Carta para uma querida e saudosa amiga

Minha querida Emília,

hoje, lendo as cartas de amor aos livros no Segundo Caderno de O Globo, tive a impressão que você estava encarapitada em meu ombro, tentando ver se eu me lembrava de você, do Visconde, dos meninos, da Dona Benta e da Tia Nastácia, e de nossas viagens a bordo do pó de pirlimpimpim.

Imagine se eu ia me esquecer de vocês! Núncaris, em boa linguagem emiliana.

Esquecer de você era esquecer de meu amor por viagens, e das viagens que fiz por esse mundo tão rico em maravilhas.

Esquecer da Dona Benta e seus serões era esquecer da curiosidade pela História do mundo. Era esquecer o prazer que tive ao me dedicar a saber de outros povos e seus países.

Ao ter minha curiosidade despertada, me dei conta do valor de saber outras línguas, para melhor conviver com seus livros.

E aí fui parar num mundo que me deixou apaixonada: a Casa Crashley, bela livraria aqui no centro do Rio, infelizmente desaparecida, onde comprei meu primeiro livro em inglês, uma excelente aventura de Hercule Poirot. Desse livro passei às obras completas de Agatha Christie e travei conhecimento com a deliciosa Miss Marple. Saber inglês, nessa ocasião, foi vital. Há boas traduções em português, algumas até ótimas, mas vamos ser sinceros: Miss Marple, só em inglês!

Depois dessa paixão por histórias de detetives, veio o amor pelos romances quando li, pela primeira vez de uma séria de muitas, Little Women. Ali, na contracapa, ainda numa letra muito redondinha, anotei meu nome e a data da leitura: janeiro, 1952.

De Louisa May Alcott passei para Jane Austen, e desde então, minha paixão pela literatura nunca mais esmoreceu.

Dessa época em diante, passei a ser uma apaixonada pelo cheiro das livrarias e pelo imenso prazer de percorrer suas estantes e “descobrir” o livro que iria me sequestrar.

Cresci imersa em livros. E retribuí ensinando meu filho a amar livrarias e hoje posso dizer, feliz: ele compartilha com a mãe o amor aos livros e às livrarias. Minha casa tem muitos, muitos livros, inclusive, muito bem guardados, os primeiros que li.

Nas viagens que fiz, sempre procurei saber quais as melhores livrarias do pedaço e meu termômetro de excelente, ótima, boa ou regular cidade depende da livraria que lá encontrei.

E não me venham, por favor, com livros online. Livros têm alma e coração, é preciso segurá-los nas mãos, sentir sua mensagem. É preciso amá-los e cuidar para que nunca as cidades percam seu melhor programa, suas livrarias.

Como disse um dos maiores gênios do século XX, Jorge Luis Borges: “O livro é a grande memória dos séculos… se os livros desaparecessem, desapareceria a história e, seguramente, o homem”.

Por tudo isso, Emília a quem devo tanto, um beijo com a saudade da

Maria Helena.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, na Veja, em 30/11/2018. 

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