O dique do Rio Sena

A onda nacional-populista que ameaçava se espraiar pelo velho continente com a força de um tsunami encontrou seu dique de contenção às margens do Rio Sena. A vitória consagradora de Emmanuel Macron afasta, por pelo menos cinco anos, o fantasma de o extremismo xenófobo e racista levar a Europa a ingressar nas trevas de uma nova idade média.

A idéia de uma Europa una, aberta à livre circulação das pessoas e das mercadorias, na qual os países membros dirimem seus conflitos pela via pacífica, ganhou fôlego com o resultado do segundo turno da eleição francesa.

Na verdade, a barreira de contenção começou a ser construída em março na Holanda, quando, contrariando prognósticos, a extrema direita teve desempenho bem aquém do projetado por analistas e institutos de pesquisas.

Ali a Europa optou pelo centro e teve início o refluxo da maré isolacionista inaugurada com a vitória do Brexit na Grã-Bretanha.

Em setembro será a vez da Alemanha, mas em ambiente bem mais confortável. A extrema-direita não tem a menor chance e a disputa se dará entre dois eurocêntricos: a chanceler Ângela Merkel, da União Democrática Cristã e o socialdemocrata Martin Schultz, ex-presidente do parlamento europeu. E a favorita é Ângela Merkel.

No mesmo domingo da eleição de Macron, ela conseguiu expressiva vitória nas eleições regionais do norte da Alemanha.  Pesquisas já apontam uma frente de oito pontos em favor de Merkel.  A oito meses da eleição, a vantagem pode desaparecer, claro, mas   parece que a “schulzmania” embalada pela posição do candidato do SPD nas questões sociais chegou ao seu limite.

A derrota de Marine Le Pen dá fôlego para as forças civilizatórias encontrarem soluções para as mazelas da globalização. Foram essas mazelas que levaram a antiga classe operária excluída da globalização a votar nos dois extremos, no primeiro turno: Marine e Ménchelon.

A vitória do candidato do En Marche abre espaço para a agenda xenófoba e racista ceder lugar à verdadeira agenda do 21, onde a repartição mais equitativa da riqueza gerada pela globalização é a pedra de toque para o dique não estourar mais adiante.

Sem isso, as desigualdades sociais e regionais, o desemprego, as migrações desordenadas, as crises humanitárias se ampliarão, sobretudo se for levado em conta as tendências para os próximos vinte anos, onde o avanço da inteligência artificial e da robótica levará ao desaparecimento de 47% dos empregos tradicionais.

Positivamente, começa a haver uma tomada de consciência sobre a necessidade de se responder à agenda do XXI. O próprio Macron é expressão de uma inflexão da Terceira Via que desaguou em governos de centro-direita, para hoje se apresentar como de centro-esquerda.

O centro hegemônico da Europa, baseado a partir de agora na dobradinha MM – Merkel Macron –, tende a desempenhar papel estabilizador e progressista. Essa dupla terá de se entender sobre a reforma da União Européia, com vistas torná-la mais flexível.

Internamente, o novo presidente da França terá o desafio de promover as reformas necessárias para a retomada do crescimento, condição necessária para a incorporação dos excluídos no mundo do trabalho e na economia moderna, e, ao mesmo tempo, atender à demanda social com a qual manifestou compromisso durante a campanha.

Não é uma tarefa fácil. O orçamento público da França corresponde a 56% do seu PIB. Diminuir para 52%, implica em reformas que provocam resistências em qualquer lugar no planeta. E é nesse ambiente que Macron vai enfrentar as eleições legislativas de junho.

Um primeiro feito ele já conseguiu. Seu partido apresentará candidatos nas 577 circunscrições eleitorais. Mas isso só não basta. Será preciso conquistar maioria. Do contrário, terá de fazer um governo de coabitação. Mas com quem? Com os republicanos de Fillon? Com os socialistas dizimados pelas urnas?

Com maioria parlamentar ou com governo de coabitação, Macron estará sob fogo cerrado de sua principal oponente, que saiu robustecida pelo voto de um terço dos franceses. A extrema esquerda de Ménchelon também não lhe dará trégua.

Sim, Mélenchon pode ser a dinamite de Le Pen para explodir o dique do Rio Sena, em 2022.

Não há precedente histórico de a extrema direita pavimentar o caminho da esquerda, mas são vários os exemplos no sentido contrário A ascensão de Hitler no início dos anos 30 está aí para nos lembrar do perigo da junção dos dois extremos.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 10/5/2017. 

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