A um mês do incêndio no Museu Nacional

Assisti anteontem, com muita atenção, ao debate dos candidatos a governador do Estado do Rio de Janeiro transmitido pela Rede Globo . Programas de governo, além do “vou fazer isso ou aquilo” sem detalhar como o fariam, não eram mais importantes do que os xingamentos face a face. Um verdadeiro espetáculo…

Mas não desisti até a apresentadora encerrar o debate pois esperava, ansiosa, que um deles, de qualquer partido, mencionasse seu programa para a Cultura do Estado. Esperei à toa. Ninguém falou em Cultura e… mais espantoso… ninguém mencionou a destruição do maior tesouro do Estado do Rio, o incêndio do Museu Nacional, e o que fariam para que nunca mais tivéssemos outra tragédia como aquela.

Infelizmente, não temos mais um Dom Pedro II. Pelo visto, a Cultura não importa mais para a cidade.

Ando sobretudo preocupada com duas jóias que temos no centro do Rio. A Biblioteca Nacional e o Real Gabinete Português de Leitura. Espero que depois do que aconteceu na Quinta da Boa Vista providências tenham sido tomadas para que, ao primeiro sinal de fumaça, todos os alarmes do mundo disparem e que o fogo nunca se espalhe por esses dois outros guardiões de nossa Cultura.

Tenho conversado com muita gente, de várias idades, sobre a destruição do Museu Nacional. Sabia que pessoas da minha idade, de todos os quadrantes da cidade, tiveram, quando criança, a felicidade de visitar o museu, levadas pelos pais ou por sua escola. Os da terceira idade e os sessentões não me surpreenderam com sua emoção ao falar do Museu. Surpresa fiquei e muito, ao ver que nestes tempos de videogames, as crianças cujos pais puderam levá-las à Quinta tenham falado com lágrimas nos olhos sobre o que viram no Museu e que sabem foi destruído. E todas têm sempre a mesma pergunta: quem vai colecionar outra vez tantas coisas bonitas ou interessantes ou ‘apavorantes’, que é como uma menininha se referiu às salas dos besouros e das cobras?

A filha de um amigo de meu filho, de seis anos, chorou copiosamente ao ver o incêndio pela TV. Foi dormir muito triste. Matheus, de oito anos, um sobrinho-neto muito querido, ficou infeliz e só quer saber quando teremos outro museu assim aqui no Rio. Ao lhe ser sugerido que fosse ao Museu do Amanhã, respondeu: no amanhã estou, quero poder ver o que já passou, os dinossauros, as múmias.

Ficou sem resposta.

E a depender do que ouvi no debate entre os candidatos a governador do Rio, acho que Matheus ficará sem resposta.

A minha pergunta: será que algum dia saberemos o que ocasionou um incêndio tão devastador?

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, na Veja, em 5/10/2018. 

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