A fantasia em fuga

Deixem-me ir buscar a mulher nua de 1897. Filmou-a George Méliès, o francês que, com riso e aventura, salvou o cinema dos vetustos irmãos Lumière, que lhe apertavam o gasganete com as garras da realidade.

A mulher nua de Méliès regressa do baile. Ajuda-a a tirar a roupa a criada nova – que talvez, quem sabe, tenha vindo a ser a criada velha do “Menino de Sua Mãe”, desse Fernando Pessoa que nunca viu a mulher nua.

A mulher tira o vestido, três corpetes e um avental, as eróticas meias negras. Entra na banheira só de combinação, que tomba mal ela fica de costas, oferecendo-nos a visão do seu posterior, protegido da devassa penetrante da câmara por uns discretos collants cor de carne. Futura mulher de Méliès, a actriz é Jehanne d’Alcy e bem podia ter sido modelo de Degas, Renoir ou Monet.

A história do cinema é a história da mulher nua, a que se soma ou assoma o insistente rabo de Michael Douglas, os jovens dos filmes de Pasolini, os recentes nus frontais de Michael Fassbender e de Viggo Mortensen ou, murcho no tempo, o de Richard Gere.

O cinema, como mais nenhuma arte, é uma arte do corpo. O corpo dos actores mergulha no rio fluído que é o filme e encontra, nessa líquida emulsão, o Verão do seu contentamento.

Estão a ouvir o eco de um riso antiquíssimo? É o riso de Greta Garbo. No fim do cinema mudo propuseram-lhe fazer um melodrama tropical. Chamaram-lhe Wild Orchids, mas Garbo azucrinou a cabeçorra do patrão, Louis B. Mayer, para que fosse, como o romance original, Heat. Cio, portanto. Ria-se desbragada e pensar nos anúncios: “Greta Garbo em Cio.” O puritano Mayer, esse sim, o único judaico-cristão da História da humanidade, não deixou.

E, hoje, nesta alvorada do neopuritanismo, ainda se poderá filmar a mulher nua? Chegará ao cinema, a surda raiva vigilante que veio abaixo assinadamente pedir ao Met Museum que retirasse o quadro da menina de cuequinhas de Balthus ou que censurou, numa galeria de arte em Manchester, a belíssima tela do argonauta Hilas com as maminhas das Náiades entre nenúfares? Teremos de tapar com nenúfares a Bardot de Le Mépris, a torturada Rossellini de Blue Velvet, a Nicole Kidman de Eyes Wide Shut? O olhar masculino do pintor refugiou-se, dizem-me, na abstracção. Para onde fugirá, velada, a fantasia do cineasta?

Este artigo foi originalmente publicado no jornal português O Expresso.

manuel.s.phonseca@gmail.com

Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a velha ortografia.

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