Divisor de águas

A disputa presidencial vai esquentar e será inescapável aos presidenciáveis se posicionar sobre duas grandes questões que tendem a conformar os campos no grande embate nacional. O primeiro deles diz respeito ao modelo a ser seguido para o Brasil alcançar o crescimento sustentado e o segundo se refere ao enfrentamento da iniquidade social.

Subjacente a eles está o debate sobre o papel do Estado, onde também é nítida a existência de concepções antagônicas.

Na economia esse choque se dá entre uma proposta de um modelo de desenvolvimento “autóctone”, pautado no retorno do nacional-estatismo, e um modelo “cosmopolita” centrado na integração competitiva do Brasil na economia internacional.

A grosso modo, no primeiro bloco estão os candidatos da esquerda, além de Jair Bolsonaro, um estatista enrustido.

Os chamados candidatos do centro e Marina Silva, com nuances entre si, constituem o pelotão dos “cosmopolitas”.

Com o malogro do governo de Dilma Rousseff, a esquerda mergulhou nas teses dos anos 50, quando o Estado era visto como o grande indutor do desenvolvimento econômico e o capital externo como uma ameaça à soberania nacional. O pensamento cepalino está de volta e leva os candidatos desse campo a condenar as privatizações e a enxergar o Brasil como uma semicolônia exportadora de bens primários. Para eles o Estado tem o papel estratégico de produtor e financiador.

A corrente oposta entende que no mundo globalizado a única possibilidade de o país saltar para o rol de nações desenvolvidas está na sua integração nas cadeias produtivas globais, por meios de ganhos de produtividade, o que é impossível de ser alcançado por meio de uma economia fechada.

O agronegócio, em vez de ser a expressão de uma relação arcaica, seria uma experiência bem sucedida de integração competitiva nas cadeias globais, assim como o é a Embraer. Nessa realidade, o papel do Estado já não seria mais o dos anos 50, quando teve uma presença ativa na economia.

O segundo divisor de águas é o enfrentamento da disparidade social, que tende a aumentar extraordinariamente com a Quarta Revolução industrial. Candidatos adeptos ao neoliberalismo radical entendem que o mercado, por si só, resolverá a questão da iniquidade. Os mais fundamentalistas chegam a afirmar que o Brasil não é um país desigual, é um país ineficiente.

Nem nos Estados Unidos, a experiência mais bem sucedida de economia de mercado, as coisas aconteceram assim. A desigualdade não será superada por geração espontânea. Não basta dotar a economia de racionalidade, é necessária uma ação forte do Estado no sentido de provedor de condições mais igualitárias. E mesmo em uma economia aberta continuará a ter seu papel, tanto como regulador do mercado, como no estímulo à inovação.

Não estamos diante de um debate acadêmico. A depender do resultado das urnas o Brasil pode dar o salto para um país desenvolvido e socialmente justo. Ou pode perder o bonde da história e perpetuar a iniquidade.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, na Veja, em 20/6/2018.  

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