Para reacender a alma de Santo Agostinho

Parece que foi ele que matou ou mandou matar o Super-Homem. Já estou a falar de Eddie Mannix, que é a mesma coisa que agarrar um gato pelo rabo só para o assanhar.

Era uma vez uma mansão, talvez uma casa de meninas, nas colinas de Hollywood. Visitou-a o realizador Garson Kanin, levado por um amigo, que lhe ia apresentar Barbara Stanwyck. Entraram. Era um bordel, perdão, serralho das mil e uma noites e recebeu-os Mae West. Logo depois chegou Stanwyck. Kanin estremecia de prazer: elas vestiam-se, falavam, andavam e tinham cara e corpo de West e Stanwyck e não eram Mae West, nem Barbara Stanwyck. O ambiente, concupiscência, caviar e champanhe, reacenderiam a excitação na alma de um Santo Agostinho. Era tudo recortado por uma iluminação de director de fotografia, adereços e guarda-roupa que pareciam de filme. Eram de filme: os vestidos, plumas e paetês tinham vindo dos estúdios da celestial MGM.

Kanin ficou com essa Barbara Stanwyck, apesar de ver passar uma Marlene Dietrich, uma Joan Crawford, uma Ginger Rogers. A Mae West, que dirigia a casa, lamentou não ter uma Greta Garbo, nem uma Katharine Hepburn, por razões a que me escuso, por não ser de aprofundar o que não quer ser aprofundado. As que tinham faziam tudo, quis saber um jornalista, e estou certo que nos entendemos sobre o âmbito do “tudo” abelhudo do jornalista. “Todas fazem tudo – explicou Mae West – menos a Janet Gaynor, que é tão ou mais virginal e ingénua do que a original.”

Quando filmou com Carole Lombard, Kanin tentou seduzi-la de todas as maneiras, mas ela estava amarrada a Clark Gable e ria-se gentilmente dele. Kanin foi à mansão e passou a noite com a outra Carole Lombard. Contou tudo, de tudo, à original, no dia seguinte e Lombard delirou: “Com essa é que me mataste. Tenho de contar ao meu Clark Gable… Oh meu Deus, não, não conto. Se ele sabe, vai para lá a correr como um relâmpago.” E ria-se, soltando o foguetório de fucks em que era pródiga.

Quem viu L.A. Confidential cheirou essa mansão e logo viu que, se a casa era de meninas, de meninos é que não era aquele negócio. Os meninos desse negócio, Eddie Mannix e Howard Strickling, não eram o Super-Homem, embora Mannix lhe tenha servido a kriptonite. Do negócio e da morte antinietzschiana do Super-Homem, permitam-me, falo para a semana.

Este artigo foi originalmente publicado no semanário português O Expresso.

manuel.s.phonseca@gmail.com

Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia.

Na foto do alto, Carole Lombard, a verdadeira. Na foto acima, a Lana Turner de L.A. Confidential.

Um Trackback

  1. […] espírito poético levou-o, diz-se, a criar o Mae’s, o bordel que visitámos na crónica anterior, com as imitações das mais etéreas actrizes dos golden years. Era a fantasia de quem, passe a […]

Postar um Comentário

O seu email nunca é publicado ou compartilhado. Os campos obrigatórios estão marcados com um *

*
*