Marina e a primeira escova

Sentadinha na sua cadeira no nosso carro, voltando do salão onde tinha lavado e cortado e feito escova, Marina, aos 4 anos e quase 4 meses, passava a mão no cabelo, e uma hora lá, quando chegávamos perto da Avenida Antártica, falou: – “Meu cabelo tá tão macio!…”

Assim. Com ponto de exclamação (que ela já conhece pelo nome) e também reticências.

Uma figura, essa criaturinha.

Segundo a Cau, estava ansiosa pela ida ao salão. Assim que a Cau chegou, tipo 11 da manhã, perguntou se já iriam sair para cortar o cabelo. Repetiu a pergunta várias vezes. Estava ansiosa – e creio que não tanto por cortar o cabelo, e não tanto por ir ao salão com a vovó e o vovô, mas por ir também com a Cau.

Tinha sido idéia minha. Claro que poderíamos ir sem a Cau. Da vez anterior em que ela cortou o cabelo, em 31 de março, Mary e eu a levamos sem a Cau. Ela fica conosco em qualquer situação, sem necessidade da presença da Cau.

Minha idéia tinha sido ela poder ter o prazer de mostrar o salão para a Cau. Ter o prazer de apresentar para a Cau algo que ela conhece bem e a Cau não conhecia ainda. Tínhamos feito isso com a Praça do Salles, a que ela chama de Praça da Ginástica, e ela tinha adorado – o prazer imenso de estar apresentando para um adulto algo que ela conhece bem e o adulto, não.

Funcionou de novo. Ela estava felicíssima – por tudo. Por ser Marina feliz, por estar com vovó e vovô, por estar indo cortar o cabelo, e por estar levando a Cau para mostrar o salão que a Cau não conhecia.

Saltitava de alegria. Corria de alegria. Alegria saindo pelo ladrão.

***

Estava bastante cheio o salão, o Glitz Mania. Foi a terceira vez consecutiva que fui lá com Marina – a primeira, com a Fê, a segunda, em março, com a Mary. A terceira vez consecutiva em que estou junto quando ela corta o cabelo – mas eu não tinha a menor idéia de que às quartas-feiras tem desconto, e por isso fica bem mais cheio do que nos outros dias.

Tinha até uma equipe de diversão – um rapaz fantasiado de um personagem que eu não conhecia, uma mesinha para desenho e artes com monitoras.

Foi a segunda vez em que a Flávia do salão lavou o cabelo dela – e, como da primeira vez, ela adorou. Fecha os olhinhos, parece relaxada, parece que faz aquilo dia sim, dia não.

O cabelo dela estava imenso, imenso, imenso, mas a mãe – seguramente seguindo a vontade do pai – só autorizou cortar dois dedinhos. Como da vez anterior. Não faz mal: cortar é bom, fortalece os cabelos. Acredito firmemente nisso…

E, pela primeira vez, depois do corte, ela fez escova.

A primeira escova da vida, como notou a mãe, em mensagem.

***

Cabelo lavado, cortado e escova feita… Marina queria brincar!

O salão Glitz Mania tem um gigantesca trapizonga – um escorregador imenso, que dá três voltas em torno de seu centro. O pé direito é altíssimo, deve ter mais de 4 metros, talvez até 5. E tudo – o tubo por onde as crianças sobem de escada, o tubo que fica lá no alto, e o próprio escorregador –, tudo é fechado. A gente não vê as crianças. Há apenas uma pequena janelinha de um lado e uma janelona de outro, de onde os pequenos nos vêem e acenam para nós.

Marina subir uma escada de 4 metros de altura ou mais dentro de um tubo onde não pode ser vista por nós não é uma brincadeira que me pareça muito tranquila.

E, antes de ser atendida pela Flávia, Marina não quis saber de tentar.

Pois não é que, após o corte, quis?

E eu não vi como foi. Quando ela pediu pra brincar, dei uma saída do salão, fiquei ali do lado de fora. Marina já tinha companhia suficiente com a avó e a Cau.

Aí Mary me liga, me chama de volta para dentro do salão.

A pequena – cabelo lavado, cortado, escovado, lindo – estava encarapitada lá no alto. Já tinha subido e descido sei lá quantas vezes. Subiu mais uma. Combinamos que seria a última. Durante a última, já começou a negociar por mais uma.

Marina é incansável. Quer irritar Marina é falar em parar de brincar.

Quando finalmente saímos do salão de beleza e de brincar, Marina perguntou para onde a gente iria. Queria brincar mais!

Não choramingou, no entanto, quando explicamos que vovó e vovô iriam pra casa trabalhar, e iríamos deixar ela e a Cau na casa dela.

***

No carro, na volta, passava a mão no cabelo, dizia que o cabelo estava macio.

Aí eu disse que a mamãe tinha dito, em mensagem no telefone, que aquela tinha sido a primeira escova da vida dela.

Perguntou o que era aquilo, escova. A avó explicou. Ela ouviu atentissimamente.

A primeira escova a gente não esquece.

Bem, no caso da Marina – como eu postei no Facebook – a primeira escova…

… a gente esquece logo e vai brincar!

12/7/2017

 

Um Comentário

  1. maria helena
    Postado em 16/07/2017 às 5:28 am | Permalink

    Seus cabelos ficaram lindos, Marina. Jã são ao natural, imagina depois da escova! Mas a tal da escada me deu um medo danado, você é muito corajosa!
    Um beijo, amiguinha.

Um Trackback

  1. Por 50 Anos de Textos » Marina e o Elmo em 15/08/2017 às 1:27 pm

    […] semana do Dia dos Pais, em um hotel fazenda perto de São Paulo com o pai, a mãe, o avô e a avó, Marina perdeu o Elmo, o mais antigo e mais querido de todos os seus muitos amiguinhos de pelúcia, […]

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