“Pior é não tentar acertar”

As manifestações deste 26/3 – acho que dá para dizer isso com total segurança – foram um absoluto, um total, um rotundo fracasso. É o que dirão, certamente, todos os analistas, nos jornais de amanhã (começo este texto ainda no domingo, 26). Com razão.

Foi, como um dos sites dos grandes jornais já deu, a manifestação que menos gente conseguiu juntar, entre todas as realizadas a partir de 2015.

Sei disso, sinto isso, porque fui literalmente a todas as manifestações contra a corrupção, a roubalheira, o desgoverno Dilma Rousseff, o PT. Estive em cada uma delas. Jamais faltei.

Esta de 26/3 foi a que teve menos gente – e a que mais me deixou incomodado, me sentindo fora de lugar.

Como Mary resumiu com a capacidade incrível de síntese que tem, “era para ser um protesto contra a corrupção e a impunidade, pelo fim do privilégio de fórum, em favor da Lava-Jato. Não foi assim.”

Parecia que tinha mais gente pedindo “intervenção constitucional” (eufemismo nojento para golpe militar), que tinha mais gente pedindo que as pessoas tivessem o direito de se encher de armas em casa, do que cidadãos de bem exigindo decência, honestidade, respeito à Operação Lava Jato – o que havia sido o chamamento original para as manifestações.

Tinha até um adesivo sendo distribuído a rodo que criticava as reformas de Temer.

De volta à minha casa, tive que ver, no Facebook, gente dizendo que a pauta da manifestação era aquela mesma – não ao estatuto do desarmamento, e tal e coisa.

Tipo assim: a pauta da manifestação era mesmo fascista e quem foi lá é porque é mesmo um direitista idiota e sem noção.

Dio mio.

***

Vi também, pelo Facebook, gente que estufava o peito de felicidade porque as manifestações fracassaram.

Triste país em que há gente que estufa o peito de felicidade porque as manifestações contra a corrupção foram um fracasso.

Triste, tristíssimo país em que há pessoas que torcem para que as manifestações contra a corrupção sejam um fracasso.

E no entanto, no movimento em contrário…

Carmo Chagas, jornalista brilhante, pessoa maravilhosa, escreve abaixo de post meu no Facebook:

“Na minha vida já pisei em falso muitas vezes. O negócio é reequilibrar e tocar adiante. Pior é não tentar acertar.”

A frase de Carmo salva o dia.

26 e 27/3/2017

4 Comentários

  1. Rafael Noronha
    Postado em 27/03/2017 às 1:05 pm | Permalink

    Ótimo texto, Sérgio!

    Infelizmente não pude ir pq tive que trabalhar esse fds!

    Concordo totalmente com sua ultima colocação, triste o país em que há pessoas que comemoram o fracasso de uma manifestação contra a corrupção.

    Abraço!

  2. MILTINHO
    Postado em 27/03/2017 às 1:22 pm | Permalink

    “Na minha vida já pisei em falso muitas vezes. O negócio é reequilibrar e tocar adiante. Pior é não tentar acertar.”

    A verdade aos poucos aparecem, a história continua sendo escrita com derrotas. Todas as conquistas são pequeninos saldos da lutas que parecem definitivamente perdidas.

    Politica é isto meu caro Vaz, não desista da camisa amarela e da panela. como diz minha esperança: VAMOS CAMINHAR VOVÔ!

  3. VAMOS CAMINHAR VOVO
    Postado em 27/03/2017 às 1:25 pm | Permalink

    …mas não pise em falso.

  4. MILTINHO
    Postado em 27/03/2017 às 2:08 pm | Permalink

    A MP 759 extingue os critérios que asseguram o interesse social. A medida rompe com regimes jurídicos de acesso à terra, de regularização fundiária de assentamentos urbanos – tais como ocupações e favelas -, altera as regras de venda de terras e imóveis da União e da Política Nacional de Reforma Agrária.

    Com a MP 759, a regularização fundiária, um direito conquistado ao longo de anos de luta de movimentos e organizações sociais, torna-se um pretexto para concentração de terras e para a anistia de condomínios irregulares de alto padrão, que inclusive podem estar situados em áreas de preservação.

    Em situações de conflitos de terra, sejam rurais ou urbanos, assentamentos organizados ficam impedidos de defender-se a partir do princípio da função social da propriedade; das disposições das Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS); com base no usucapião; ou com base na desapropriação do artigo 1.228, §4º do Código Civil.

    “intervenção constitucional” (eufemismo nojento para golpe militar) Sergio Vaz

    As manifestações numerosas em cidades e em quantidade de manifestantes tinham o fim da corrupção como tema e o não a MP 759, só que as camisas eram vermelhas e as panelas vazias.

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