Marina crescendo depressa demais

Depois das 22h30 e de ter visto dois desenhos na TV, sentadinha na poltrona do avô, em um domingo cheio, sem soneca perto da hora do almoço, Marina disse para o pai e a mãe que estava cansada. E daí a pouco que estava com sono.

Deve ter sido a primeira vez na vida que ela admitiu. Se não foi a primeira, foi uma das primeiras. Eu nunca tinha visto.

Era uma característica dela (assim como de muitas crianças, talvez a maioria): Marina jamais admitia estar cansada. Estar com sono, então, nem pensar. Se a gente dizia algo parecido com “Marina está cansada”, ela rebatia de pronto, brava, firme: “Não tô, não!”

Outro detalhe fascinante: antes mesmo que eu, vendo-a trançar as perninhas, falasse o que volta e meia falo – “Marina, acho que você está com vontade de fazer xixi” –, ela interrompeu a brincadeira e falou: – “Xixi!”, saindo correndo para o banheiro.

Era uma característica dela (assim como de muitas crianças, talvez a maioria): Marina custava a admitir que queria, sim, fazer xixi.

Está crescendo a criaturinha linda e fofa. E é depressa demais.

Neste domingo, lavou as mãos na pia do banheiro dela aqui em casa sem precisar subir na privada, que era como fazia sempre. Já está alta o suficiente. Foi também a primeira vez que vi isso. Está alta o suficiente para pegar a caixinha de palavras com ímã que deixamos para ela em cima do forno de micro-ondas, porque ela gosta de colar as palavras na porta da geladeira.

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Nunca tínhamos ficado tantos dias sem ver Marina. Foram mais de 16 dias, por causa da nossa viagem a Minas. Estávamos mortos de saudade – e ela também, segundo disse a mãe, em mensagem, e também segundo pudemos observar. Ela mesma contou que fez uma musiquinha na casa da Bisa, para onde tinha ido bem cedo no domingo. “Vovô e vovó hoje, vovô e vovó hoje!”, ela cantou para nós na sala, dançando, pouco depois de chegar, por volta das 15h, deixada pelo primo André.

Pode ter sido em parte por termos ficado tanto tempo longe dela, mas o fato é que Mary e eu achamos que a pequena cresceu muito, neste mais de meio mês.

Está cada vez mais conversadeira. Cada vez mais as brincadeiras envolvem conversa, interação – quase sempre o que propõe é algum tipo de teatrinho, de representação de situações. É ela, claro, que determina o que cada um de nós vai ser. Neste domingo, a primeira brincadeira que quis foi massinha, mas uma massinha que servia de elemento fundamental de uma representação. A vovó era a cozinheira, ela era a garçonete e o vovô, o cliente do Restaurante das Princesas.

E os teatrinhos que Marina cria são como uma série de TV – em cada visita desenrola-se mais um capítulo da mesma história. Esta de hoje foi a terceira ou quarta vez que ela propôs a brincadeira do Restaurante das Princesas – e, como das outras vezes, ela, a garçonete, implicou muito com o freguês. Disse para a cozinheira, a vovó: – “Ih, é aquele cliente da outra vez, aquele que faz coisas erradas”.

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Ficamos nisso um bom tempo – desde sempre Marina é uma criança que surpreendentemente se concentra por longos períodos em uma brincadeira. Não é sempre, claro – às vezes quer mudar rapidamente de brinquedo. Mas muitas vezes se concentra e fica, e fica. Neste domingo, acabou misturando a brincadeira de Restaurante das Princesas com um pouco de desenho. Trouxe da casa da Bisa três diferentes “cardápios” – folhas A4 dobradas ao meio, com o nome Marina escrito por ela na capa, com as letras que foram coloridas com lápis de cera após terem sido escritas com caneta, e com desenhos abaixo do nome dela. (A mãe disse depois que faz dias que ela está gostando dessa coisa de cardápios.)

Então ela trouxe os três cardápios, e também o belíssimo estojo de lápis de cor de vários tipos que ganhou de brinde no aniversário de 5 anos da Mariana. Colocou tudo sobre a mesa, interrompendo o serviço no Restaurante das Princesas, para se dedicar à tarefa de completar a capa do terceiro cardápio.

Ficamos umas duas horas brincando direto e reto em torno da mesinha de centro na sala: ela de costas para a janela, de frente para nós – eu sentado na minha poltrona, a avó na cadeira de balanço.

Foi durante esse tempo que a avó tirou a foto que, na minha opinião, é a mais linda de todas as que já foram feitas de Marina – uma obra de arte.

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Ao longo da brincadeira, vai conversando. A caneta era muito especial, coberta com bordado e encimada por uma lhama. Explicou que a caneta foi presente do Bernardo, o amigo dos pais dela que se casou em Londrina dois fins de semanas atrás; contou um pouquinho sobre a viagem.

Contou que há um plano de irmos nós cinco (essa foi a expressão que usou: “nós cinco”) ver um show de uma cantora que canta como a Janis Joplin – só que ela não gosta que digam que ela canta como a Janis Joplin.

“Nós cinco” somos ela, o pai, a mãe, o avô e a avó.

Pronuncia Janis Joplin com perfeição. Mais tarde, a avó ficaria matutando sobre isso: – “Como é que pode, com 4 anos e meio, conhecer Janis Joplin,  falar Janis Joplin?”

O universo de conhecimento dessa geração que caiu no caldeirão de informação quando nasceu é de fato muito maluco. Uma hora qualquer deste domingo ela falou com a avó: 500 mililitros. Vê se quando a gente era criança pequena assim a gente tinha idéia de mililitro!

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Feliz feito pinto no lixo na brincadeira, não queria saber lanchar. Tivemos que insistir. Uma vez sentada em cima da almofadona na cadeira da vovó na mesa da cozinha, comer, que é bom, comeu pouco, mas brincou um tempão. Não contente em cozinhar a vovó como sempre cozinha, depois virou bruxa e submeteu a vovó a tratamento bruxisticamente desumano: com a ajuda do avô, nomeado por ela ajudante de bruxa, preparou uma poção mágica com água de bruxa, sal de bruxa, perna de sapo, casca de barata, meleca, unha de dragão e de dragão bebê, e obrigou a pobre prisioneira a beber tudo.

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Um detalhinho interessante: Marina mostrou-se curiosa, interessada em entender o placar de jogos, tipo 1 x 0, 2 x 1.

Marina chegou às 15h do domingo de Corinthians e Palmeiras, e o jogo começou às 17h. Mary e eu ficamos inquietos demais quando houve imensa gritaria no bairro. Seria gol nosso, ou deles? Logo em seguida, nova gritaria. Mary foi no celular à página do Estadão que trazia o momento a momento do jogo, e me mostrou: o símbolo do Corinthians 2 x 0 o símbolo do Palmeiras.

Marina, que preta atenção a tudo, disse: – “Deixe eu ver”. Mary mostrou para ela o celular, e explicou que a mãe dela, a Bisa, o vovô e a vovó torcem para o time de símbolo preto-e-branco.

Marina ouviu tudo atentamente e comentou que o Miguel e o Luca – garotos da escola – torcem para o time de símbolo verde. (Fiquei um pouco preocupado: será que minha neta vai contrariar todos os ascendentes dela e torcer pelo Palmeiras? Tóc-tóc-tóc, cruz credo!)

A partir daí, a cada nova gritaria no bairro, íamos ver no celular da Mary quem tinha feito o gol – e a cada vez Marina observava o placar. Como foi um jogo de muitos gols, 3 a 2, ela viu várias vezes o placar mudando. Aprendeu o que é um placar; não vai esquecer mais.

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Mãe e pai nos deram o prazer de virem jantar aqui. Não esperávamos por isso, e foi uma absoluta delícia. Chegaram depois das 19h, e estavam sem pressa. A pequena continuou brincando na maior.

Depois do jantar, os pais e Mary ainda à mesa (servimos para eles goiabada e queijo mineiros), Marina propôs que nós dois brincássemos de médico – ela a médica, claro, e eu o paciente. E me pediu um pouco de criatividade: – “Mas, vovô, não diga de novo como você diz sempre que sua doença é dor de barriga”.

E depois veio a sessão DVD, em que ela pediu para ver A Festa das Palavras, um desenho que eu nunca tinha visto, descoberta recente dela. Vimos os dois, sentados lado a lado, eu de vez em quando fazendo carinho na perna dela.

Coisa mais linda e fofa. Crescendo, ficando mais madura.

Passa depressa demais.

5/11/2017

Foto Mary Zaidan

2 Comentários

  1. maria helena
    Postado em 07/11/2017 às 10:10 pm | Permalink

    Tem razão o avô. A foto é muito linda. Marina está maravilhosa!

  2. Vivina Assis Viana
    Postado em 22/11/2017 às 6:18 pm | Permalink

    Será que ainda cheguei a tempo de dizer que me encantei com o texto, com a Marina, com a Janis Joplin, com tudo?

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