Uma bala entre os olhos

O actor Lee van Cleef, em O Bom, o Mau e o Vilão, era senhor do seu tempo e das suas palavras. A lentidão dele enervava o público italiano e o seu silêncio exasperava-o. Nas plateias de Roma, durante a projecção, gritava-se: “Stronzo, estás à espera de quê para falares?”

Os filmes de Sergio Leone eram gémeos de Lee van Cleef: senhores do seu tempo, silêncios e espaço. Antecipando a geringonça de António Costa, o cinema de Leone juntou o toque operático de Visconti, a melancolia existencial de Antonioni, o humor pícaro de Fellini, a epopeia de cartão dos filmes mitológicos de Cottafavi e mesmo o terror macabro de Mario Bava.

Leone elevou um género sórdido, o western spaghetti, ao estatuto de clássico, copiando a John Ford a utilização do espaço. Nos westerns de Leone há sempre comboios, pontes, sinos. E há também moscas, cemitérios, caixões, uma girândola de cruzes. A violência com que arrancava surdos roncos de satisfação aos espectadores era a conclusão lógica do seu grande tema, a vingança.

Às vezes, como em Ford, uma amizade viril amenizava a secura da narrativa, embora Leone ache que há diferenças: “Ford era um optimista, eu sou um pessimista. As personagens de Ford abrem uma janela e olham sempre para o fundo, para um horizonte cheio de esperança; as minhas, quando abrem a janela, têm sempre medo de levar com uma bala entre os olhos.”

Leone morreu, em 1989, antes de concretizar um grande sonho, um filme sobre o cerco de Leninegrado. Com Robert De Niro, Os 900 Dias de Leninegrado seria a história de amor de um jornalista americano e de uma russa, durante o cerco nazi. Nos tempos de leite e mel do comunismo, os obstáculos foram insuperáveis. “Sabe, senhor Leone — explicaram-lhe os imperiais soviéticos —, é impensável que um americano vá para a cama com uma jovem russa. O que seria possível é que um jovem russo fosse para a cama com uma rapariga americana.” Tema e termos que Trump e Putin estão prestes a retomar.

Com a perestroika, diga-se, veio a milagrosa autorização de Gorbachev. De Niro já estava pronto a meter-se na cama da jovem russa a arder de militância, que Leone imaginara. Mas houve um comissário político de Deus que não gostou ou achou a ideia boa demais, intimando Leone a levar para o Céu o consenso heróico e erótico que ele sonhara para a Terra.

Este artigo foi originalmente publicado no semanário português O Expresso.

manuel.s.phonseca@gmail.com

Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia

No Brasil, O Bom, o Mau e o Vilão é Três Homens em Conflito.

Um Comentário

  1. Luiz Carlos Toledo
    Postado em 14/02/2017 às 4:48 am | Permalink

    Trump com certeza está ansioso para exercer esse papel da rapariga americana, desde que o parceiro seja o viril ditadorzinho russo. Apaixonado pelo autoritarismo de Putin, o topetudo nutre um tremendo sentimento de inveja. Sabe que, com excessão da retórica agressiva, o estilo do seu ídolo é impossível de ser praticado na democracia dos EUA. Mesmo assim, no setor do governo em que dispõe de maior autonomia, a política externa, Trump parece bem animado com a possibilidade de estabelecer relações quase carnais com o russo. Para seduzi-lo, não hesita em oferecer belos presentes, como o passe livre para a tomada de territórios da Ucrânia e outros vizinhos indefesos.Já avisou até que, se necessário for, inviabiliza a OTAN. É um pesadelo.

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