“Do que nós vamos brincar?”

– “Do que nós vamos brincar?”

É um bordão da Marina – mas não é sempre que ela o usa. Há muitos dias em que, ao chegar na minha casa, ela vai até o quarto, olha os brinquedos, escolhe um deles e leva para a sala, onde em geral a gente fica. Também na casa dela acontece isso de ela já saber o que quer fazer.

Não dá, é claro, para ter uma estatística rígida, mas eu diria que é mais ou menos meio a meio: metade das vezes ela sabe o que quer, metade das vezes faz a pergunta.

Nesta terça, quando cheguei à casa dela, no meio da tarde – segundo dia de greve dos professores das escolas particulares em duas semanas –, lançou o bordão:

– “Do que nós vamos brincar?”

Disse que com o brinquedo que o vovô bolou – e aí caiu a ficha: – “Ah, a surpresinha que você falou!”

Sim, eu tinha falado que levaria uma surpresinha.

Um brinquedinho que eu tinha bolado faz já algumas semanas, comecei a produzir hoje e levei para continuar a fazer com ela, na casa dela. Um brinquedinho chamado “Do que nós vamos brincar?”

Eu deveria registrar a patente. A Grow faria um bom joguinho a partir da idéia… A Estrela, que voltou, também.

Pega-se um baralho, um conjunto de cartas de um baralho. Do outro lado das cartas, o lado em que em geral fica o nome da gráfica, ou, nos mais elaborados, desenhos, reproduções de obras de arte… nomes de brincadeiras:

Pega-pega. Esconde-esconde. Dados. Quebra-cabeças. Dominó. Carrinhos. Boneca. Fazendinha. Polly. Memória. Carrinhos.

O escambau. O que for. Whatever.

Com o cuidado de deixar algumas cartas com as costas vazias, de tal forma que cada criança e seus pais preencham com os nomes de brinquedos específicos deles.

No caso específico, único, intransferível de Marina, há as cartas Esconde Amigos e Cartinhas – brincadeiras que a gente adora fazer com ela.

***

Bem…

Mostrei o brinquedo para Marina. O início do brinquedo. O protótipo. A caixinha com o nome do brinquedo, cada letra com uma cor, algumas cartas já com alguns nomes de brinquedos nas costas. Um monte de papeizinhos no tamanho correto para colar nas costas das cartas e acrescentar novos nomes de brinquedos.

Ela olhou – e ficou quieta.

É uma das 20 características dela que mais adoro: ela primeiro observa, assunta, olha, perscruta, verifica, examina, constata – só depois fala, emite opinião.

Acho que perguntei um “E aí, legal?”, de pura ansiedade. Ela continuou observando, pensando, deglutindo.

Com um pouco menos de pressa, comecei a dizer que tinha trazido só algumas cartas já com os nomes de brinquedos, e que a idéia era a gente escrever os nomes de outras brincadeiras em outras cartas.

Continuou observando.

Aí eu falei: – “É só uma brincadeira. Não significa que a gente precisa brincar necessariamente aquela brincadeira que sair na primeira carta. Se você não quiser aquela, não tem problema algum: tira outra carta. E outra, e outra, e outra, até achar uma brincadeira que você queira.”

Acho que foi mais ou menos por aí, nessa altura, que Marina abriu um sorriso e finalmente emitiu a sentença: – “Legal”

Na hora de brincar, Marina não gosta de imposições. Nem feitas pelos pais, nem pelos avós, nem pela vida – nem pela sorte, pela carta que o destino coloca na frente dela. É chegada a um livre arbítrio.

Marina, com toda certeza, não se daria bem numa ditadura, essa coisa que tanta gente briga hoje para que se abata sobre todos nós.

***

Coloquei então sobre a mesinha dela as cartas adrede preparadas já com papel colado no verso para receber nome de brinquedos e/ou brincadeiras. E sugeri que ela poderia escrever algumas e eu outras. Cau sugeriu que ela escrevesse – ao que ela fechou a cara e disse: – “Ah, não!”

Entendo isso com perfeição. É uma das vantagens – e provavelmente também uma das obrigações, se é que existe isso – da condição de avô. Preocupação, grilo, ansiedade, angústia com o início do processo de alfabetização – isso é do pai e da mãe. Quando a criaturinha linda, deliciosa, maravilhosa, doce, suave, que havia na minha vida era a mãe de Marina, tive muita preocupação, grilo, ansiedade, angústia com o início do processo de alfabetização. Já tive minha parte nisso, agora não tenho mais. Agora vejo com a maior tranquilidade os caminhos que Marina percorre com as letras.

A alfabetização formal na escola começará ano que vem, mas Marina já está indo muitíssimo bem nos caminhos dela com as letras – é o que sinto, acho, tenho certeza. Mas, aos 5 anos e 3 meses, sabe com uma perfeição admirável separar o que é trabalho do que é brinquedo. A bisavó que ela não conheceu, minha mãe, que a mãe dela conheceu pouco, usava os termos obrigação e devoção: “Primeiro a obrigação, depois a devoção”.

O vovô estava ali para brincar com ela. Ela havia ficado esperando, com alguma ansiedade, a chegada do avô porque queria brincar.

Escrever, naquele momento, não seria brincadeira – seria trabalho.

E então muito rapidamente falei que claro, Fofinha, o vovô vai escrever os nomes das brincadeiras. Você diz o nome da brincadeira, o vovô escreve. Você pode ir escolhendo os lápis pra gente fazer as palavras bem coloridas.

Dois minutos depois ela estava escrevendo com a letrinha dela alguns dos nomes das brincadeiras. Não sendo obrigação, sendo só brincadeira, então tudo bem escrever…

E, nossa mãe, meu Deus do céu e também da terra, como é gostoso brincar de fazer alguma coisa junto com a criaturinha, em parceria!

Fazemos isso demais em casa, com a vovó. Vovó está viajando, e então fizemos aquela brincadeira de criar um brinquedo juntos – ela fazia algumas letras, eu outras, ela fazia uma carta inteira, eu outra. Fazer junto, em parceria – que maravilha. A criaturinha adora isso. O avô da criaturinha baba de felicidade.

***

Muitas cartas prontas, disse para ela que estava deixando diversas outras para ela continuar fazendo com a mamãe, com o papai, nos próximos dias, quando estivesse a fim.

E aí ela virou as cartas para baixo, quer dizer, para cima, com a face baralho para cima, a face nome das brincadeiras para baixo, e embaralhou, embaralhou, embaralhou.

Mas avisou: queria achar a carta “Polly”.

Eu disse: – “Perfeito. Vai tirando aí, até achar a que você quer.”

E fui separando de lado as que ela tirava e rejeitava.

Foi embaralhando e tirando, embaralhando e tirando – até que finalmente saiu a carta Polly.

Enquanto ela pegava a trouxinha de Polly e levava para a sala, arrumei o jogo “Do que nós vamos brincar?” e deixei bonitinho pra quando a mãe chegasse.

Brinquei de Polly um tempinho – mas, mais tarde, quando a mãe chegou, ela diria que o vovô foi embora antes de brincar de Polly. É uma das 2 ou 3 características de Marina que não são adoráveis: como ela sempre quer brincar mais e mais, se a gente brincou pouco, para ela é como se não tivesse brincado coisa alguma.

Mas, depois que fui embora, e a mamãe chegou do trabalho, ela contou sobre o novo brinquedo que o vovô inventou – e estreou! Tirou a carta Esconde o Amigo, e ela e a mãe brincaram um pouco de esconder o Elmo.

Há pouquíssimas coisas mais bobas no mundo do que os avós.

Há pouquíssimas coisas melhores no mundo que ser avô.

29/5/2018

Um Comentário

  1. maria helena rubinat
    Postado em 08/06/2018 às 9:56 pm | Permalink

    Marina, esse jogo é um baratinho! Gostei muito da ideia.
    Beijo da
    Maria Helena

    Para o avô: Sergio, leu o Papo de Avô do Veríssimo, de ontem? Não achou sensacional? Aqui em casa o The Flash sou eu…
    MH

Um Trackback

  1. […] Marina teve não uma, mas duas experiências inéditas, na semana que passou: aos 5 anos e 2 meses, fez a sua primeira lição de casa e jogou o primeiro jogo de tabuleiro. […]

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