Eu vejo pessoas mortas

zzzzmanuel

Como o pequeno Haley Joel Osment, em Sixth Sense, também eu vejo pessoas mortas. Os primeiros mortos entraram-me autocarro dentro, em 1974. Três mortos das noites anteriores de tiros, medo e ódio nas fronteiras raciais dos musseques de Luanda.

A justa ira da militância veio exibir os seus mortos. Mal os viram, o encardido pudor de um lençol a tapá-los, umas irmãzinhas – seriam do Sagrado Coração de Jesus? – fugiram do autocarro no vôo etéreo que os soltos hábitos lhe permitiam. Estes não eram mortos de ressuscitar, ao contrário do morto de há dois mil anos, por místico amor do qual um dia tinham tomado hábito e véu, renunciando aos lambidos prazeres do mundo.

No seu abafado silêncio, os três mortos dessa manhã revolucionária, acotovelando-se no estreito corredor de um maximbombo de Luanda, falavam mais alto do que o mais exaltado passageiro. Falavam até mais alto do que os incendiados prosélitos que lhe empurravam os féretros. Como podem estar mortos os mortos que tão alto e bom som assim falam?

Os mortos são grandes contadores de histórias, têm o inventário da loja do passado bem acabado e foi-lhes revelado o segredo do futuro. Os meus três mortos agradeceram-me não ter fugido, os olhos fechados deles especados nos meus olhos tão abertos, e contaram-me o que estava para vir. Com desiludida lucidez.

Todo o morto que fala, fala com ágil ironia. Saberiam os meus três mortos que o morto que fala, o morto capaz de contar um romance inteiro, foi inventado pelo brasileiro Machado de Assis, neto de escravos alforriados por parte do pai, meio-açoriano por parte da mãe lavadeira? Um morto, Brás Cubas, falou ao ouvido de Machado de Assis e ajudou-o a escrever um romance dedicado “ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver”.

Continuo a falar com os meus inopinados mortos de Luanda. Apresentei-os até ao meu morto cinéfilo favorito, William Holden, o morto que, a flutuar de bruços na tépida água de uma piscina, contou um filme, Sunset Boulevard, a Billy Wilder.

Por mais que os vermes tenham já roído os três mortos que se sentaram a meu lado num maximbombo de Luanda, eu continuo a vê-los tão intactos como intacta se julgava a Gloria Swanson de Sunset Boulevard. Nos meus sonhos? Não, quando estou acordado, como se fosse um filme. Mortos do passado a preparar o que há-de morrer no meu futuro.

Este artigo foi originalmente publicado no semanário português O Expresso.

manuel.s.phonseca@gmail.com

Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia.

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