Fechem os olhos

Quando és novo, atravessas os filmes de olhos abertos. Fui ver Paterson, de Jim Jarmusch. O título do filme tanto é o nome da cidade onde tudo se passa, como o nome do condutor de machimbombos que escreve versos num caderno desangustiado e inocente. O motorista do machimbas é o rapaz do filme, como se gritaria em luandina euforia – “rapaz! cuidado então, rapaz!” – se estivéssemos a ver Paterson no cineminha São Domingos.

Volto aos meus olhos. Já não caminho pelos filmes de olhos abertos. Paterson, por ser todo ele sottovoce, foi uma festa de olhos fechados. Estava a linda Golshifteh Farahani, a rapariga do filme, a fazer cupcakes, uma espécie de queques antiproustianos, e fechei os olhos levado pelo aroma da cozinha da Alice, minha mãe, nos dias em que se batiam com impudor gemas e claras e o forno ardia rutilante. Já só posso cheirar-te, Alice, se fechar os olhos.

Abro os olhos e os poemas do poeta do machimbas aparecem escritos no ecrã. Bons poemas? Era o que perguntaria se, fechando os olhos, ali estivesse o António Lobo Antunes, que foi quem me mostrou o silencioso luto dos poemas de Dinu Flamand, ou a Eugénia de Vasconcellos, poeta de um quotidiano tão diferente do quotidiano do poeta do machimbombo. Pergunto-lhes?

Volto ao filme e está o supervisor dos autocarros a falar com Paterson. Desfia lamentos, doenças, males do mundo. Sim, já fechei os olhos e ouço o meu sogro, a reportar-me as mil dores de quatro cancros, a que deu a luta épica e ética de um Heitor, breve desabafo antes de me apostrofar o reaccionarismo, cantando glórias proletárias e a vermelha bandeira do comunismo que devia ter levado a Terra ao paraíso.

Olhos abertos, no final, está o poeta sentado num banco de jardim, rio em frente. A seu lado um japonês, que traz na boca um sopro de esperança. Fecham-se-me os olhos para me sentar ao lado do meu pai, debaixo de uma das suas oliveiras. Há vinte e dois anos sem nos vermos, conto-lhe estarrecedores triunfos, árduos afazeres de director, e eu a ver na semicerrada ironia dos olhos dele que não há coisa nenhuma que possa dar a um homem maior alegria do que inundarem-se-lhe as narinas com o cheiro da terra lavrada, prazer maior que a rugosidade da casca de uma árvore a magoar amorosamente a mão.

Se virem Paterson, não se esqueçam de fechar os olhos.

Este artigo foi originalmente publicado no semanário português O Expresso.

manuel.s.phonseca@gmail.com

Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia.

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