Mestre Antonio Candido

Em 1975, o ano em que nasceu minha filha, Antonio Candido escreveu:

“Adoniran Barbosa é um grande compositor e poeta popular, expressivo como poucos, mas não é Adoniran nem Barbosa, e sim João Rubinato, que adotou o nome de um amigo funcionário do Correio e o sobrenome de um compositor admirado. A idéia foi excelente, porque um artista inventa antes de mais nada a sua própria personalidade; e porque, ao fazer isto, ele exprimiu a realidade tão paulista do italiano recoberto pela terra e do brasileiro das raízes européias. Adoniran Barbosa é um paulista de cerne que exprime a sua terra com a força da imaginação alimentada pelas heranças necessárias de fora.”

E depois:

“Já tenho lido que ele usa uma língua misturada de italiano e português. Não concordo. Da mistura, que é o sal da nossa terra, Adoniran colheu a flor e produziu uma obra radicalmente brasileira, em que as melhores cadências do samba e da canção, alimentadas inclusive pelo terreno fértil das Escolas, se alia com naturalidade às deformações normais de português brasileiro, onde Ernesto vira Arnesto, em cuja casa nós fumo e não encontremo ninguém, exatamente como por todo esse país. Em São Paulo, hoje, o italiano está na filigrana.

“A fidelidade à música e à fala do povo permitiram a Adoniran exprimir a sua Cidade de modo completo e perfeito. São Paulo muda muito, e ninguém é capaz de dizer aonde irá. Mas a cidade que nossa geração conheceu (Adoniran é de 1910) foi a que se sobrepôs à velha cidadezinha caipira, entre 1900 e 1950; e que desde então vem cedendo lugar a uma outra, transformada em vasta aglomeração de gente vinda de toda parte. A nossa cidade, que substituiu a São Paulo estudantil e provinciana, foi a dos mestres-de-obra italianos e portugueses, dos arquitetos de inspiração neo-clássica, floral e neo-colonial, em camadas sucessivas. São Paulo dos palacetes franco-libaneses do Ipiranga, das vilas uniformes do Brás, das casas meio francesas de Higienópolis, da salada da Avenida Paulista. São Paulo da 25 de março dos sírios, da Caetano Pinto dos espanhóis, das Rapaziadas do Brás, na qual se apurou um novo modo cantante de falar português, como língua geral na convergência dos dialetos peninsulares e do baixo-contínuo vernáculo. Esta cidade que está acabando, que já acabou com a garoa, os bondes, o trem da Cantareira, o Triângulo, as Cantinas do Bexiga, Adoniran não a deixará acabar, porque graças a ele ela ficará, misturada vivamente com a nova mas, como o quarto do poeta, também “intacta, boiando no ar.”

“A sua poesia e a sua música são ao mesmo tempo brasileiras em geral e paulistanas em particular. Sobretudo quando entram (quase sempre discretamente) as indicações de lugar, para nos porem no Alto da Mooca, na Casa Verde, na Avenida São João, na 23 de Maio, no Brás genérico, no recente metrô, no antes remoto Jaçanã. Quando não há esta indicação, a lembrança de outras composições, a atmosfera lírica cheia de espaço que é a de Adoniran, nos fazem sentir por onde se perdeu Inês ou onde o desastrado Papai Noel da chaminé estreita foi comprar Bala Mistura: nalgum lugar de São Paulo. Sem falar que o único poema em italiano deste disco nos põe no seu âmago, sem necessidade de localização.

“Com os seus firmes 65 anos de magro, Adoniran é o homem da São Paulo entre as duas guerras, se prolongando na que surgiu como jibóia fuliginosa dos vales e morros para devorá-la. Lírico e sarcástico, malicioso e logo emocionado, com o encanto insinuante da sua anti-voz rouca, o chapeuzinho de aba quebrada sobre a permanência do laço de borboleta dos outros tempos, ele é a voz da Cidade. Talvez a borboleta seja mágica; talvez seja a mariposa que senta no prato das lâmpadas e se transforma na carne noturna das mulheres perdidas. Talvez João Rubinato não exista, porque quem existe é o mágico Adoniran Barbosa, vindo dos carreadores de café para inventar no plano da arte a permanência da sua cidade e depois fugir, com ela e conosco, para a terra da poesia, ao apito fantasmal do trenzinho perdido da Cantareira.”

***

Esse texto de Antonio Candido ocupava toda a contracapa do segundo álbum que Adoniran lançou, naquele ano de 1975, quando já estava com 65 anos de idade. O primeiro havia sido lançado um ano antes, 1974.

Deve ter sido de J. C. Botozeli, o Pelão, o produtor dos dois primeiros discos de Adoniran, a idéia de convidar o mais distinto, respeitado, reverenciado crítico literário do Brasil para escrever na contracapa do disco do poeta que brincava de falar errado, “nóis vortemo”, e era o único artista capaz de cantar versos como “que pena, Pafunça, que a nossa amizade virou bagunça” e “pra me judiar, Pafunça, nem meu nome tu pronunça”.

Grande Pelão – tão importante para a música brasileira, tão pouco reconhecido. Tive a honra de encontrá-lo algumas vezes nas madrugadas do Bar do Alemão, na Avenida Antártica, onde o povo do Jornal da Tarde ia beber depois do fechamento e era frequentado por algumas boas figuras da música paulista.

Deve ter sido dele, sim, a idéia de convidar Antonio Candido para escrever sobre Adoniran. Grande idéia.

E Antonio Candido não refugou.

Fez um texto que é um perfeito poema.

Grande mestre. Que descanse em paz.

12/5/2017

A foto de Antonio Candido é de Wilton Júnior/Estadão. 

A foto de Adoniran na capa do seu segundo LP é de Carlos A. Duttweller. 

Um Comentário

  1. maria helena
    Postado em 12/05/2017 às 7:32 pm | Permalink

    Guardo esse texto como se fosse uma medalha recebida pelo paizão. É uma pequena maravilha.

    Adoniran quis ir à casa do mestre Antonio Cândido para agradecer a homenagem. E pediu ao Pelão que o levasse até lá. Carregava nas mãos um saco de padaria que entregou ao professor, para espanto do Pelão. Dentro estava uma das bicicletinhas que ele fazia! Segundo o biógrafo Celso de Campos Jr, estava criada a Ordem da Bicicletinha!

    Obrigada por reproduzir o texto do grande professor, Sergio. Um abraço,
    MH

    enagem.

Postar um Comentário

O seu email nunca é publicado ou compartilhado. Os campos obrigatórios estão marcados com um *

*
*