Bolsonaro e PT, faces da mesma moeda

Os opostos se atraem. Os opostos são paralelas que se encontram bem mais perto de nós e bem mais longe do infinito do que se ensina nas aulas de Matemática. Os dois candidatos que estão à frente nas pesquisas e que – se não houver uma grande mudança nos próximos poucos dias – deverão ir para o segundo turno representam as duas faces da mesma moeda.

Como a esta altura até as pedras da rua do menor município nordestino já sabem, Jair Bolsonaro, ao longo dos seus 27 anos de mandatos na Câmara, sempre votou junto com o lulo-petismo. É a favor do Estado grande, que tudo e a todos deve prover. É contra controle de gastos do governo, responsabilidade fiscal, exatamente como o PT. Sempre foi contra privatização – até encontrar seu príncipe encantado, o Posto Ipiranga.

Exatamente como os próceres do lulo-petismo, Bolsonaro oculta bens milionários, conforme está se revelando agora, nesta fase final da campanha de primeiro turno.

Mais do que isso, muito mais do que isso: têm o autoritarismo no DNA.

O bolsonarismo é isso que está aí à vista de todos: a defesa do golpe militar, a apologia do regime forte, do assassinato de gente, da tortura. O bolsonarismo é abertamente autoritário – tão autoritário quanto o lulo-petismo. Exatamente como. Igualinho que nem.

São idênticos. São irmãos siameses: falam em democracia, mas têm profundo desprezo por ela. Adoram um centralismo, uma ordem unida, uma voz de comando que cala todo o resto.

Há, é claro, pequeninas diferenças.

A única diferença importante entre o bolsonarismo e o lulo-petismo é que o primeiro fala muito sobre seus princípios claramente antidemocráticos. Alardeia o culto às ditaduras, aos militares, dá vivas ao nojo pela igualdade de direitos. O bolsonarismo ladra demais.

O lulo-petismo executa. Faz. Opera. Põe em prática. Realiza.

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Algumas poucas das frases de Bolsonaro – suas ladradas, seus latidos, suas relinchadas – foram reunidas por Zuenir Ventura em artigo publicado em O Globo da quarta-feira, 26/9:

* “Eu sou favorável à ditadura, tu sabe disso (1991, na TV). O erro da ditadura foi torturar e não matar” (2016, na TV);

* “Deveriam ter sido fuzilados uns 30 mil corruptos, a começar pelo presidente FHC” (1999, na TV);

* “A PM devia ter matado 1.000, e não 111 presos” (sobre o Massacre de Carandiru);

* “Não vou combater nem discriminar, mas, se vir dois homens se beijando na rua, vou bater” (2002);

* “Não te estupro porque não merece” (para a deputada Maria do Rosário, na Câmara). “Ela é muito ruim, muito feia, não faz o meu gênero”;

* “O afrodescendente mais leve lá (no Quilombolo de Eldorado Paulista) pesava sete arrobas. Não fazia nada. Nem para procriar ele serve mais” (2017, no Clube Hebraica do Rio);

* “Foram quatro homens (filhos), a quinta eu dei uma fraquejada e veio mulher” (no mesmo lugar);

* “Eu não empregaria [mulheres e homens] com o mesmo salário” (na RedeTV!, em 2016).

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O capitão faz barulho demais, ladra, relincha. Já o PT executa.

Tem feito um duro, pesado, cerrado trabalho contra as instituições – o Legislativo, o Judiciário, a imprensa.

Chama de “golpe” um impeachment discutido amplamente e decidido pelo Senado Federal, sob a chefia do então presidente do STF, Ricardo Lewandowski – aliás, um petista autêntico, roxo, amigo pessoal de Lula e de sua família, sempre disposto a votar de acordo com os interesses do partido que o levou ao Supremo.

Chama de perseguição o julgamento dos crimes atribuídos ao proprietário do partido – e, como ele foi condenado por um juiz, depois por um colegiado de Tribunal de segunda instância, e continua preso apesar de ter entrado com 17 recursos em todas as diversas instâncias do Judiciário, clama ao mundo que o Judiciário brasileiro é injusto.

Isso assim mesmo tendo indicado 7 dos 11 ministros do Supremo Tribunal Federal. 7 dos 11!

Chama o Legislativo de golpista, o Judiciário de injusto. E sai mundo afora atacando a democracia brasileira, tentando atrair a atenção das esquerdas do Primeiro Mundo, ainda iludidas com o mito do presidente metalúrgico do Terceiro Mundo.

Se isso não for desacato às instituições, ataque à democracia, então vai ver que a Terra é plana, a Lei da Gravidade deve ser revogada e o Criacionismo é a única forma plausível de explicar a origem da vida.

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Desde que surgiu, o lulo-petismo jamais conseguiu esconder sua veia autoritária. Faz uns 30 anos que o PT se insurge contra essa coisa desagradabilíssima para os autoritários que é esse negócio da liberdade de imprensa. Tenta daqui, tenta dali, propõe, discute o tal do “controle social da mídia” – eufemismo para censura pura e simples.

(Sim, essa é uma das tais pequenas diferenças entre o bolsonarismo e o lulo-petismo: este último gosta de eufemismos. Novilíngua. Os bolsonaristas não têm medo das palavras: dizem às claras o que desejam dizer.)

Apesar de todo o esforço, os lulo-petistas não conseguiram implantar o “controle social da mídia” nos 13 anos, 4 meses e 12 dias em que estiveram no poder. Várias vozes do PT já foram ouvidas queixando-se de que desperdiçaram a oportunidade. O partido não pretende desperdiçar a próxima. Da próxima vez, ah, eles não serão tão cuidadosos, tão cheios de dedos, de se postar de joelhos diante da democracia burguesa.

Mas o fato é que, como não há censura ainda – vamos ver como vai ser se o Poste 2 ganhar a eleição –, a imprensa de vez em quando enumera os diversos aspectos da luta do lulo-petismo contra as instituições.

Na terça-feira, 25/9, em sua coluna em O Globo, Merval Pereira fez um bom apanhado do histórico antidemocrático do lulo-petismo:

“Não há dúvida de que Bolsonaro não cabe no figurino de democrata, mas é preciso ter muita boa-vontade para querer dizer que há diferenças de fundo entre os dois, pois o PT seria do ‘campo democrático’. Não. Uns defendem a ditadura de direita, outros defendem as ditaduras de esquerda.  Por que seriam democratas os que defendem regimes ditatoriais, alguns sangrentos, como os de Cuba, Venezuela e Nicarágua? E o que dizer das tentativas de usar a democracia para impor um regime autoritário, como fez o PT no governo?

“A utilização de estatais para desviar dinheiro e comprar apoio no Congresso – e encher o bolso de vários de seus dirigentes – foi o mais duro golpe já desfechado, em caráter institucional, contra a democracia brasileira.

“Foram várias também as propostas com o objetivo do ‘controle social da mídia’, todas derrotadas graças à reação da sociedade e do Congresso, mas a intenção era só uma: censurar a imprensa que não segue sua cartilha, como fazem as ditaduras. E o tema continua na pauta petista, basta ler o programa.

“Aliás, Bolsonaro alega que não houve ditadura militar, pois o Congresso funcionava na maior parte do período, o Judiciário também. A mesma coisa que alegavam Chavez, e agora Maduro, na Venezuela.

“São várias as lamentações públicas de líderes petistas de que o maior erro quando estavam no poder foi não terem tentado cassar a autonomia constitucional do Ministério Público e a funcional da Polícia Federal.

“Quando se queixam dos votos dos ministros do STF escolhidos por Lula e Dilma, alguns até ex-filiados ao PT, deixam claro que os nomearam esperando um tratamento companheiro. Jacques Wagner, que poderia ter sido o ‘poste’ de Lula se não preferisse se garantir na eleição fácil ao Senado pela Bahia, aparece em um vídeo lamentando que tenham chegado ao poder não por uma revolução, mas pelo voto, pois têm que seguir as regras ‘deles’, isto é, dos democratas.

“Já escrevi aqui que o PT ‘paz e amor’ de 2002 foi uma opção circunstancial para chegar ao poder. Os prefeitos do PT já usavam os mesmos métodos para distorcer a democracia. Como Antonio Palocci, quando prefeito em Ribeirão Preto, que falsificava licitações para facilitar as propinas.  Ou Celso Daniel, em Santo André, ou Toninho do PT em Campinas, que acabaram assassinados por disputas políticas envolvendo corrupção.

“Tanto Bolsonaro quanto o PT usam a palavra golpe para fazer política. Bolsonaro diz que as eleições podem ser fraudadas na urna eletrônica. Já o PT diz que eleição sem Lula é golpe, e voltará a fazê-lo se perder a eleição. No momento, deixa o tema de lado porque acredita que o ‘poste’ Haddad pode chegar ao segundo turno e derrotar Bolsonaro.  Assim como não aceita as decisões da Justiça na condenação de Lula, tentando desqualifica-las inclusive internacionalmente, o PT retomará a tese do golpe se perder a eleição.”

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Diante de argumentos como estes de Merval Pereira, diante de coisas como a enumeração dos ataques do lulo-petismo às instituições democráticas, há a velha ladainha: ah, são mentiras da mídia golpista, neo-liberal, capacho do imperialismo ianque (sim, ainda há gente que use essa expressão, imperialismo ianque).

Está no DNA: se é contra o PT, é neo-liberal, é inimigo, é golpista, é fascista.

É o DNA autoritário – igualzinho ao dos bolsonaristas.

Aqui vai mais um belo texto que demonstra, por a mais b, por 2 mais 2, que o lulo-petismo vem atacando as instituições democráticas – e não é de hoje.

É o principal editorial de O Estado de S. Paulo desta sexta-feira, 28/9.

O título do editorial é “A higienização petista!”:

“O ex-presidente Lula da Silva disse diversas vezes que ‘sempre’ aceitou o resultado das várias eleições que perdeu. ‘Quando perdi, nunca fui para rua reclamar. Voltava para casa e discutia com minha mulher e com meu partido. Depois, me preparei para disputar uma nova eleição’, declarou em 2016 o demiurgo petista, repetindo pela enésima vez essa fábula na expectativa de enganar os inocentes. Pois Lula e o PT nunca aceitaram o resultado das eleições presidenciais que perderam e jamais enxergaram legitimidade nos presidentes aos quais faziam oposição – basta lembrar que o partido pediu o impeachment de Fernando Collor, de Itamar Franco e de Fernando Henrique, além de liderar uma campanha pela destituição do presidente Michel Temer.

“Essa reiterada demonstração do espírito antidemocrático do PT e de Lula precisa ser relembrada no momento em que está em curso uma tentativa de higienizar a trajetória flagrantemente autoritária do partido e de seu líder para, com isso, marcar diferença em relação ao candidato Jair Bolsonaro (PSL). Segundo essa versão imaginosa, somente o truculento ex-capitão representaria uma ameaça real à democracia, enquanto o PT, malgrado seus eventuais arroubos, sempre se pautou pelas ‘regras do jogo’.

“Provas disso, segue a lenda, seriam não somente a alegada disposição de Lula da Silva de aceitar os resultados das eleições que perdeu, como também o suposto comportamento exemplar do partido quando esteve no poder. Segundo se diz, o PT passou 14 anos no poder sem ameaçar a ordem institucional e a Constituição, razão pela qual não haveria nenhum motivo para temer uma ruptura se o lulo-petismo voltar ao governo.

“Já com Bolsonaro, sustenta essa narrativa, a história é bem outra. O ex-capitão já elogiou o regime militar e os torturadores de presos políticos, além de ter em sua chapa, como vice, um general que admite publicamente a hipótese de que o presidente da República dê um ‘autogolpe’ se houver ‘anarquia’. Isso bastaria para demonstrar que o País estaria à beira de uma ditadura militar caso Bolsonaro venha a ganhar a eleição, enquanto com o PT esse risco não existiria.

“Ora, não é preciso grande esforço para atestar a falácia de tal versão. Ameaças à democracia não se dão somente sob a forma de golpes militares clássicos, como o que Bolsonaro é acusado de estar tramando. É possível arruinar a democracia por meio de sua desmoralização paulatina e constante, como faz o PT sistematicamente há mais de três décadas.

“O PT nunca admitiu contestação à sua ideologia. Impôs-se pela arrogância, patrulhando o pensamento e instaurando aquilo que John Stuart Mill, em seu clássico Sobre a Liberdade, chamou de ‘tirania da opinião e dos sentimentos dominantes’. Para isso, estendeu seus tentáculos sindicais e militantes às universidades e ao mundo artístico, atrelando o debate acadêmico e cultural à doutrina lulo-petista. Quando esteve a ponto de ser destruído em razão dos muitos esquemas de corrupção que capitaneou – esquemas que, aliás, são também uma forma de minar a democracia -, o PT renasceu capturando a causa dos chamados movimentos identitários – de luta por reconhecimento de diversas minorias – e a transformou em arma partidária para dividir ainda mais o País. O PT viceja na discórdia radical e insuperável, inviabilizando o debate democrático.

“Ademais, o partido não titubeou em fazer campanha sórdida, inclusive internacional, contra o Judiciário, o Congresso e a imprensa, classificando magistrados, parlamentares e veículos de comunicação como ‘golpistas’ – todos, é claro, mancomunados para perseguir o PT. Não bastasse corroer a democracia por dentro, envenenando as relações entre os cidadãos e atacando as instituições, o PT ainda foi capaz de emprestar entusiasmado apoio a ditaduras como a de Cuba e a da Venezuela, sinalizando perigoso apreço por regimes de força tão ou mais violentos que a ditadura militar brasileira, a qual os petistas vivem denunciando.

“A ameaça de Bolsonaro se restringe, por ora, a palavras toscas – e isso é muito ruim. Tão ruim quanto o PT, que já pôde demonstrar, na prática e extensivamente, seu espírito antidemocrático.”

28/9/2018

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