Assim não, general!

O general Eduardo Villas Boas, comandante do Exército, muito tem contribuído para as Forças Armadas ficarem adstritas às suas funções constitucionais. Em diversos momentos foi a voz do bom senso para apagar incêndios nos quartéis que poderiam se alastrar em ações que no passado causaram tantos danos ao país.

Há dois meses, deu provas de seu espírito conciliador em ato de homenagem ao soldado Mário Kozel Filho, assassinado em um atentado ao quartel do II Exército, em 1968. Lamentou esse episódio com a mesma ênfase com que lamentou a morte do jornalista Vladimir Herzog, nas dependências do DOI-CODI, em 1976. Foi a primeira autoridade militar a não assinar embaixo da versão segundo a qual Herzog se suicidou nos porões do regime militar.

Ainda estão frescas suas palavras recomendando aos brasileiros e às instituições “prudência nos ânimos e união dos esforços (…) para evitar que futuras gerações não venham a passar o que ocorreu há 50 anos”.

Por seu comportamento firme e sereno, Villas Boas se destacou como a grande liderança militar do pós-democratização do país, granjeando o respeito de seus pares e a simpatia da sociedade. Não é pouca coisa para quem exerce o comando em condições físicas precárias, em decorrência de uma grave doença degenerativa.

Por todo esse peso, preocupam as declarações que deu ao jornal O Estado de S. Paulo do último domingo, totalmente distoantes de sua trajetória.  O comandante do Exército adicionou nitroglicerina em um ambiente já radicalizado ao colocar em dúvida a legitimidade do próximo presidente, seja ele quem for. Saindo do seu comedimento habitual, invadiu áreas de competência do Justiça, fazendo juízo de valor sobre a inegebilidade de Lula.

Não são assuntos castrenses. Assim não, general! A legitimidade do futuro governo será dada pelas urnas e quem decide a aplicabilidade da Lei da Ficha Limpa são as instâncias judiciárias.

O despropósito de suas palavras alimentam velhos fantasmas, sobretudo quando a elas se soma o belicismo verborrágico de outro militar, o general Hamilton Mourão, mandado para a reserva por indisciplina.

Mourão, vice-presidente da chapa de Jair Bolsonaro, é useiro e vezeiro em declarações que levantam a hipótese de um intervenção militar. Na última, disse que o futuro presidente pode dar um autogolpe, com o apoio das tropas.

Essas nuvens turvas vieram às vésperas do trigésimo aniversário da Constituição de 1988, cujo maior legado é a existência do mais longo período de democracia no Brasil, desde o advento da República. Graças à nossa Carta Magna, os militares se reconciliaram com a nação e suas instituições são admiradas pelos brasileiros. Convém, pois, preservar esse acervo, no interesse da Pátria e das próprias Forças Armadas.

Ao general Eduardo Villas Boas, recomenda-se que volte a ser o soldado absoluto  que sempre foi e, como tal, prestou relevantes  serviços ao país e à corporação castrense.

A política é própria da esfera civil.

Todas as vezes em que foi invadida pelo estamento militar o Brasil saiu perdendo.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, na Veja, em 12/6/2018. 

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