Do nariz de cera ao lead sumário

O jornalismo moderno reprimiu a veia literária de redatores e repórteres de meados do século passado. Acabou com o nariz de cera, então em uso. O nariz era um preâmbulo cheio de estilo, para criar o clima – e finalmente entrar na notícia.

Àquela altura, o mundo da informação já estava suficientemente agitado, muita notícia disputando espaço nas páginas dos jornais, para se pensar amenidades. Era o momento de entrar com um texto direto, dar logo o serviço. O que, a essa altura, também interessava ao leitor. Assim nasceu o lide, a técnica de colocar os fatos mais importantes de uma notícia na abertura do texto (exemplos abaixo).

Mas veja o nariz de cera criado pelo correspondente de O Estado de S. Paulo em Santos, em outubro de 1928.

“Ninguém diria que aquela tarde gélida de ontem, constantemente regada por aguaceiros, poderia fornecer ao noticiário dos jornais um fato policial de tamanho interesse. Pouco antes tínhamos passado pela polícia central. O sombrio casarão amarelo da Praça dos Andradas estava num de seus dias de maior calma. O jardim fronteiro estava deserto e alagado. Na porta, a sentinela, encharcada, andava de um lado para outro contando os fios de água que, interminavelmente, corriam das goteiras.

“Lá dentro, a mesma tediosa tranqüilidade. Em seu gabinete, o dr. Armando Ferreira da Rosa, delegado regional, tinha sua atenção mergulhada numa rima de cadernos, enquanto nas salas contíguas, os escrivães garafunhavam no almaço, só se ouvindo o rascar das penas sobre o papel áspero. Na sala de espera, o último ébrio apanhado à porta do botequim mastigava uma desculpa. Nada mais. Entretanto…

“Quando o velho relógio do gabinete pingou as quatro horas da tarde, o aparelho telefônico (no original, apparelho telephônico) retiniu. O delegado estendeu um braço desatento e, colocando o fone ao pé do ouvido, continuou a sua leitura, certo de que àquela hora e com um tal dia, nada de importante poderia ter ocorrido na pacata e alegre cidade onde os dias de chuva são os mais tristes do mundo.  Mas, às primeiras palavras, esqueceu-se do caderno, endireitou-se na cadeira e deu ao telefone o melhor de sua atenção. Comunicavam-lhe uma coisa extraordinária, um fato policial que parecia cópia de outro havido há pouco mais de vinte anos, e do qual ainda hoje se fala. Repetia-se em Santos o caso Miguel Trad!”

“No porto, descobria-se um segundo Crime da Mala. O corpo de Maria Fea, que o marido havia esquartejado, colocado em uma mala, e despachado em um navio. O primeiro Crime da Mala aconteceu vinte anos antes, em 1908, quando o comerciante Michel Trad matou o sócio, colocou o corpo em uma mala, despachou-o em um navio mas foi descoberto.”

                                 Direto ao assunto

Em 1959 chegou por aqui Introdução ao Jornalismo, de Fraser Bond, do Departamento de Jornalismo da Universidade de Nova York.

Na página 160, Bond ensina didaticamente como se faz um lead. Depois, dá exemplos. Para minha surpresa (faz décadas que li a obra) enumera não um, mas vários tipos de lide.

Vamos a eles.

“Se você acha que é aborrecido ouvir a sua filhinha caçula tocar piano, tenha então pena de Alfredo Smith. Pois nos últimos trinta anos ele teve que ouvir 20.500 audições infantis. E no entanto ele gosta do que faz.”

“Uma taça de prata, de aproximadamente dois pés de altura, espera num bar da Olympia Exibition Hall desta localidade, pelo vencedor, enquanto 375 garçons de todas as partes do mundo submetem seus coquetéis feitos com fórmulas originais a um concurso que, tendo início hoje, escolherá o campeão mundial da especialidade.”

“Vestindo casacos iguais de gabardine cinzenta e chapéus da mesma cor, além de usar narizes postiços debaixo de óculos sem lentes, três jovens criminosos armados invadiram ontem à tarde os escritórios da companhia de joias Anderson, situada na Main Street 24, Beverly, tendo atirado em sete pessoas e escapado com 5.920 dólares em dinheiro.”

“Um ataque de coração sofrido por Mrs Mary White, de 60 anos de idade, residente em 5 East 37th Street em Waverly, fez com que ela, de acordo com o laudo policial, perdesse a direção de seu carro ontem à noite na altura de Cedar Village, resultando disso sua própria morte e de uma de suas quatro irmãs mais novas que com ela se achavam no momento. As três outras irmãs receberam graves ferimentos.”

Nos tempos de hoje, com a informação chegando rapidamente pela Web, não se detalha tanto o lide. Mas no sábado, 31/12, Fábio Grellet, da sucursal do Estadão no Rio, foi perfeito:

“O embaixador da Grécia no Brasil, Kyriakos Amiridis, de 59 anos, foi morto na noite de segunda-feira em um crime planejado pela sua mulher, uma brasileira com quem era casado havia 15 anos, e executado pelo amante dela, o soldado da PM do Rio Sérgio Gomes Moreira Filho, de 29 anos, dentro da casa que o grego mantinha em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.”

Janeiro de 2017  

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2 Comentários

  1. Luiz Carlos Toledo
    Postado em 04/01/2017 às 12:41 pm | Permalink

    Estamos na era da objetividade chata, tão a gosto dos norte-americanos. É inevitável. A internet oferece informação em excesso, utilizando textos obrigatoriamente diminutos, para um leitor cada vez mais apressado, impaciente. Ainda se pode encontrar um bom nariz de cera nos livros. Mas, até quando existirão livros?

  2. valdir
    Postado em 04/01/2017 às 8:03 pm | Permalink

    Luiz Carlos, quando comecei no jornalismo (outro dia…)fazia tempo que não havia mais espaço para o nariz de cera. Tal seria “Brasília estava sob um céu plúmbeo e nada indicava que em certa parte da cidade estivesse para acontecer (…) um fato deveras interessante”. Renan preso pela Polícia Federal no plenário do senado.
    Quanto a livros, só os muito antigos…

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