Diz-me agora que não tens medo

A paixão que é o medo! O amor, o amor, pois claro, a cálida perna nua que se roça pela nossa correspondente nudez, a diligência investigacional com que indicador e polegar tacteiam um mamilo, como se fossem crianças de seis anos a brincar às escondidas… o amor, pois claro, mas nada se compara à paixão pelo medo.

Donde vem o fascínio pelo medo, que no cinema desemboca em Dráculas, noivas de Frankenstein, poltergeists, Nosferatu, chuveiro e faca de Psycho, lobisomens londrinos, tubarões de fracturantes mandíbulas, demónios nunca exorcizados?

O horror começou pela boca. Pela boca de mil Homeros que cantaram a matança da guerra; que inventaram Ciclopes para depois incensarem os ardis de Ulisses; que criaram o Minotauro para mostrar que se não formos Teseu, jamais nos incendiaremos de tesão.

O que as bocas humanas cantavam, à volta da fogueira ancestral, era o medo das outras mil bocas em uivos que as cercavam. No escuro paleolítico ardia a vontade de comer dos tigres de Blake, da intratável hiena, do leão que 130 vezes emerge nos versículos da Bíblia. O medo de que esses dentes sanguinários, garras em agulha, viessem rasgar a carne humana era o fundado medo de uma espécie indefesa, sujo corpo exposto de bicho fraco e humilde.

O nosso medo, hoje, é o eco do medo daquela multidão de bocas salivantes de desejo, prontas a estraçalhar-nos, quebrar ossos, decepar-nos uma perna, a limpar-nos – limpinho, limpinho – a jugular. A nossa má-consciência meteu a adorável bicharada no Jardim Zoológico. O deplorável catecismo da boa consciência – pan-pan onde antes era pum-pum – legisla direitos carnavalescos, enfeitando o visceral mundo da bicheza com fitinha éticas e laços natalícios para todos os animais de boa vontade.

Mas é ao fechamos os olhos, nos sonhos primordiais, que a velhíssima memória nos assombra de volta com o monstro: polifemos com seu olho na testa, a pequena cobra peçonhenta, o esmigalhante abraço da boa, do mar o Adamastor e seres bestiais com orelhas do tamanho de uma mula, narizes de quatro ventas, bocas de engolir caravelas.

Eis o alimento da nossa paixão: o medo do que não é nós. Medo homérico, bíblico, alimento de poetas, crianças e mães, que o homem caçador teve de fingir não ter. O medo foi o berço de toda a arte, os filmes de terror um dos seus ninhos.

Este artigo foi originalmente publicado no jornal português O Expresso.

manuel.s.phonseca@gmail.com

Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a velha ortografia.

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