A bomba atómica

Talvez explodisse a uma fulgurantíssima terça-feira. Ou a um domingo, apanhando a família a comer caranguejos, na casinha colonial que tínhamos em pleno musseque Sambizanga. Estava para explodir a bomba atómica que apagaria da face da terra a afrodisíaca insatisfação da humanidade.

A bomba atómica foi-me apresentada em 1959, mal comecei a ler. A apocalíptica bomba vadiava nos jornais, mesmo na revistinha Missões e Missionários, que por caridade e devoção a minha mãe assinava. Do porto de Luanda, traficado num barco conradiano, o meu pai trazia-me esse baluarte americano que era o Reader’s Digest. Nele aprendi a soletrar atomic bomb, antes do exagero optimista de qualquer good morning.

Todos sabemos que a bomba atómica foi inventada por Hitchcock. Havia uma cave repleta de urânio numa improvável casa do Rio de Janeiro, insidioso pretexto hitchcockiano para meter Ingrid Bergman na cama de quem ela não amava, de resto a única forma que Hitchcock supunha ser a de meter uma mulher na cama. O filme, Notorious, revelou o segredo da bomba atómica e urdiu o beijo na boca de dois minutos e meio.

Um código de mau hálito proibia no cinema beijos com mais de três segundos. A proibição excitou o anafado espírito de contradição de Hitchcock e eis que ele inventa o longuíssimo beijo pré-adúltero, pondo Cary Grant e Ingrid Bergman a colarem e descolarem as bocas a cada três segundos, num erotismo delicado e sôfrego, servido, sem cortes, em plano sequência. São os mais humedecidos e sussurrados dois minutos e meio da história do cinema.

E não é de sussurros, mas de um épico estrondo que quero falar. Claude Rains é um nazi filho da mãe, casa à força com a democrática beleza de Ingrid Bergman e tem garrafas de urânio escondidas ao pé de báquicos Premier Cru de Bourgogne. Foi antes da fatídica Hiroshima que o filme começou a ser preparado e ninguém sabia o que era esse pó de urânio, a não ser o então omnisciente FBI. Hitchcock esteve para ser preso e, fosse ou não pela mão dos nazis amigos do Claude Rains de Notorious, o urânio chegou à impenetrável Cortina de Ferro.

A bomba trouxe um medo absoluto de fim do mundo a um mundo dividido ao meio. Traria depois o riso absoluto de outro filme, Dr. Strangelove. Felicidade atómica: nada é mais inspirador do que o medo e o riso.

Este artigo foi originalmente publicado no semanário português O Expresso.

manuel.s.phonseca@gmail.com

Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia.

Notorious no Brasil é Interlúdio.

 

Postar um Comentário

O seu email nunca é publicado ou compartilhado. Os campos obrigatórios estão marcados com um *

*
*