A ímpar sala de cinema

Era fim de tarde e uma guerrilheira lufada de Inverno feriu a primaveril Feira do Livro. Ia dizer olá ao João Lopes, camarada da remota aventura da Cinemateca. Ele apresentava um livro – Cinema e Históri – e arrastava a debate, outros dois companheiros, o João Adelino Faria e o Nuno Artur Silva.

A conversa foi de inteligência calorosa, amiga e amena. Nasceu um consenso: cinema e televisão já se fundem nos processos de produção, financiamento, argumento, mesmo difusão. Que bom termos hoje acesso instantâneo a qualquer Bergman, em tablet que seja.

A acenar que sim, subi o Parque e o vento guerrilheiro lembrou-me a ímpar sala de cinema. Onde é que vi o beijo lírico de James Dean a Natalie Wood, no Rebel Without a Cause, os dois encostados ao escuro cósmico de um planetário? Onde vi a mulher do irmão de Ethan, em The Searchers, acariciar o capote militar do cunhado, olhar afundado no passado? Vi o Rebel no ecrã popular e interminável do cinema Império, em Luanda, e vi John Wayne na grandeza aristocrática do Auditório 1 da Gulbenkian. Em salas de cinema, a flutuar num escuro uterino.

Essa experiência é irrepetível em smartphone, tablet ou televisor. A narrativa, a compreensão dos requebros de realização, a contemplação do rasgo dos actores, estão nas pequenas telas: vemos, ouvimos e conhecemo-las. Mas o que não está nos encolhidos ecrãs quotidianos é a experiência física, sensorial e psíquica, que o escuro da sala de cinema e a sua solidão nos oferecem. A sala é a mãe do estremecimento íntimo, do espanto gutural, que se vertem em prazer e angústia.

Do que falo é do choque emocional que é sermos espectadores em posição fetal e tombarem sobre nós rostos, corpos, acções do tamanho de deuses. Do que falo é dos close-ups dos mais belos olhos e bocas que humanos já viram, a vazarem luz e tantas sombras nessa nossa alma peregrina, que não sabe já se reza, chora, canta ou ri. Fetos noutras cadeiras, estão outros espectadores, e apodera-se da sala uma pasmosa tensão, um impudor pantagruélico. O cinema é, então, real, maior até do que a vida: experiência de maturação emocional tão forte como os melhores traumas ou as mais breves alegrias das nossas pobres ou ricas existências.

Agradeço a três amigos terem-me feito pensar. Agora, vou ler o livro do João. Em papel.

Este artigo foi originalmente publicado no jornal português O Expresso.

manuel.s.phonseca@gmail.com

Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a velha ortografia.

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