Um rosto pré-Big-Bang

Olhem para a cara de pedra de Buster Keaton. Pode parecer uma cara irresoluta. Ou de uma inexpressiva perplexidade.

Hoje, a idade a roubar-me massa muscular às pernas, que embora curtas já chegaram a ser bonitas, sei e tenho a certeza do que digo: há uma ideia firme no rosto pré-Big-Bang de Buster Keaton. É o rosto de quem não quer ser mais importante do que o mundo em redor. A cara que ri ou a cara que chora irradiam alegria e tristeza iluminando ou escurecendo o mundo, coisas ou pessoas. Não rindo, não chorando, a cara de pedra de Keaton recusa-se a explicar, influenciar ou interferir no movimento, sentimento ou ideia da cara do mundo.

Vêem-se as mais geniais cenas de filmes geniais, como Steamboat Bill Jr. ou Seven Chances, e a aparente inexpressividade de Keaton obriga o espectador a procurar o sentido, a comicidade alegre ou sofrida, na totalidade da cena, na sua irrepreensível geometria ou na massa apocalíptica em que o mundo dessa cena se transforma.

Nestes anos que me põem à porta da terceira-idade, a solidão inexpressiva de Keaton tem sido uma lição mais útil e inteligível do que a leitura do tão lógico e místico filósofo que é Wittgenstein. Keaton ensina-nos que o mundo organiza o seu sentido sem precisar da nossa explicação ou mesmo da nossa acção. Melhor, ele não ensina, ele aponta, como escreveu esse tal Wittgenstein, sem nunca ter visto, que se saiba, um filme dele.

Keaton é um anti-revolucionário: confia no mundo que existe e no mundo que há-de existir. Não precisa nem quer, por isso, mudá-lo. A confiança dele no Ser e no Devir começou, sabe-se, aos três anos. Os pais meteram-no no número de vaudeville que faziam. Keaton desenvolveu um talento: caía sem se magoar. Buster, o seu nome, queria então dizer trambolhão, e parece que foi o mágico Houdini que lho deu. Nos espectáculos, os pais atiravam-no escada abaixo, vinha a polícia acusá-los de abuso e exploração de trabalho infantil e o miúdo não tinha ossos partidos, nem sequer nódoas negras, tal a confiança com que o corpo dele ia bater nas arestas e obstáculos do mundo.

Fazem-nos falta mais trambolhões. Só temos de aprender a cair. Estaremos no caminho certo quando disserem: “Olha para este desgraçado. Ai, meu Deus!” Era o que Keaton queria que os espectadores dissessem das cenas dele.

Este artigo foi originalmente publicado no semanário português O Expresso.

manuel.s.phonseca@gmail.com

Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia.

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