“Retratos da Inês”, com a letra da minha mãe

Minha mãe foi normalista, tinha uma letra perfeita, imaculada como a Virgem que adorava.

Uma das descobertas mais fantásticas que fiz nestes últimos dias em que me vi, malgré moi, como uma espécie de Indiana Jones ciscando na areia do Saara atrás de preciosidades do passado, foi um exemplar da revista Capricho de 29 de abril de 1981 em que a caligrafia perfeita de normalista da minha mãe dizia na capa: “Retratos da Inês”.

Me lembrava, é claro, de que Inês posou para fotos de moda da Capricho naquela época – e são lindas, lindas as fotos. Fernanda também foi fotografada por profissional da Editora Abril – era um tempo em que Regina editava uma das seções da revista, depois de ter saído do Jornal da Tarde onde nos conhecemos, eu subeditor de Reportagem Geral, ela copydesk, recém-chegada do seu Rio de Janeiro natal. Mas não me lembrava de ter guardado o exemplar da revista que pertenceu à minha mãe – nem que ela tinha anotado na capa que a filha da segunda mulher do filho dela estrelava fotos, ou melhor, “retratos”.

Fotografei as fotos da Capricho e postei no Facebook, e, lá daquela nação civilizada e gelada do Norte em que vive, Inês me agradeceu: disse ter achado que tinha perdido aquelas fotos para sempre. (Bobinha: não foi só minha mãe que guardou um exemplar da revista. Cynthia, a irmã dela, também guardou – algo que ficamos todos sabendo porque Cynthia comentou no meu post.)

O Facebook tem 267 mil coisas ruins – mas essa coisa de a gente poder falar de imediato com pessoas caríssimas a nós que estão longe demais, como posso com Inês na Baviera, ou com minha sobrinha Valeria na Califórnia, é uma absoluta maravilha.

***

Nessa mexida nas areias do passado, revi uma página do Jornal da Tarde que foi motivo de grave crise entre Regina e eu.

Bem: tudo era razão de grave crise entre Regina e eu. E as meninas evidentemente não se lembram de nada disso: as meninas são muito mais espertas e inteligentes que os adultos.

Não me lembrava disso agora, é claro, mas por algum motivo 1979 foi declarado ano das crianças. E então, ao publicar um balanço sobre o ano, tive a idéia de botar, no alto da página do JT, um porrilhão de fotos de crianças. Peguei algumas fotos do Arquivo, mas pedi a todo mundo da redação que me desse fotos de seus filhos. Fiz o título jogando com a grande quantidade de crianças da foto. Botei uma foto da Fernanda abrindo a sequência, e outra fechando, e uma foto da Inês junto da última da Fernanda.

Tudo funcionou muito bem. Ficou uma bela página.

Regina brigou comigo durante semanas porque pus uma foto só da Inês e duas da Fernanda.

Vendo a página hoje, descoberta depois de eras soterrada pelas areias do tempo, dou toda razão a Regina: por que raios uma foto só da Inês e duas da Fernanda?

11 e 13/12/2016

2 Trackbacks

  1. […] forma algum, um texto para lamentações. Muito contrário. É mais um capítulo das aventuras de Indiana Jones e o Reino dos Suportes Físicos – as minhas descobertas de coisas esquecidas, ou quase, na selva da papelada do apartamento, que […]

  2. […] Para ler o capítulo seguinte. […]

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