A cruz perpétua

Na mão psiquiatricamente perturbada de Arthur Herman Bremen brilhou o ponto trinta e oito, o mais mítico dos revólveres, e quatro tiros no ventre condenaram o senador George Wallace a paralisia perpétua da cintura para baixo. Em 1972, a mando da desordem mental da mão de Arthur Bremmer, o seu dedo indicador no gatilho inaugurou, sem o saber, uma valsa a três tempos que punha a dançar arte e realidade.

A primeira volta de valsa durou quatro anos. Em 1974, a realidade de Bremer transfigurou-se num filme, Taxi Driver, e foi contaminar a mão patológica de Travis Bickle. A Travis deu-lhe Robert De Niro corpo, alma, coração, e à falta de outra coisa em ão, em vez do lendário .38 da realidade, pôs-lhe na mão o negrume de Caravaggio da letal .44 Magnum.

Tivesse a arte na mão o que tivesse, saiba-se que esta arte, em dança lenta ou dança convulsa, tinha uma já indisfarçável úlcera. A heróica figura masculina, herdada da estatuária clássica e renascentista, robusta, musculada, marmórea, esse ostentatório David, de Miguel Ângelo, adoeceu. Nos anos 50, dois rapazes, um de compleição física mais graciosa e murmurante, outro mais vigoroso e sonoro, James Dean e Marlon Brando, espetaram no homem com uma ou duas doses de vulnerabilidade, dando-lhe a doçura intragável de um abade de Priscos.

O encontro no mesmo corpo de Travis e de De Niro prossegue a linha do Dean de Rebel Without a Cause e do Brando de A Streetcar Named Desire, mas noutro ponto da espiral. Já não há, para a representação do masculino, redenção possível. Ao homem, espera-o, de braços abertos, a cruz eterna da nevrose e de um radical pessimismo.

Sete anos depois, em 1981, a personagem de De Niro sai dessa cruz e a valsa regressa à realidade, quando a mão esquizofrénica de John Hinckley, Jr. dispara o Röhm RG-14 calibre 22, um só tiro no peito de Ronald Reagan, os outros em seguranças e um secretário. Igual a obsessão pela pureza da mulher, Hincley continuou na vida a devoção por Jodie Foster com que, em Taxi Driver, já De Niro lhe rezava.

Todos sabemos, ensinou-nos Leonard Cohen, que a dançar, dança-se até ao fim do mundo. Os explosivos agora mandados para o restaurante e para casa de De Niro, “this waltz, this waltz, this waltz”, são o passo de valsa com que as garras da realidade nos cobrem de luto e morte.

Este artigo foi originalmente publicado no jornal português O Expresso.

manuel.s.phonseca@gmail.com

Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a velha ortografia.

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