas da Violência 2018. País em que esses números obscenos não envergonham e muito menos provocam as autoridades públicas a combatê-los com seriedade.

A execução sumária de Marielle Franco, ainda não elucidada, foi incapaz de lançar luzes na quase uma centena de prefeitos e vereadores assassinados na última década. A teia de episódios que tirou a vida do prefeito de Santo André, Celso Daniel, e de sete testemunhas do crime acendeu o alarme, mas continua sem solução. Os 79 candidatos mortos em campanha eleitoral entre 2000 e 2016, que só vieram a público em um excelente trabalho da UniRio, não comoveram ninguém.

Resta a torcida para a rápida recuperação do candidato do PSL. E, embora pouco provável em um país que insiste em nada aprender, para que essa faca possa despertar a consciência dos que usam a liberdade intrínseca da democracia para degradá-lá com ódio e fel.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, na Veja, em 9/9/2018. 

 

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